Mark Brunkow Reymond Rolland Contra a Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração Abril 2009 Por que jovens gostam de rock and roll? Ora, porque os pais não gostam, é claro! Chuck Berry Um Tipo Simples de Homem Com dificuldade, devido sua enorme barriga de gestante, caminha até a porta de acesso ao porão. A porta esta entre aberta deixando escapar uma melodia que de onde está não consegue distinguir. Ao se aproximar da maçaneta abre um largo sorriso por reconhecer o som que tanto gosta o de seu marido terminando de afinar mais um de seus instrumentos musicais, suas obras de arte ou como ele gosta de chamar, seus filhos. Enquanto desce a escada segurando no corrimão pensa o quanto adora aquele lugar. Sentir a madeira escorregando por debaixo de sua mão, o aroma de cedro envelhecido, o cheiro do café feito no fogão a lenha que seu marido comprou com tanto custo, as paredes de pedra bruta que dão ao lugar uma incrível sensação de segurança muito diferente dos materiais usados atualmente. Era como se ao descer aqueles degraus voltasse no tempo, um tempo que já não existe mais, onde a tecnologia não superou nossa humanidade. Onde a poesia ainda encanta e a vida não parece ser tão fria e distante de tudo o que acreditamos ser verdadeiro. Fica parada alguns instantes ao pé da escada contemplando seu marido que sentado em uma cadeira de madeira com acento em palha, dedilha afinando, o magnífico instrumento. Ao seu lado direito o velho fogão e em cima a chaleira, com o café recém passado, dando um delicioso aroma ao lugar. Em sua frente à velha poltrona do “papai”, mais ao fundo a bancada de trabalho com suas ferramentas rudimentares que segundo ele é o que dá alma ao instrumento. No outro canto, em prateleiras que cobrem toda a enorme parede, muito bem arrumada sua incrível e inestimável coleção musical com verdadeiras raridades da música de todos os tempos, todos devidamente separados e etiquetados por estilos musicais, shows, apresentações ao vivo, etc. Ele absorto em sua tarefa leva ainda alguns segundos para perceber a presença da esposa a observá-lo. - Querida, o que você faz aqui em baixo? Você sabe que não deve se arriscar em descer as escadas na sua situação! - Deixa disso Memphis! Estou grávida, não doente, e você sabe o quanto eu adoro este lugar. O nosso esconderijo. – sorrindo. - Eu sei querida. – pegando a mão da esposa e a encaminhando a poltrona do “papai” em couro legítimo, bem puído, mais ainda confortável, perto do fogão a lenha para que ela se aqueça. - Nossa este violão ficou maravilhoso! - Viola querida, viola, e modéstia parte, esta eu caprichei! Memphis era um homem bonito com um metro e oitenta e cinco, oitenta quilos, corpo atlético, longos cabelos negros que lhe caiam sobre os ombros e olhos castanhos claros quase esverdeados além de ser um luthier talentosíssimo, profissão essa que herdou de seu pai. Com ele aprendeu todos os segredos de como construir instrumentos de forma artesanal de maneira única. Que sua profissão, a luthieria, se referia à arte da construção e da manutenção de instrumentos musicais levados a perfeição. E que sua origem se confunde com a própria evolução da música. - Já tem comprador? - Já – decepcionado. - Foi feita por encomenda. É uma pena na verdade! Uma obra de arte tão bela ir parar na parede de um ricaço sem talento. Se tornar um objeto de decoração, sem alma, quando poderia produzir tanta beleza com suas notas e acordes perfeitos. - Querido, para isso seria necessário um músico tão talentoso quanto você para tocá-la. Mas realmente é uma pena que a música, assim como as artes em geral já não tenham mais seu merecido valor. As pessoas já não se interessam pelo talento ou pela melodia e poesia que a música encerra. - Tempos modernos meu amor. Acho que infelizmente este é o preço que pagamos pelo progresso. Tudo muito rápido, muito pequeno e descartável. – com um sorriso triste a escapar-lhe dos lábios. - As pessoas já não têm tempo para apreciar as boas coisas da vida. Tudo tem que ser rápido senão fica ultrapassado. Veja os jovens de hoje, só se interessam por essa porcaria de música eletrônica ficam enfiados em seus computadores como se a vida se resumisse a mundos virtuais. Acredito que muitos deles nunca viram sequer um violão de verdade. - Quem diria querido, os “Nerds” – sorrindo – dominaram o mundo e no mais nem todos têm a sorte de ter tido um pai como o seu. Mas isso com certeza não acontecerá com nosso filho, pois ele terá a sorte de ter você como pai que irá ensiná-lo a dar valor à verdadeira música e a tocá-la com alma. Grace possuía uma beleza clássica com todos os contornos muito bem delineados. Esguia e imponente a primeira vista passava a impressão de fragilidade o que era logo desmentido pela personalidade forte. Olhando para esposa tinha certeza que ela era à única coisa que ainda fazia com que ele quisesse colocar uma nova vida naquele mundo tecnológico, com suas máquinas cada dia mais inteligentes, rápidas e insensíveis. Acreditava fielmente que afinal de contas se seu filho fosse um pouquinho só parecido com a mãe já seria o suficiente para tornar esse mundo um lugar muito mais belo e melhor. Percebendo sua esposa cismada pergunta. - O que foi querida? Você parece preocupada? - Nada amor. - Grace Lende Rolland, eu te conheço! Desembucha logo! O que está te incomodando? - Seu irmão telefonou hoje. – olhando para o marido tentando avaliar sua reação. - O que ele queria? Te converter? - Não fale assim querido, ele só ligou para dar um alô e perguntar do bebê. - Com o Abbey sempre existe uma segunda intenção. Eu sei que ele é meu irmão, mas infelizmente tenho que admitir que ele não é uma boa pessoa. É incrível como um fruto pode cair tão longe da árvore. O que ele disse? - Você sabe que ele não gosta de ser chamado assim. Que agora seu nome é Július. Devemos respeitar isso. E nada de mais. Perguntou como estão às coisas e para quando é o bebê. Ele pediu para falar com você e eu disse que você não estava. Fiz mal? - Não. Claro que não. E seu nome é Abbey Rolland. – com um ar entre indignado e irritado. - Vocês deveriam se entender, afinal com a morte de seu pai, agora são só vocês dois. - Querida minha relação com ele nunca foi muito boa. Ele é uma pessoa muito difícil de lidar. Sempre foi extremamente egoísta, autoritário, intransigente. Acredita que todos ao seu redor estão ali para servi-lo. Ele escolheu seu caminho quando entrou para essa religião fascista. Um bando de fanáticos religiosos intolerantes e ditatoriais como ele. Meu pai morreu de desgosto. Ele que sempre defendeu a liberdade em todas suas formas não agüentou ver seu filho mais velho virar um ditador bitolado, sem opinião, um cachorrinho domesticado. - Não exagera querido, seu pai morreu em um acidente quando voltava da turnê pela Europa. Ninguém teve culpa. E sei realmente que seu irmão pode ser bem inconveniente às vezes. Mas a culpa não é da religião, todas conduzem ao mesmo caminho, que é Deus. Minha mãe dizia que a verdade é como um espelho que caiu do céu e que cada religião pegou um pedaço desse espelho. O problema são as pessoas que as professam em causa própria, buscando ganhos pessoais. - Eu sei querida, mas a partir daquele dia que ele disse ao meu pai que iria embora para se juntar aos “fanáticos”, meu pai nunca mais foi o mesmo. Alguma coisa dentro dele morreu. Nem mesmo a música que ele tanto adorava já não lhe proporcionava a mesma alegria. - O seu irmão nunca entendeu seu pai, por preferir fabricar instrumentos e tocar com sua banda a trabalhar em uma empresa como os outros. Ele é muito ganancioso. Sempre acreditou que se seu pai fosse como os outros, a vida de vocês seria melhor. - É verdade ele nunca aceitou o fato do papai não ter um emprego normal assim como o pai dos outros garotos. Ele tinha vergonha de dizer que papai era músico. Ele sempre achou que a música era uma perda de tempo. Ele dizia que meu pai vivia no passado, que aquilo que ele e seus amigos “bêbados” faziam, um simples computador doméstico fazia muito melhor, mais rápido e mais barato. E que ninguém mais se interessa por aquela porcaria feita por velhos em instrumentos arcaicos. - Seu irmão nunca entendeu o verdadeiro sentido da música querido. Ele apenas escutava a música, não a ouvia. Mas ele amava seu pai. - Não querida, Július ama e sempre amou somente ele e mais ninguém. Meu pai sempre amou a vida com tanta força. Já ele sempre com medo dela. - Seu pai era como você, um apaixonado pela vida, pela música, pela liberdade. Já o seu irmão... - Para ele tudo era culpa de meu pai ou como ele dizia, “DA MALDITA MÚSICA”! - E o fato da sua mãe ter abandonado vocês tão novos só serviu para aumentar o ódio de seu irmão pela música, amor. - Mas meu pai nunca deixou faltar nada em casa e sempre estava presente. Não tínhamos uma vida de ostentações, mas éramos felizes. E em relação a minha mãe como dizia meu pai não podemos exigir de alguém aquilo ela não tem para nos dar. - Eu sei querido. – colocando a mão sobre a barriga enorme e sorrindo para o marido desviando o rumo da conversa. – Ele esta terrível hoje, não para de chutar. - E como vai o meu pequeno Hendrix Rolland? – encostando o ouvido na barriga da mulher. - Falando nisso querido, eu andei pensando e gostaria de dar a ele o nome de outro grande músico, se você não se importar? - Claro querida. Que tal Elvis Aaron Rolland ou Lennon Rolland? - Eu estava pensando em Reymond Rolland. – olhando fixamente para o marido para ver sua reação. Ele extremamente emocionado com os olhos marejados. - O nome do meu pai? - Como eu disse um grande músico além de um excepcional ser humano. – sorrindo. - Ele ficaria orgulhoso querida, e eu também, obrigado. – vai até ela e lhe dá um beijo. Pegando a viola que estava deitada em seu colo, como um gato dormindo, começa a dedilhar uma canção que seu bisavô tocava para seu avô que tocava para seu pai que ele agora tocaria para seu filho. Uma canção muito antiga, de um tempo muito distante, onde a música ainda tinha valor e era verdadeiramente apreciada pelas pessoas, um tempo em que ainda se falava de amor e as pessoas escutavam. Enquanto tocava Simple Man do Lynyrd Skynyrd refletia o quanto a letra fazia sentido agora no ano de 2134, e se seus autores algum dia acreditaram que ela seria tão atual agora quanto quando foi feita. Mamãe me disse quando eu era jovem Venha sentar-se ao meu lado, meu único filho, E escute com atenção o que eu digo. E se você fizer isto irá lhe ajudar em algum belo dia. Leve seu tempo... Não viva tão rápido, Dificuldades virão e passarão. Vá encontre uma mulher e encontrará amor, E não esqueça filho, Há alguém lá em cima. E seja um tipo simples de homem Seja algo que você ame e entenda. Seja um tipo simples de homem... Mostre-me o Caminho Enquanto caminha vagarosamente pelo longo corredor Július absorto em seus pensamentos reflete sobre a trajetória de vida de seu Mestre. Passando pelos enormes vitrais na parede a sua direita, que projetam sombras coloridas em formas geométricas pelo chão, relembra a primeira vez que teve conhecimento de Manoel Santiago de Castro. Os fatos em sua mente se desenrolam como um filme e são tão vívidos que era como se ele os tivesse vivendo naquele momento. “Era uma tarde chuvosa e como sempre acontecia quando seu pai saia para uma turnê com sua banda, Július com dezessete anos, se trancava no quarto para ver televisão e ficar remoendo o quanto odiava a vida que seu pai levava e os obrigava a levar. Não aceitava ter que trabalhar meio expediente para ter seus caprichos realizados. Não conseguia entender o fascínio que a música exercia sobre as pessoas e porque elas ficavam tão contentes quando as ouviam.” “De personalidade fechada e intolerante não gostava de demonstrações de carinho ou afeto em público sempre repreendendo com olhares ou mesmo palavras seu irmão e mãe quando os via abraçados. Não entendia como seu pai podia gostar tanto de tocar com seus amigos ao invés de procurar um emprego descente para lhes proporcionar uma vida mais suntuosa. Admitia que nunca lhe faltasse nada, nem a ele nem a seu irmão, mais porque se contentar com o suficiente quando se pode ter mais.” “Enquanto divagava assistia à televisão quando viu uma reportagem que contava a história do ex-playboy multibilionário e agora líder religioso, Manoel Santiago de Castro, dono de um império das telecomunicações além de empresas nos mais variados setores industriais que durante uma viajem de passeio pela floresta Amazônica fica dez dias perdido na mata e ao ser encontrado semimorto com muita febre dizia ter tido uma revelação. Segundo o empresário nesta revelação, quando estava à beira da morte, uma voz divina que o chamava dizia: - Você foi abençoado com muito dinheiro, saúde, beleza e poder. E o que você fez com esse presente que lhe enviei. Gasta tudo com mulheres, bebida e farras regada a muitas drogas. Mas seu destino é outro. Você é o escolhido e deve conduzir meu povo a salvação. Chega de desordem, excessos dos mais variados tipos, libertinagem e falta de respeito a quem lhes deu a vida. Salvarei sua vida para que você divulgue o novo evangelho. Você deverá usar sua fortuna para divulgá-lo. E conduzir meu povo a terra prometida. Você fundará a Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração. Agora descanse, pois seu trabalho esta apenas começando.” “Neste instante ouve barulhos ao seu lado e vê a equipe de resgate chegando, então adormece. Ao se recuperar funda, assim como ordenado, a OCSC (Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração) constrói um palácio para realizar as reuniões de evangelização, divulga maciçamente sua doutrina utilizando seu império das telecomunicações e em poucos anos tem vários adeptos fanáticos espalhados pelos quatro cantos do mundo.” “Basicamente a nova religião pegou tudo o que é considerado pecado no Catolicismo, Budismo, Judaísmo e no fundamentalismo Mulçumano e englobou em sua doutrina. Proíbe qualquer e todo tipo de excesso sendo extremamente rígida com seus adeptos. Prega que para atingir a salvação seus seguidores devem abster-se das alegrias mundanas do mundo. Que música, teatro, pintura as artes em geral nos conduzem a questionamentos que nos desviam de nossa missão na terra que é glorificar ao Senhor. E que para isso devemos progredir financeiramente para atingirmos nosso potencial máximo e proporcionar ao Senhor uma digna adoração.” “Július mal podia acreditar no que estava ouvindo, pois em seu íntimo ele acreditava em tudo aquilo, que realmente a felicidade nos conduz a ilusão de alegria que logo é destruída pela dura realidade e o que resta é apenas sofrimento. Que a felicidade e a esperança na realidade são uma mal com que nos fazem acreditar que a vida pode ser boa quando na realidade a única maneira de atingirmos isso é através da disciplina e autocontrole de nossas emoções.” “No mesmo dia saiu de casa para se batizar na nova religião. Agora quinze anos depois com muito trabalho e dedicação a doutrina que escolheu para sua vida colhe os frutos de seu trabalho, é o braço direito, homem de inteira confiança de seu Mestre.” Parado em frente à enorme porta de carvalho maciço toda entalhada bate levemente com os nós dos dedos e espera pacientemente como sempre fazia. Logo houve a resposta esperada. - Entre. Apesar de já ter estado ali inúmeras outras vezes sempre se impressionava com a beleza do escritório de seu mestre. Era uma sala enorme toda decorada com móveis rústicos o que dava um ar ainda mais solene, quase sagrado ao lugar. O assoalho sempre extremamente bem encerado brilhava como um espelho. Ao fundo a mesa em mogno belíssima refletia a luz das enormes janelas de onde se via o jardim exuberante. Nas paredes laterais prateleiras repletas de livros. Parado em frente a uma delas Manoel Santiago de Castro, seu mestre lê um livro com extremo interesse. Olha durante alguns segundos para ele e sem saber se deve interrompê-lo somente pigarreia. O homem de cerca de sessenta anos, corpo atlético, um metro e oitenta, cabelos grisalhos, ombros largos de estrema elegância o que lhe impunha ainda mais respeito como que se despertasse de um transe vira a cabeça na direção de onde veio o som. Olhando para Július, sorri. - Olá Július. - Olá Mestre. – com uma leve reverência. - Você não deve saber Július, mas foi basicamente graças a este livro que tenho nas mãos que me tornei o que sou hoje. – balançando o livro no alto. - A Bíblia Mestre? - Não Július. A Bíblia foi um dos livros, assim como o Torá, os Vedas e os Upanixades, o Alcorão entre outros. Este aqui foi o que fez com que eu descobrisse como realizar minha verdadeira missão na terra. Foi o que abriu minha mente. - E, se o senhor me permite saber, que livro é este Mestre? - Na realidade é um conto Július. Um simples conto. Com poucas, mas reveladoras verdades sobre a alma do ser humano meu rapaz. De autoria de um extraordinário escritor antigo, Machado de Assis. O nome deste conto é A Igreja do Diabo. Percebendo o espanto do rapaz o senhor sorridente logo trata de explicar. - Calma meu amigo. Sente aqui que vou explicar. – apontando uma cadeira em frente a sua mesa. - Quando eu tinha mais ou menos a sua idade, cerca de trinta anos e procurava uma maneira de cumprir minha missão, me presentearam com este livro. Nele o conto “A Igreja do Diabo” que narrarei para você. Espero que eu consiga reproduzir e lhe transmitir toda a beleza e genialidade de Machado de Assis. Se você não se importar é claro? – olhando de canto e com um leve sorriso a lhe escapar dos lábios. - Claro que não Mestre, será uma honra, afinal um conto que lhe serviu de inspiração para nos mostrar a verdade sempre será bem vindo. - Então vamos lá. “Conta um velho manuscrito beneditino que um dia o Diabo cansado de viver em segundo plano sempre dependendo dos favores daqueles que se rebelavam contra as ordens de Deus e esperando que lhe dessem alguma coisa resolve fundar uma igreja. Apesar de ter bastantes adeptos e seguidores e os lucros serem altos sentia-se humilhado por estar em segundo plano. Sem ordem, organização, regras, sem nada. Então uma igreja era a solução. A Igreja do Diabo.” “Cego por seu orgulho imaginava sua igreja belíssima, imponente cheia de seguidores fiéis a final não haveria quem pudesse com a Igreja do Diabo onde tudo o que é pecado nas demais igrejas na sua seria permitido e tudo que é permitido nas outras na sua seria pecado. Seu credo seria único enquanto todas as outras se digladiariam com visões diferentes do mesmo tema e a sua seria única. Afinal existem muitas maneiras de afirmar, mas só uma de negar tudo.” “Então cheio de orgulho segue para ter com Deus e contar suas intenções. Não por respeito ou apreço, mas para poder se vangloriar sobre seu antigo mestre, ou em sua visão agora, antigo mestre vencido. Chegando lá Nosso Senhor recolhe um velho ancião. O Diabo olha para Ele e fala.” - Cuida bem deste ancião Senhor, colocá-lo no melhor lugar que tem, pois com certeza será o último que recolherá. - sorrindo zombeteiro. - Que queres tu aqui? E conhece este homem? Sabe o que ele fez? - Não, mas hoje venho comunicar que estou fundando minha igreja. A Igreja do Diabo. Uma hospedagem muito mais em conta, digamos assim, que os altos preços que o senhor prega para entrar em seu reino. - E por que veio até aqui comunicar isso. Não é do seu feitio já que sempre age de maneira mesquinha e falsa. - Exatamente. Hoje venho comunicar que vou a terra para anunciar a boa nova aos homens. Se o senhor não se importar é claro. – sinicamente. - Vai criatura tola. Funda sua Igreja. Recolhe aqueles que assim desejarem. “Já na terra o Diabo não perdeu tempo. Prometia a seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias e riquezas o céu era o limite sem restrições morais de qualquer forma. Confessava que era o Diabo. Mas o verdadeiro, que durante milênios foi espezinhado, difamado por todos. Que era afinal Lúcifer, ou seja, o emissário da Luz. Falava de maneira gentil dizendo lhes darei tudo, tudo, absolutamente tudo, enquanto sorria satisfeito. Conclamava que a soberba, a luxuria, a gula, a inveja, a preguiça, a avareza, e a ira não passavam de condições inerentes ao ser humano e que por isso mesmo não poderiam ser negadas. As pessoas corriam atrás do Diabo se deleitando em suas palavras. E logo tinha a seus pés milhões de fiéis ávidos por seus ensinamentos.” “As previsões do Diabo se concretizaram em pouquíssimo tempo não havia uma única religião no mundo que não conhecesse a Igreja do Diabo, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. Sua doutrina se propagou como fogo em palha.” “Um dia, porém, muitos anos após a fundação de sua igreja notou o Diabo que muitos de seus fiéis pecavam, praticando antigas virtudes. Pessoas ajudando estranhos, sendo educadas, fiéis aos seus parceiros, praticando tudo o que era proibido em sua crença. As filas em seus confessionários todos os dias mais cheias. Não teve dúvida e a julgar por suas ações acreditou logo que isso não passava de uma artimanha de Deus e segue furioso para ter com Ele.” “Diante de Deus despejou tudo o que estava acontecendo contando fatos ocorridos de pessoas praticando boas ações e que a culpa deveria ser de alguma artimanha de Deus. Este, calmo e tranqüilo, apenas olha para o pobre Diabo e sorrindo fala.” - E o que você queria, pobre Diabo? Está é a eterna, contradição humana. Nunca estarem satisfeitos. Dê escolha e eles experimentarão! É assim que eles aprendem, com seus erros. – sorrindo complacente. Ao terminar o texto olha atentamente para seu pupilo preferido tentando identificar sua reação. - Então Július o que achou? - Fantástico senhor, mas desculpe minha ignorância como este conto pôde influenciar o senhor em sua missão? O velho sorrindo olhando atentamente para o rapaz diz: - Meu caro discípulo, durante milênios apareceram diversos profetas, líderes espirituais, as mais diversas vertentes religiosas e doutrinárias e todas fracassaram em sua real finalidade que é conduzir o ser humano a salvação de sua alma. E sabe por quê? – sem deixar que o outro respondesse. – É por que todas estas religiões possibilitam inúmeras interpretações de suas doutrinas o que causa uma grande confusão entre seus seguidores. Afinal como saber qual está correta se para cada religião existe uma interpretação diferente do mesmo texto. O ser humano anseia por ser conduzido, ele necessita que lhes digam o caminho a seguir. Não é a toa que somos as ovelhas do Pai, seu rebanho. As pessoas dizem que querem variedade possibilidades para seguir o que acham correto, mas na realidade elas necessitam é de orientação. Eu percebi este simples detalhe lendo este magnífico conto. A contradição humana existe porque existem muitas possibilidades de mudanças. Muitos caminhos a escolher. Todos os dias somos bombardeados com informações das mais variadas possíveis. É só ligar a televisão ou o rádio, folhear uma revista e só o que teremos são sugestões para sermos mais felizes. Seja mais magro ou o mundo não lhe aceitará. Seja mais bonito, tenha dinheiro, compre um carro mais possante, seja isso, seja aquilo. As pessoas estão perdidas meu caro. Buscam uma felicidade que não existe e assim ficam frustradas e com isso vem a sensação de incapacidade e incompetência e uma eterna insatisfação e logo a depressão. - O senhor esta coberto de razão Mestre e é por isso que aqueles que se unirem a nossa causa estarão salvos. Nós podemos providenciar tudo o que eles necessitam. Mas as tentações do mundo são muito fortes para alguns. Eles vivem na ilusão de achar a felicidade nesse mundo mundano e profano. Como iremos poder mudar isso? - Exato Július, esta é a questão e foi por isso que lhe chamei aqui hoje. Finalmente depois de anos em batalhas jurídicas finalmente esta pronta Július! Conseguimos a autorização para iniciarmos a construção da nova terra prometida. A Torre da Vigília sairá do papel. Para podermos salvar nossos fiéis precisamos afastá-los das influências malignas do mundo. Por isso comprei uma vasta extensão de terras no mesmo lugar onde tive a minha primeira visão, a floresta amazônica, e construiremos uma cidade que poderá abrigar milhões de nossos seguidores com toda infra-estrutura necessária para que não tenhamos que depender do resto do mundo. Será um farol a iluminar os caminhos dos escolhidos em meio às trevas. Um norte a guiar os passos para uma nova ordem mundial. – com os olhos fixos no nada como se estivesse tendo uma visão. - Amanhã mesmo começaremos a construção da Torre da Vigília. E se tudo correr como o esperado, creio que dentro de dez anos poderemos iniciar uma nova era. Será uma das maiores obras arquitetônicas já construídas pela humanidade e que durara mil anos antes que consigam ultrapassá-la. - Que maravilha Mestre, e o senhor quer que eu cuide de todas as providências? - Sim meu discípulo. Mas seu trabalho meu amigo será muito mais importante do que isto. Quero que você seja o regente supremo da Torre da Vigília. O mentor da nova ordem mundial. Július não podia acreditar no que estava ouvindo. Ser o regente supremo da terra prometida. A Torre da Vigília foi criada para desenvolver uma nova ordem mundial. Seus moradores estariam totalmente alheios ao resto do planeta livres de todas as tentações e impurezas do mundo corrupto e impuro. Ninguém seria forçado a entrar, mas aqueles que ali entrassem nunca mais poderiam sair. Deveriam seguir todos os ensinamentos do Mestre ao pé da letra. Se entregar totalmente de corpo e alma a Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração. E o regente seria considerado um Deus para seus moradores. Ainda aturdido com a revelação Július pergunta: - Mestre, mas este posto é seu por direito. Como que sobre ele tivesse se abatido um cansaço enorme o velho olhando fixamente para o nada fala: - Eu nunca revelei isso a ninguém Július, mas aquele dia na mata quando tive minha conversa com o criador Ele disse que eu deveria conduzir o seu povo para a terra prometida, mas não poderia entrar nela, assim como Arão, por meus pecados anteriores. E é você meu amigo que deve conduzi-los nesta jornada em busca da luz. Július com a boca aberta de espanto não consegue dizer nada. O velho percebendo a surpresa do rapaz fala. - Não se preocupe Július você é mais do que qualificado para esta missão. Seu caráter firme e severo será muito importante principalmente nos primeiros anos da Torre da Vigília. Nossos fiéis necessitarão de pulso firme e foi por isso que Nosso Senhor o colocou em meu caminho. Você será um grande líder. Acostumado a nunca questionar seu Mestre Július apenas abaixa a cabeça e cai de joelhos chorando agradecendo a honra de ser o novo messias. Nasce um “Rey” Sentado na sala de espera do Hospital Geral da Capital, um cubículo em cor pastel sem janelas com um sofá pouco confortável e algumas revistas velhas, Memphis balança a perna freneticamente aguardando notícias de sua mulher que entrou em trabalho de parto a mais de seis horas. Cada vez que alguém saía pela porta, que dava acesso à sala de cirurgia, o coração de Memphis quase saía pela boca. Por várias vezes agarrou o braço de uma enfermeira que passava por ali perguntando como estava sua esposa. E por mais de uma vez foi avisado que estava tudo bem e que a demora era normal e que logo ele poderia ver sua esposa e filho. Quando já não agüentava mais de apreensão e estava prestes a invadir a sala de cirurgia, aparece em sua frente à enfermeira dizendo que tudo esta bem e que ele já poderia encontra sua esposa e filho que repousavam no quarto. Ao entrar no quarto, Memphis com os olhos marejados abraça sua esposa e lhe dá um beijo na testa. - Shiii! Cuidado querido ele esta dormindo. Foi só então que Memphis percebe a pequena trouxinha nos braços da esposa. Com cuidado puxa um pouco do pano que cobria o rosto do pequenino Reymond Rolland. Apesar de todo enrugado parecendo um joelho Memphis achou o bebê mais lindo do mundo. Muito cabeludo e com quase três quilos e quatrocentas gramas era um bebê muito saudável. - Ele é lindo querida. Puxou a mãe. – com a visão embargada pelas lágrimas. - Coitadinho estava apertado. Quando nasceu fez xixi no colo da enfermeira. – rindo. - Olá amiguinho eu sou seu pai, Memphis Rolland e prometo que você será muito amado e se Deus quiser um grande músico e um ser humano extraordinário como seu avô. - Disso não tenho a menor dúvida amor. A criança como percebendo a presença do pai agarra firme com sua pequenina mão o dedo do pai. - Como ele é forte querida. Olhe esses dedos queridas. Como são compridos. São dedos de músico. – admirado. - Você sabe que dia é hoje querido? - Claro querida, o dia mais feliz de minha vida! - Além disso, querido. – sorrindo. - Hoje é dia 8 de Janeiro de 2135. – sorrindo. - Não pode ser. Você tem certeza? – olhando para esposa incrédulo. - Sim querido. Hoje faz exatamente duzentos anos que Elvis Aaron Presley nasceu. Nosso filho nasceu no mesmo dia e mês que o rei do Rock and Roll. Não é uma coincidência incrível! - Coincidências não existem querida. Isto é um sinal. Um presságio. Exatamente duzentos anos depois nasce um novo “Rey”. – sorrindo. Sua esposa como os olhos cheios de lágrimas vendo as duas pessoas que mais ama no mundo em sua frente começa a cantarolar suavemente ninando aos dois. Lua azul, você me viu na maior solidão Sem um sonho no coração Sem um amor pra ser a minha paixão Lua azul, você sabe bem porque eu estava ali Você me ouviu pedindo aos céus Por alguém por quem eu sentisse algo E do nada, apareceu na minha frente A única que meus braços poderiam querer abraçar Eu ouvi alguém sussurrar por favor, me ame Mas quando procurei só vi que a lua azul tinha ficado dourada Lua azul, agora não estou mais sozinho Sem um sonho no coração Sem um amor pra ser a minha paixão Lua azul Eu Coloquei um Feitiço em Você Ainda atordoado com a notícia Július não podia acreditar. Seus mais íntimos sonhos estavam se tornando realidade. Ser o regente supremo de uma nação inteira. Seria adorado por milhões. Enquanto caminhava pelo enorme corredor em direção aos seus aposentos relembra a insólita conversa que teve com uma cigana poucos dias antes de sair de casa e se juntar a Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração. Mais uma vez em sua mente os fatos se desenrolam como em um filme. Aguardava pacientemente o ônibus como fazia todo santo dia depois de trabalhar em um emprego medíocre que relutava em largar mesmo sabendo que isto iria matá-lo. Olhava ao redor a procura de um pouco de esperança, mas só conseguia ver rostos cansados que assim como ele, já não acreditavam nos sonhos que tiveram em quanto jovens. Pessoas que também já não percebiam as singulares maravilhas do dia-a-dia, como uma pequena flor que bravamente brotava entre as pedras da calçada ou o carrossel de cores produzido pelo por do sol entre o cinza dos prédios da metrópole. Pessoas para as quais a vida não passa de um tormento. Em sua frente uma senhora bem acima do peso ideal, com cerca de sessenta anos, ombros caídos e olhar estático sugava vorazmente uma mexerica e repetidamente cuspia as sementes no chão impregnando o ar com aroma de final de feira livre. Ao seu lado um rapaz magrelo com calças dois números maiores que ele, cueca aparecendo, masca chiclete e nos ouvidos um pequenino fone que produzia um chiado muito forte. Logo atrás um senhor estressado fumava compulsivamente dando pequenos passos de um lado para o outro agitando os braços e reclamando consigo mesmo da demora do lotação. Apenas mais um final de tarde como tantos outros que já tivera e que tinha a certeza de que não seriam os únicos. Apesar de jovem, com os anos desenvolveu a arte da indiferença o que permitia que se desligasse dos demais seres humanos. Para tanto só precisava fixar os olhos em um ponto qualquer e logo entrava em seu mundinho particular tornando-se quase um autista. Esta foi à maneira que encontrou para suportar as horas, dias e anos de monotonia falta de perspectiva e desilusão que tanto o afligiam. Já emerso em seu “mundo de indiferença” começa a ouvir um ruído muito distante. Prestando mais atenção percebe que era uma voz que vinha de muito longe dizendo palavras que não conseguia compreender, algum tipo de dialeto ou algo parecido. Aos poucos o som foi ficando mais alto. Percebendo então que o som é real e vem de algum lugar próximo. Desperta de seu “transe” olha ao redor a procura da origem daquela voz misteriosa que mais parecia um encantamento. Poucos metros à frente, sentada próxima a uma banca de jornal, estava uma senhora de cabelos negros longos encaracolados, que não via água há muito tempo, se é que algum dia já vira, presos por fitas coloridas. Tinha um rosto bonito apesar da idade já avançada, denunciada pelas marcas de expressão causadas pelo tempo e pela vida nas ruas, o que indicava que na juventude fora uma mulher muito bela. Vestia uma blusa vermelha enfeitada com babados e uma saia que originalmente deveria ter sido branca toda rendada. Em seus dentes, pescoço, pulsos e dedos adereços em ouro puro. Ficou fascinado com a estranha figura e perplexo por não ter percebido sua presença até aquele momento. Era como se ela tivesse surgido do nada ou de uma dimensão paralela onde à vida é cheia de magia e beleza. Este fato só veio a comprovar o que lera em um livro que dizia que criamos uma redoma invisível de cerca de um metro ao nosso redor e só prestamos atenção ao que entra no perímetro dela. Não conseguia tirar os olhos da cigana que por hora ou outra parava de falar para vasculhar dentro de uma das várias sacolas que carregava. Em uma destas buscas retirou um pequeno objeto arredondado, que lembrava uma pedra de rio, preso a uma fita vermelha. Pronunciou algumas palavras naquele dialeto á muito esquecido e levantou-se. Ajeitou suas vestimentas e começou a caminhar. Um caminhar altivo, como uma rainha cigana, que foi abandonada por seus súditos e era obrigada a carregar suas tralhas. Julius olhava ainda fascinado para a cigana quando de repente percebe que ela estava vindo em sua direção. Mais do que rápido desviou seu olhar ficando de costas, pois não queria ser incomodado por este tipo de pessoa. Quanto mais próximo sentia a presença da exótica mulher mais nervoso ficava. Pensava mesmo em sair da fila para não ter que passar pelo constrangimento de ser abordado por tal figura. Quase em desespero, quando estava prestes a se mover em direção à banca de jornal vê a cigana passar por ele sem lhe dar muita atenção. A sensação de alívio que sentiu foi indescritível. Passado o susto, mais relaxado, tentou voltar a sua habitual indiferença procurando um objeto qualquer para voltar ao seu estado de alienação. Já quase em “transe” sentiu em suas costas um toque que fez com que seu corpo estremecesse. Olhou assustado para trás e para sua surpresa diante de seus olhos, parada sorrindo com seus poucos dentes, a velha cigana. - Olá filho não quer saber seu futuro? Com a agilidade de quem já fez isto muitas vezes, antes que o rapaz pudesse responder qualquer coisa ela agarra e puxa sua mão. Ele sem reação diante da inesperada situação fica como que paralisado olhando atônito para a cigana. - Vejo um grande futuro em sua mão e caberá apenas a você escolher o caminho a tomar. Suas decisões afetarão não só a sua vida, mas a de milhões. E mesmo daqui a mil anos seu nome ainda será venerado. O rapaz tentou puxar a mão, mas a cigana segurando firme continua a falar como se estivesse possuída. - Apesar de sua pouca fé, a vida não é preta e branca meu filho, não existe a divisão entre o bem e o mal. Existem sim, atos bons e maus. É a quantidade destes atos que praticamos que indica quem somos. Ainda há esperança para você. E conseqüentemente para nós também. Lute contra o seu orgulho e abra seu coração. Você poderá fazer um enorme bem a toda a humanidade, mas esta decisão será só sua. Com um puxão firme o rapaz consegue soltar a mão. - Não acredito nestas bobagens velha. - O fato de você acreditar ou não acreditar em algo não faz dela verdade ou mentira. A verdade é uma só, você queira ou não. - Suma daqui velha louca e me deixe em paz. - Quando ele vier te procurar diga que não aceita. Não é ele que conseguira preencher o vazio que você sente. Mande-o embora. O que você procura é o amor. Quando você encontrar o amor verdadeiro, este sentimento de vazio e toda esta angústia desaparecerão. - Do que é que você esta falando velha? Esta louca? Neste momento escuta-se um estrondo violento. Todos olham assustados para esquina para ver o que aconteceu. Um ônibus fura o sinal vermelho e bate em um caminhão que passava, mas felizmente ninguém ficou ferido. Július volta-se para falar com a cigana, mas ela havia desaparecido. Procura por todos os lados e nada. Era como se ela nunca tivesse estado ali. Olha para o senhor atrás de si e pergunta: - O senhor viu para onde foi àquela cigana que estava aqui conversando comigo? O senhor com olhar de espanto. - Parece que não foram apenas as pessoas que estavam no ônibus que bateram a cabeça. Não havia ninguém conversando com você. Você estava parado aí sozinho com esta mesma cara de bobo desde que eu cheguei aqui. Agora já segurando a maçaneta da porta de seu quarto, sorri e apenas sussurra. - Quem diria... Continue Meu Filho Desobediente A infância de Reymond Rolland corria como esperado. Era um garoto muito ativo, esperto e terrivelmente curioso não dava um minuto sequer de descanso para os pais, ao menor descuido o menino logo aprontava alguma. Mas o mais importante é que era extremamente amado e feliz. Tudo corria normalmente pelo menos até ele completar quatro anos de idade. Em uma tarde tranqüila, sentada bordando uma camisa para Memphis, um de seus passa tempo preferidos, Grace percebe algo estranho em Rey. O garoto que brincava com uma revista, rabiscando, começa ler as manchetes que estavam na página. Grace no começo achou que estava ficando louca, mas o garoto continuou lendo freneticamente. Admirada chama Memphis que sobe do porão apavorado. - O que foi? – esbaforido. - Querido acho que tem algo “diferente” com Rey. - O quê? Do que você esta falando Grace? - Rey. Nosso pequeno Reymond. Ele está lendo! – sorrindo. Memphis olha intrigado para o garoto que sorri para ele. - Lendo? Mas ele só tem quatro anos. Ele mal sabe falar direito. - Eu sei, não é fantástico! Ele deve ser super dotado. Eu li sobre isso. - Será querida. – ainda sem tirar os olhos do filho. - Como você explica isso? Grace pega a revista e mostra outras manchetes para o garoto que lê todas. Vai até a estante apanha alguns livros e o menino lê seus títulos. - Viu, eu não falei querido! - Espera um pouco querida. – e sai correndo em direção ao porão. Alguns minutos depois retorna trazendo um violão e um teclado. - O que você vai fazer com isso Memphis? - Eu quero tirar uma dúvida. - Que dúvida? - Há alguns dias atrás eu estava com Rey no porão enquanto fabricava um violão e ele brincava perto deste teclado. Eu não conseguia concertar uma peça e aquilo estava me deixando irritado. Então começa a tocar uma música linda, apenas no piano, no rádio e você sabe querida como a música me acalma. Ouvindo aquela música maravilhosa eu consegui terminar o violão rapidinho. Feliz da vida peguei Rey no colo e foi só então que percebi que o rádio estava desligado, estava até fora da tomada e no porão estávamos apenas eu e Rey. Então de onde veio aquela música? - Você não acha que Rey... – sorrindo. - Vamos ver. Ele coloca o teclado perto de Reymond e os dois ficam olhando esperando para ver o que acontece. Esperam algum tempo e nada. - Acho que devemos chamar a atenção dele querido. Memphis batendo em algumas teclas do teclado chama pelo filho. - Rey... Aqui filho, olha o que o papai trouxe para você. E nada. O garoto continua entretido com seus brinquedos. Depois de várias tentativas de fazer com que o menino tocasse no teclado eles acabam desistindo. - Não fique assim querido ele aprenderá a tocar do método normal, com seu pai. - Eu sei querida. – sentado no canto da sala com o vilão na mão meio desapontado enquanto dedilha alheatoriamente o violão. Reymond olhando o pai dedilhar o violão sorri e bate palminhas de alegria. - Você gosta disso não sapeca. – com voz de bebe. Então para surpresa de Memphis, Rey começa a acompanhá-lo no teclado. Memphis toca uma nota e Rey toca a mesma nota. Todos os pelos do braço de Memphis se arrepiam vendo seu filho acompanhá-lo em quanto dedilha o violão. Grace com os olha marejados de lágrimas não acredita no que esta ouvindo e vendo. Memphis empolgado começa a tocar uma melodia e logo, ele e Rey, estão fazendo um dueto de teclado e violão. Com o passar dos anos os Rolland foram descobrindo muitos outros talentos de seu filho assim como as dificuldades de se criar uma criança tão especial. Como muitos dos superdotados, Reymond não conseguiu se adaptar as escolas tradicionais, pois era considerado desobediente e desatento e foi educado em casa por Grace com o apoio de especialistas, o que na realidade não foi uma tarefa assim tão difícil. Reymond aos doze anos foi considerado por pesquisadores como um prodígio das inteligências múltiplas. Teoria desenvolvida na década de 90, por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Harvard liderada pelo psicólogo Howard Gardner. Basicamente essa teoria identificou e descreveu sete tipos de inteligências nos seres humanos que são: a lógica-matemática, que é a capacidade de analisar problemas e operações matemáticas e questões científicas, a lingüística que caracteriza-se pela maior sensibilidade para a língua falada e escrita, a espacial que é a capacidade de compreender o mundo visual de modo minucioso, a físico-cinestética que é a capacidade de utilizar mais facilmente o corpo para a dança e os esportes, a intrapessoal que é a capacidade de se conhecer, a interpessoal que é a habilidade de entender as intenções, motivações e desejos dos outros, a naturalista que é a sensibilidade para compreender os fenômenos e padrões da natureza, a existencial que é capacidade de refletir sobre questões fundamentais da existência, e a que Reymond mais se destacava a musical que é a habilidade para tocar, compor e apreciar padrões musicais de qualquer tipo. Bastava para Reymond ouvir apenas uma vez uma melodia ou música e nunca mais a esquecia e podia reproduzi-la minuciosamente e com extrema perfeição. A vida não poderia ser melhor para Rey. Crescia feliz e saudável. Quando não estava na rua com outros garotos, de sua idade, estava ouvindo ou tocando músicas, na maioria das vezes clássicos do rock como Carry on Wayward Son do Kansas. Sua paixão pela música era tanta, que aos treze anos era uma verdadeira enciclopédia do rock graças à magnífica coleção musical de seu pai. Aprendeu o ofício do pai ajudando-o a fabricar instrumentos musicais e com dezesseis anos já era um multi-instrumentista talentoso capaz de fabricar e tocar qualquer tipo de instrumento. Mas o que ele mais gostava era no fim de tarde depois de um dia de intenso de trabalho se sentar junto a ele para poderem tocar uma canção antiga. Mas se existe uma certeza nesta vida é que as coisas mudam. Elas sempre mudam... Mantenha o Rock em um Mundo Livre Reymond se tornou um rapaz muito bonito afinal somou os traços marcantes de seu pai com a beleza clássica de sua mãe. Com um metro e noventa, cabelos castanhos dourados e olhos verdes, corpo atlético não havia como não notá-lo. Fazia muito sucesso com as garotas do bairro, mas até aquele momento sua única paixão verdadeira era a música. Entretidos no porão Memphis e Reymond terminam de dar os últimos ajustes em uma guitarra, uma cópia perfeita de uma Gibson Les Paul. - Reymond o que você achou. – mostrando com orgulho sua obra de arte. - Magnífica pai. – sorrindo. - Sabe Reymond a guitarra, ou violão, convencional de seis cordas teve origem na Itália por volta de 1780. Já a guitarra elétrica uma derivação desse violão surgiu em 1930, mas o som era suave e baixo então para melhorar isto e dar maior potência ao instrumento, para poder ser tocado para um grande público, foram adaptados captadores eletrônicos. O problema é que estes captadores faziam o corpo da guitarra vibrar criando o temido feedback. Foi então que Lester William Polsfuss mais conhecido como Les Paul, criou “O Pedaço de Madeira” que era exatamente isso, um pedaço de madeira maciço com captadores. Com isto ele resolveu o problema do feedback e da sustentação pois o som produzido pela vibração das cordas desaparecia com menos facilidade. Depois de fazer algumas modificações para dar uma aparência melhor, de uma guitarra, ele tentou vender seu invento para Gibson, mas eles não acreditaram no potencial do instrumento. Mas então surgiu um californiano chamado Leonidas Fender pioneiro na produção em massa da guitarra elétrica além é claro criador da cultuada Fender Stratocaster, e a Gibson não teve escolha e teve que se render a genialidade do nosso amigo Les Paul surgindo assim a Gibson Les Paul usada por grandes nomes da música como Eric Clapton, Jimmy Page, Kirk Hammett, Peter Townshend, Slash, Zakk Wylde, entre outros. - Sério pai? O vovô lhe contou isso? - Entre outras coisas meu filho, o Rock tem muita história. Jimmi Hendriz, por exemplo, era canhoto então para poder tocar usava uma guitarra Fender Stratocaster com as cordas invertidas. Reymond adorava ouvir as histórias de seu pai sempre tão cheias de vida e contadas com tanta paixão e emoção. Como quando ele tinha oito anos e seu pai contou como Jimmi Hendrix jogou fluido de isqueiro sobre uma guitarra, um modelo Fender Stratocaster de 1965, e colocou fogo durante um show no Finsbury Astoria, em Londres, em março de 1967. A imagem de seu pai de joelhos imitando Hendrix com seus dedos para cima como que instigando o fogo a queimar, até hoje o faziam sorrir. Conversavam animados quando ouvem Grace chamar. - Querido venha, vai começar! - Começar o que pai? – pergunta Reymond. - Venha vamos rápido filho. - sem dar atenção a pergunta de Rey. Os dois sobem correndo as escadas e encontram Grace sentada no sofá da sala em frente à televisão. - Aqui querido. – indicando o lugar ao seu lado para Memphis. Reymond ainda curioso senta ao lado do pai. - Vai começar o que? - A entrevista do seu tio Július, querido. – fala Grace sorrindo. De um pequenino aparelho na parede surge uma imagem extremamente nítida, era como se eles tivessem sido transportados para o local da coletiva. Mostrava uma enorme mesa coberta por uma tolha muito branca e na frente, no centro, saltando aos olhos, bordado em vermelho vivo as letras OCSC. Em cima dela inúmeros microfones e ao fundo a imagem de uma enorme muralha branca com cerca de seis metros de altura com seguranças fortemente armados patrulhando o lugar. Apesar da enorme quantidade de repórteres no local o silêncio era impressionante exigência essa de Július que afirmou que se houvesse baderna e desordem a coletiva seria imediatamente encerrada. De repente o silêncio é quebrado pela abertura da porta por onde passa Július com sua habitual altivez, como se um rei estivesse entrando na sala. Reymond simplesmente não acredita no que esta vendo, de boca aberta olha espantado para seus pais que riem muito. E com dificuldade balbucia. - Mas é você papai! – apontando para Július. - Sim querido seu pai e seu tio são gêmeos idênticos. - Idênticos é pouco! Eles são absolutamente iguais! Vocês não diziam que o papai era o mais novo? - Sim. Eu sou dois minutos mais novo. - Mas não se engane com as aparências filho, não poderiam existir duas pessoas tão diferentes quanto seu pai e seu tio. É como a imagem no espelho absolutamente igual, mas invertida. - Olha querida vai começar. Július se posiciona no meio da mesa na frente dos inúmeros microfones e olhando diretamente para frente fala. - Boa tarde, harmonia e ordem a todos. Estou hoje aqui diante de vocês para responder as perguntas pertinentes à inauguração da Torre da Vigília que dentro de poucos meses estará recebendo os primeiros moradores. Com isto estaremos dando início a um novo estágio na evolução da raça humana. Uma humanidade mais justa e equilibrada onde os males deste mundo corrupto e devasso ficarão para traz. Criaremos uma sociedade onde não existirá a criminalidade, a fome, as diferenças sociais e todas as mazelas que nos afligem desde o princípio dos tempos. Um lugar onde a ordem, a harmonia, a disciplina e o temor a Deus nosso criador serão respeitados e levados ao estremo. Um lugar onde os eleitos poderão cumprir seu verdadeiro destino neste planeta que é preparar sua alma para poder encarar o criador sem máculas. Um lugar de aprendizado e profunda reflexão de seus atos e ações. Onde todas as tentações e distrações ficarão para traz. Agora de maneira ORDENADA responderei uma pergunta de cada vez. Começaremos por esta mocinha. – apontando com o dedo indicador. - Boa tarde. Sou Aretha Louise do jornal estrela da manhã. Como o senhor gostaria que lhe chamássemos? Július ou Regente? - Como melhor lhe convir. – com um sorriso quase imperceptível mais parecendo um espasmo. - Ok. Senhor Július como o senhor mesmo disse no início, não serão todos que terão o privilégio de ingressar na Torre da Vigília. Que somente os “eleitos” poderão entrar. Bom, pelo que sabemos até agora somente os membros mais abastados, digamos assim, estão recebendo estes convites. O senhor poderia explicar por quê? - Como a senhorita mesmo disse isto é o que vocês estão sabendo. Posso lhe assegurar que todos aqueles que forem dignos de participar desta nova fase da evolução da humanidade estarão lá. Próximo. – apontando para outro repórter. - Ace Frehley do jornal da capital. É do conhecimento de todos que muitas das maiores mentes do nosso planeta, como físicos, matemáticos, engenheiros, arquitetos, grandes médicos e pesquisadores em genética e nas mais diversas áreas já confirmarão que ingressarão na Torre da Vigília. Como o senhor rebate as afirmações que todos estes especialistas só se uniram a sua causa depois que receberam promessas de verbas ilimitadas para pesquisas, e que uma vez lá dentro, teriam carta branca para fazer pesquisas que hoje são proibidas, como a modificação genética para produzir super seres-humanos, por exemplo? - Estas grandes mentes, como o senhor as definiu, só se uniram a nossa causa por compreenderem a grandeza do que estamos prestes a fazer. No mais não passam de especulações sem fundamento. Posso lhe assegurar que continuaremos a respeitar todas as leis e normas vigentes e estaremos abertos a qualquer solicitação das autoridades para fazerem vistorias se assim quiserem. Próximo por favor. - Daron Malakian do Bom dia Metrópole. Muitas das organizações de direitos humanos são contra a sua causa. Elas afirmam que sua religião é fascista, opressora, intransigente e que na realidade ela irá criar um bando de fanáticos bitolados sem vontade própria. Que vêem toda e qualquer forma de diversão ou arte como coisa do diabo. O que o senhor acha disso? - Vivemos em um país livre. Cada um tem o direito de acreditar no que quiser. E no mais o que todas essas formas de “diversão” que o senhor falou trouxeram de bom para a humanidade? Eu respondo para o senhor. Trouxeram falta de modos, desordem, sexo desenfreado, doenças transmitidas enquanto usam drogas em shows de rock, uma juventude toda perdida por buscar uma satisfação efêmera quando a única maneira de se atingir isto é através do temor e obediência as ordens de Deus. Prox... Interrompido pelo jornalista. - Mas não é essa a opinião de seu irmão gêmeo Memphis Rolland. Por sinal ele é exatamente o oposto do senhor. Fabrica instrumentos musicais para colecionadores e tem uma banda que faz shows pelo mundo a fora. O senhor também o considera um drogado sem futuro? O burburinho foi geral na sala. Ao ouvir o nome do irmão o rosto de Július petrificou. O seu rosto normalmente sério parecia feito de mármore. Uma raiva súbita apoderou-se de seu corpo. Com extrema dificuldade para não deixar transparecer fala. - Há muito tempo eu e meu irmão seguimos caminhos diferentes. Respeito suas opiniões mais isso não muda o fato de que eu estou do lado da verdade. Sinto muito por não ter conseguido fazer com que ele visse o caminho da luz e da verdade. Por hoje é só. Obrigado. Levanta-se e sai apressado. Grace desliga o pequeno aparelho e a imagem desaparece. Ela olha séria para Memphis. - O senhor quer me explicar o que foi isso? - Não foi nada querida. Um dia desses, eu estava chegando em casa e um rapaz me parou e fez algumas perguntas sobre o que eu achava da religião de Július e sobre minha banda. O que você queria que eu fizesse, mentisse? – olhando para baixo com um leve sorriso nos lábios enquanto se encaminha para o porão seguido por Reymond. Grace olhando para os dois enquanto caminham sente uma estranha sensação. Um frio na barriga. Como um mau presságio. De algum modo ela sabia que aquele tapa de película que Memphis deu no ego de seu irmão não passaria em branco. Memphis alheio as preocupações de sua esposa caminha contente, sentindo a alma lavada por ter humilhado seu irmão diante das câmeras de todo o mundo no dia mais importante da vida dele. Reymond começa a despejar uma infinidade de perguntas sobre o tio para seu pai que apenas sorri e feliz cantarola Keep on Rocking in the Free World de Neil Young. Existem cores nas ruas, vermelho, branco e azul Pessoas embaralhando seus pés, pessoas dormindo em seus sapatos Mas tem um sinal de aviso a frente na estrada Tem um monte de gente dizendo nós seríamos melhores não mortos Não me sinto como satanás, mas para eles eu sou Então eu tento esquecer isso de qualquer maneira que eu consiga Mantenha o rock em um mundo livre Mantenha o rock em um mundo livre Mantenha o rock em um mundo livre Mantenha o rock em um mundo livre... Estrada para o Inferno Július sentia seu sangue ferver nas veias. Era uma mistura de raiva, frustração, ódio e vergonha que lhe consumia. Levou muito tempo para se livrar daquela vida que tanto odiava e agora de uma hora para outra seus fantasmas do passado voltavam para atormentá-lo. Estava decidido que nada, absolutamente nada nem ninguém atrapalharia seus planos futuros. Não importando o que ele tivesse que fazer para que isso acontecesse. Não permitiria que a vida desregrada e sem temor a Deus que seu irmão incrédulo e medíocre levava atrapalhasse seu caminho. Sabia que era apenas questão de tempo para que seu mestre lhe chamasse para explicar os últimos acontecimentos. E assim foi. Antes mesmo de chegar ao carro que lhe conduziria de volta a sede da OCSC é informado que seu mestre queria velo imediatamente. Parado com a mão na maçaneta da porta de seu mestre Július toma coragem e entra. - Olha Július. Como foi a coletiva. – com um leve sorriso irônico nos lábios. Július sente seu rosto corar e vai logo tentando se explicar. - Mestre eu sei que deveria ter lhe contado sobre meu irmão gêmeo mais é que este é um fato que gostaria de apagar de minha vida, mas infelizmente não tenho como. Minha família sempre foi uma vergonha para mim e... - Calma Július. Não se preocupe. Eu sei tudo a seu respeito. Um homem na minha posição não pode se dar ao luxo de não conhecer as pessoas que o cercam. Tanto seus inimigos, mas principalmente seus aliados inda mais uma pessoa tão importante para o futuro de nossa causa como você Július. Era óbvio que agora que estamos tão próximos de inaugurar a Torre da Vigília nossos inimigos comecem a usar de todos os expedientes para nos atrapalhar em nossa missão. O que quero fazer é lhe perguntar qual é o seu comprometimento com a nossa causa e até que ponto você esta disposto a chegar para ver nosso sonho realizado. – com uma voz tão fria como gelo. Július compreendendo o que seu mestre estava insinuando sente seu corpo endurecer. Já havia cogitado esta possibilidade outras vezes, mas somente em sua mente e agora que era colocado frente a frente com possibilidade real de isso acontecer leva um choque. Percebendo a confusão na mente se seu pupilo o velho continua. - Como você sabe a imagem é um instrumento poderosíssimo meu amigo para influenciar as multidões e infelizmente quando as pessoas olham para seu irmão elas vêem você, literalmente. Seu irmão é o seu exato oposto. Ele acredita em tudo o que lutamos contra. Tudo aquilo que combatemos Julius. As pessoas olham para vocês e vêem as possibilidades as chances de mudanças e com elas as dúvidas surgem. E isso não é bom para nossa causa. Július você foi escolhido para conduzir a humanidade a outro nível na escala evolutiva, uma honra indescritível meu amigo. Seu nome será venerado por milhares de anos, mas agora é à hora de separar o homem do garoto. Preciso saber se você esta pronto para “fazer” o que é preciso ser feito. “Seu nome será venerado por milhares de anos”. Imediatamente a imagem da cigana surge em sua mente. Július sabia que à hora finalmente chegou e ele teria que tomar uma decisão. A decisão que mudaria seu destino para sempre. - Mestre nunca estive tão certo de uma decisão. Estou pronto para fazer “tudo o que for necessário” para o bem da causa. – olhando diretamente nos olhos do mestre que sorri aliviado. - Eu sabia meu amigo que você não me decepcionaria. Mais uma vez Nosso Senhor prova que fiz a escolha certa ao escolhê-lo para conduzir nosso povo. -Hoje mesmo darei um “jeito” em nosso problema Mestre. – maliciosamente. - Não vamos nos afobar Július. Não podemos arriscar em ver seu nome associado a negócios escusos. Já tenho tudo planejado meu amigo não se preocupe com nada. Faremos com que a morte de sua família se torne uma coisa boa para nossa causa. A menção da palavra morte causa certo desconforto em Július assim como um alivio. Era como que se de seus ombros fosse retirado um fardo enorme que ele foi obrigado a carregar a vida toda e agora finalmente estaria livre. - E como faremos isto Mestre? - O que pode ser mais relevante para nossa causa do que a morte de maneira trágica dos familiares de um membro do mais alto escalão da nossa ordem. Ainda mais se essa morte for causada pelo filho “drogado” do casal devido a uma vida toda levada sem regras, sem ordem e repleta de abusos longe dos ensinamentos da Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração. Apenas mais uma família destruída pela falta de ordem, harmonia e valores reais. A mídia simplesmente irá adorar meu amigo. - Confio minha vida ao senhor e a nossa causa Mestre. Aguardarei suas providências. - Certo. Amanhã teremos um coquetel para empresários e quero você lá para representar a ordem o que lhe dará um álibi perfeito. - Que assim seja Mestre. Ordem e harmonia para o senhor. – com isso se retira. - Ordem e harmonia meu pupilo. Novamente caminhando pelo corredor silencioso Július não sentia remorso ou qualquer sentimento de culpa. Acreditava que havia tomado a melhor decisão possível, finalmente exorcizaria seus demônios. Deixaria seu passado de vergonha definitivamente para traz e poderia começar uma nova vida. Mas para toda ação existe uma reação e o que nem mesmo Július sabia que daquele momento em diante seu coração havia secado e em seu lugar uma pedra estava depositada. Lágrimas no Paraíso Era uma noite chuvosa de inverno com muitos trovões e uma estranha sensação tomava conta do mundo. Era como se alegria estivesse dormindo um sono perturbado e agitado. Sem que os Rolland soubessem seus destinos haviam sido decididos. Suas horas juntos estavam contadas logo fariam parte das estatísticas da crescente violência urbana e da sede de poder e loucura de um membro de sua própria família, sangue do seu sangue. Embalados pela benção da ignorância conversavam alegremente enquanto jantavam, sem desconfiar que aquela seria sua última ceia. Memphis conta mais uma de suas histórias para Reymond que se divertia muito vendo seu pai teatralmente tentando interpretar os personagens. -... então ele estava lá, meia noite, no meio do nada na encruzilhada das rodovias 61 e 49 em Clarksdale, Mississipi, Robert Johnson tocando sua guitarra alucinadamente a espera do demônio e então que aparece “ele” vestindo um terno branco impecável, chapéu também branco e uma bengala com cabo em marfim. O Diabo olha nos olhos de Johnson e com uma voz suave quase doce, mas muito firme fala: - Você se tornará o maior guitarrista do Blues, mas sua alma será miiiinhaaa! – com uma voz tentando ser apavorante. - Teu pai não tem jeito mes... – Grace é interrompida. Ouvem um barulho vindo da parte de fora da casa. Como se alguém estivesse forçando a porta e logo em seguida um vidro quebrando. - O que foi isso? – pergunta Grace assustada sentindo novamente aquela sensação de mau agouro, pressentindo o pior. - Calma querida. Fique aqui com Rey que vou verificar. - Não Memphis fique aqui... – mas ele já estava perto da porta dos fundos. Memphis olha pela janela da porta dos fundos e vê um vulto todo de negro passar. Corre para sala de jantar onde Grace e Rey esperam apreensivos. - O que foi papai? - Grace ligue para a polícia estão tentando invadir nossa casa. Rey vá até o porão, em baixo da minha bancada de trabalho nos fundos tem uma arma traga para mim rápido. Grace chorando corre até o telefone, mas está desligado, sem sinal. No mesmo instante que as luzes da casa se apagam. Reymond que descia correndo os degraus quando se vê na completa escuridão cai rolando escada abaixo. Ainda atordoado com a queda e com a cabeça e o ombro doendo ouve seu pai gritar. - O que você quer aqui? Leve o que você quiser, mas nos deixe em paz. VÁ EMBORA! Rey apavorado corre até a bancada procurando pela arma, mas não encontra nada. Nunca antes ouviu dizer que seu pai tinha uma arma em casa. Nunca há viu e conhecia aquele porão como a palma de sua mão. Passa mais uma vez a mão por baixo da bancada desesperado e nada. Corre em direção à escada e quando estava pronto para subir Rey olha para porta que estava semi-aberta e ouve dois estampidos secos seguidos por clarões. Fica paralisado. Seu coração parecia que iria sair pela boca. Suas pernas tremem e seu estômago embrulha. Naquele momento uma certeza crua, cortante como navalha, toma conta de seu ser. Sabia que nunca mais veria seus pais, que daquele instante em diante estava só no mundo. Sozinho na escuridão do porão ouve o assassino de seus pais falando tranquilamente ao telefone, com uma frieza assustadora. O fato de ele ter acabado de tirar a vida de duas pessoas inocentes não significava nada. - Pronto Mestre o serviço esta feito. Mas o garoto não esta aqui. Foi então que Rey percebeu por que seu pai pediu para que ele procurasse uma arma que não existia no porão. Para tentar protegê-lo já que a porta do porão ficava escondida, como não tinha maçaneta e era da mesma cor da parede para vê-la somente prestando muita atenção. Em meio às lágrimas que lhe escorriam pelo rosto Reymond da um passo para traz e esbarra em um acordeom que cai denunciando sua posição. Olha para cima e vê a porta do porão sendo aberta e em meio aos clarões dos relâmpagos, parado na soleira da porta está o assassino de seus pais e seu futuro carrasco. Ainda paralisado só ouve um estampido muito alto seguido de um clarão intenso e um zunido muito próximo a sua orelha esquerda por onde passa o projétil que atinge um violão que estava na bancada de Memphis, espalhado pedaços para todos os lados. Reymond joga-se para traz e se arrasta pelo chão do porão tentando se levantar e se proteger ao mesmo tempo. Quando consegue se equilibrar outro projétil passa rente a sua cabeça explodindo no chimbal da bateria fazendo um barulho ensurdecedor. Joga-se sobre a bateria caindo sobre os instrumentos que estavam enfileirados machucando as costas. Correndo em sua direção seu perseguidor implacável vem derrubando tudo o que vê pela frente já que a escuridão do lugar não permitia que nem e presa nem o caçador vissem nada. Ainda tentando se livrar dos instrumentos que caíram sobre si Rey olha para cima e em sua frente, apontando a arma que reluzia à medida que os relâmpagos estouravam, a figura negra. - Acabou a brincadeira garoto. Com os cumprimentos do seu tio. - sorrindo. - Meu tio? Do que você esta falando? – com a mão direita levanta tentando se proteger. - Não vejo problema em lhe contar já que você vai ficar famoso garoto. – sorrindo de prazer por poder torturar sua vítima um pouco mais. - O que meu tio tem a ver com isso? – enquanto procurava algo para poder se defender. - Seu pai deveria ter ficado de bico calado. Não há como interromper a ascensão da Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração. Com este serviço me tornarei um grão mestre na ordem. - A polícia vai descobri tudo e vocês serão presos. - Não seja estúpido garoto. Já está tudo armado. A ordem tem conexões nos mais altos escalões do governo. Quando eu sair daqui à polícia virá e dirá que o que aconteceu aqui foi mais um caso de um menino drogado que mata os pais depois se mata. Isto só irá reforçar a crença de que o único caminho para a salvação da humanidade é se unirem a OCSC. Mas chega de conversa diga olá ao capeta por mim. – sorrindo. O homem aperta o gatilho, acontece um clarão seguido de um estrondo. Reymond fecha os olhos esperando a dor lancinante a cortar-lhe o peito e seu sangue escorrer pela ferida aberta esvaindo-se juntamente com sua vida. Nos breves segundos que se seguiram uma estranha sensação contraditória se apoderou de Rey. O alívio por poder se juntar novamente a seus pais e não estar mais sozinho no mundo juntamente com a enorme vontade de viver e fazer com que seu tio pagasse pelo que tinha feito. Mas nada acontece. O clarão foi um relâmpago e o estrondo um trovão. A arma falhou milagrosamente. Neste instante Rey agarra um pedaço de madeira maciço que estava caído no chão e atira contra a figura vestida de negro acertando sua testa. O homem dá um grito e cai de joelhos. Reymond aproveitando que o homem está temporariamente abatido vira sobre ele um prateleira cheia latas de tinta e corre escada acima. O homem ainda atordoado com a madeirada e coberto de tinta tenta se levantar, mas escorrega várias vezes. Quando finalmente consegue ficar de pé corre atrás de Reymond. Escorrega ainda em alguns degraus, mas se agarra firme no corrimão para subir a escada. Com tremenda violência da um chute na porta do porão que estava entre aberta. A claridade que vinha da rua e iluminava a casa, cega o agressor por alguns segundos. Foi então que apertando os olhos para poder enxergar melhor percebe que parado em sua frente está Reymond segurando uma panela de ferro maciço, que esta em sua família a gerações, e antes que pudesse tomar qualquer atitude leva um violento golpe na cabeça e cai rolando escada abaixo. Reymond olha para a figura de negro caída no chão do porão toda torta sem vida e corre para junto dos pais. Fica parado em estado de choque diante da visão de seus pais caídos sem vida. Grace com seu vestido branco manchado de sangue e Memphis sobre ela, denunciando o derradeiro ato de amor quando trocou sua vida para tentar defender sua amada. A dor que Reymond sentia era insuportável. Ele naquele momento realmente desejou que a arma não tivesse falhado e ele tivesse recebido aquele tiro. Todos os músculos de seu corpo estavam enrijecidos, sua cabeça latejava e ele custava em acreditar na cena que se desenrolava diante de seus olhos. Ajoelha-se segurando seu pai contra o peito e grita por ele, mas a única resposta que ouve são seus soluços entre os relâmpagos e trovões e o barulho da chuva que insiste em cair como que chorando junto com ele. Deita sobre sua mãe e chora copiosamente na esperança de que suas lágrimas pudessem trazê-la de volta como em um conto de fadas. Mas então ouve as sirenes dos carros de polícia que se aproximavam e volta à realidade. Vêm em sua mente, como um balde de água fria a chacoalhá-lo, as palavras do homem de negro: - Já está tudo armado. A ordem tem conexões nos mais altos escalões do governo. Quando eu sair daqui à polícia virá e dirá que o que aconteceu aqui foi mais um caso de um menino drogado que mata os pais depois se mata. Sabia que se ficasse ali seria preso e posteriormente morto. Levanta como se todo o peso do mundo estivesse sobre seus ombros e ainda olhando para os corpos de seus pais, sem vida caídos no chão, sai correndo em direção a rua. Correu como nunca correu antes em toda sua vida, em direção a noite escura tão escura como imaginava que seria se futuro dali em diante, sentindo a fria chuva a lhe castigar o rosto se misturando com suas lágrimas. Como uma Pedra a Rolar Július caminhava de um lado para o outro da sala de seu Mestre, como um leão no cativeiro, enquanto olhava para as notícias na televisão que relatavam o que havia acontecido com o irmão gêmeo daquele que seria o regente da Torre da Vigília da Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração. Relatavam com minúcias a trágica morte de Memphis Rolland e esposa, assassinados pelo único filho, um adolescente de apenas dezesseis anos que estava foragido. - E agora Mestre o que faremos? – muito preocupado. - Calma Július. Está tudo sobre controle, como sempre. A imprensa engoliu a história como esperávamos. A polícia fez sua parte, e seu sobrinho está sendo procurado por toda a cidade. É uma questão de horas até que ele seja capturado. - Mas então Mestre o que acontecerá se ele abrir a boca? – olhando apreensivo para o Mestre como uma criança que fez coisa errada e esta com medo que descubram. - Um homem na minha posição não chegou onde está sem poder se livrar de um problema tão insignificante quanto um simples adolescente fujão Július. – irritado. Agora se acalme, sim! Quando ele for achado inacreditavelmente ele “reagirá” a prisão e nossos “zelosos” oficiais da lei não terão outra escolha senão matá-lo. – sorrindo. - Desculpe Mestre por minha fraqueza e falta de fé. – olhando para o velho encabulado. Percebendo que estava demonstrando fraqueza perto de seu mestre Július se acalma e para não piorar sua imagem resolve encerrar o assunto, afinal seu Mestre sempre resolveu qualquer problema de maneira exemplar. Sem deixar arestas como ele mesmo gostava de dizer. Tudo de acordo com os ensinamentos da OCSC, ou seja, na mais pura Harmonia e Ordem. Reymond podia ser muitas coisas, mas um insignificante e simples adolescente fujão definitivamente não era. As horas passaram, os dias vieram, as semanas correram e dois meses após o assassinato de seus pais Reymond ainda estava à solta. Sua foto estava espalhada por vários locais na cidade e até uma recompensa era oferecida por informações que levassem a captura de Reymond. Trocou de roupas com um desabrigado e sempre usava um boné para não ser reconhecido. Durante o dia se escondia da polícia como podia enquanto tentava arranjar alguma coisa para comer. Muitas vezes pedia esmola, outras vezes pegava comida nas latas de lixo de restaurantes tendo que brigar com outros desabrigados como ele. E nunca em toda sua vida pode imaginar chegar a tal situação. A vida nas ruas não perdoa e a solidão, a falta de afeto e carinho, a fome, o frio, o abandono castigavam Reymond. Aprendeu a duras penas que as lágrimas não o ajudariam e não mais chorava por seus pais ou pela situação que vivia. Lembrava das palavras de seu pai que dizia que não adiantava sentir auto piedade e ficar se lamentando. Que era necessário levantar a cabeça e correr atrás. E que nessas horas ele sempre cantarolava o refrão uma velha canção de tempos sombrios. Vem, vamos embora Que esperar não é saber Quem sabe faz à hora Não espera acontecer... E era isso que fazia Reymond levantar e continuar em frente todo santo dia. Uma noite depois de um dia particularmente ruim, chuvoso e frio estava deitado em baixo de caixas velhas e jornais para poder se aquecer e tentar dormir. No beco junto com ele estavam mais alguns vagabundos, bêbados e desabrigados todos encolhidos para se proteger do frio e tentar esquecer suas tristes histórias de vida. No alto do prédio de uma janela semi-aberta escapava uma canção que Rey conhecia muito bem e que nunca fez tanto sentido para sua vida como agora. Mais do que nunca ele entendia toda a genialidade de Bob Dylan. ... Como se sente? Como se sente? Por estar sem um lar? Como uma completa estranha? Como uma pedra que rola?... ... Como se sente? Como se sente? Por estar por sua conta? Sem nenhuma direção para casa Como uma completa estranha? Como uma pedra que rola?... Ouvia distraidamente a canção quando entram no beco dois furgões em alta velocidade. Param abruptamente e deles saem vários homens encapuzados gritando e socando todos que encontram pela frente jogando-os para dentro dos furgões. Reymond desesperado tenta fugir, mas é atacado e recebe um golpe fortíssimo na cabeça e cai desacordado. Reymond acorda com uma tremenda dor de cabeça, vestindo calça e camiseta brancas, em uma sala toda almofadada sem janelas. Em seu tornozelo direito um presilha com uma luzinha que ficava piscando. Ali naquele lugar estranho só conseguia pensar que havia sido capturado. Que tudo havia acabado e que dentro de poucas horas estaria morto, assim como seus pais. Desesperado começa a gritar e socar a porta. - Eu sou inocente. Pelo amor de Deus eu não fiz nada. Foi meu tio e aquela Ordem de lunáticos. Socorro por favor. – chorando em desespero. Mas não obteve resposta nenhuma. Para surpresa de Reymond ele não foi morto, pelo contrário. Durante os dias que se seguiram Reymond foi alimentado e medicado. Todos os dias dois enfermeiros entravam na sala, mudos, pegavam Reymond e o levavam para fazer exames médicos. Tiravam seu sangue, faziam testes de esforço e muitos outros. Toda vez que Rey se recusava a fazer alguma coisa à presilha em seu tornozelo lhe dava um choque que fazia com que ele caísse no chão de dor. Nunca obtinha resposta de seus raptores que simplesmente ignoravam suas súplicas. Após um mês nesta rotina quando Rey já estava em plena forma física foi levado para uma sala onde haviam pessoas vestidas de branco como médicos e sobre uma mesa uma cápsula, parecida com as que via nos filme de ficção científica onde os astronautas hibernam durante as viagens estelares longas, conectada a vários canos. Pressentindo que aquilo não poderia ser boa coisa Reymond com um soco tenta se livrar dos enfermeiros que o seguravam e sai correndo, mas antes que conseguisse chegar à porta a presilha em seu tornozelo lhe da um choque que faz com que ele caía violentamente no chão. Ainda atordoado com o choque recebe uma injeção que o deixa tonto, meio grogue. Retiram toda sua roupa e a presilha de seu tornozelo e colocam-no dentro da cápsula que é lacrada. Ainda tentando ficar acordado Rey ouve um chiado muito forte e percebe que dos canos conectados a cápsula começa a sair um líquido transparente ligeiramente amarelado que rapidamente enchia todo o recipiente. Reymond entra em desespero com o líquido gosmento chegando cada vez mais perto de seu nariz. Tentando buscar oxigênio levanta a cabeça o máximo possível, mas como o espaço é pequeno não consegue. Em uma última tentativa de manter se vivo inspira o máximo de ar que pode e tranca a respiração. Durante os dois minutos em que conseguiu trancar a respiração lembrou-se de seus pais, da vida que tinha e de como tudo na vida muda, que as coisas sempre mudam. Lembrou-se dos planos que fez de conhecer uma garota linda e inteligente que adoraria música, assim como ele, e que eles teriam filhos. Como formaria uma banda e mesmo fora de moda, contra todos e tudo tocaria rock and roll. Tantos sonhos, mas que agora sabia que nunca poderia realizá-los. Tantas preocupações que neste momento não passavam de banalidades. Exausto não somente pela situação em que se encontrava, mas pelos acontecimentos recentes que o obrigarão a levar aquela vida e não conseguindo mais segurar a respiração expele o ar completamente em um suspiro longo. Imediatamente sente seus pulmões se encherem por aquele líquido gosmento e depois a escuridão. Outro Tijolo no Muro Mesmo frustrados por não saberem o que aconteceu com Reymond a inauguração da Torre da Vigília não podia mais ser adiada. Era chegada a hora do sonho se realizar. Uma nova ordem mundial seria criada. Do alto de um mirante que ficava estrategicamente colocado em frente ao portão principal da Torre da Vigília, Július e seu Mestre contemplavam a multidão que se aglomerava no local. Centenas de repórteres, fiéis, opositores da OCSC, pais suplicando para que seus filhos não entrassem e policiais que tentavam colocar um pouco de ordem ao caos. - Olhe Július. – apontando para baixo em direção a multidão. – Dia 16 agosto de 2151. Um dia que entrará para história. Daqui mil anos este dia será lembrado como um marco para humanidade. Após dezesseis anos de trabalho ininterrupto e milhões e milhões de euros investidos está pronta. – extremamente orgulhoso. - Sim Mestre. Uma data para entrar para história com certeza. – com um ar preocupado. - Não se preocupe Július. Hoje é um dia para comemorarmos. Se seu sobrinho estivesse vivo ele já teria feito algo para tentar nos impedir meu amigo. Afinal um adolescente criado em berço de ouro não duraria muito sozinho neste mundo cão. - acalmando o outro. – Contemple o nascimento de uma nova era. Construída em uma área de 199.554 quilômetros quadrados completamente cercados por muros de seis metros de altura e fortemente vigiados por seguranças armados, no meio da floresta amazônica, a Torre da Vigília era um marco na engenharia mundial. Exatamente no centro do terreno uma torre magnífica extremamente branca de 1200m surgia imponente como um farol em meio à selva. Construída com toda infra-estrutura, para se sustentar sem ajuda externa de qualquer tipo, abria suas portas para os novos moradores. Nove milhões de fiéis dos quatro cantos do mundo que passaram por uma rigorosa seleção, foram escolhidos para habitarem a Torre. Na grande maioria, jovens entre os quinze e os vinte e cinco anos e casais com filhos até os três anos de idade de classe média alta. O que causava uma grande revolta dos grupos opositores e dos direitos humanos que diziam que a seleção facilitava o controle sobre os habitantes. E que a torre da Vigília não passava de uma nova Jonestown se referindo à seita Templo do Povo onde no dia 18 de novembro de 1978, 914 fiéis de Jim Jones ingeriram veneno ou deram tiros na cabeça. Apesar de todas as críticas a Torre da Vigília era uma realidade a nada poderia ser feito para impedi-la de atingir os objetivos de seu criador. Se transformar no modelo de uma nova sociedade onde o controle do estado seria total sobre seus habitantes. Um controle nunca antes exercido, onde não apenas os corpos e mentes dos seus moradores seriam controlados, mas suas almas pertenciam ao estado. - Hoje estamos fazendo história meu amigo Július, mas tenho que confessar uma coisa a você. – olhando firme nos olhos do rapaz. – O que irei contar agora para você não deve sair desta sala Július. – enfático, mas quase suplicante. Július apreensivo encara o Mestre assustado, já que não estava acostumado a ver seu Mestre assim tão exposto e vulnerável. - Claro Mestre. O senhor sabe que tem minha completa lealdade. – fazendo uma leve reverência. - Sim meu amigo. Quando tive minha visão de nosso futuro glorioso, que hoje estamos dano início fui avisado que não poderia entrar na Torre da Vigília. - Sim Mestre o senhor já me informou os motivos. – sem compreender o porquê daquilo agora. - Sim Július, mas o que não lhe contei é que semanas após minha visão descobri que tinha um tumor no cérebro. Os médicos, idiotas sem fé, disseram que eu teria no máximo mais seis meses de vida e, no entanto estou aqui até hoje - sorrindo. - Nosso senhor me poupou para que eu pudesse terminar sua obra. – apontando para Torre. - Mestre eu não sabia! - Ninguém sabia Július. Mas o mais importante é que meu tempo esta acabando. Hoje meus advogados passaram todos os meus bens para a Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração e seu Regente de agora em diante é o único responsável por toda minha fortuna. Ou seja, para você meu amigo. Os olhos de Július quase saíram de suas órbitas. Finalmente ele era o único proprietário de bilhões de euros de corpos, mentes, mas sobre tudo almas. - Só lhe peço uma coisa Július, sei que é egoísmo, mas peço que meu nome seja venerado pelos anos que se seguirão. – olhando suplicante para Július. - Não se preocupe Mestre daqui mil anos ainda saberão quem foi Manoel Santiago de Castro e prometo que o senhor será venerado pelo planeta inteiro. – retribuindo olhar do mestre. Tudo Ao Longo da Torre Vinha caminhando apressado carregando uma pequena valise e seguido de perto por um robô todo prateado, muito parecido com um ser humano, que reluzia a luz do sol da manhã. O professor Peter Carl Goldmark com seus sessenta anos era um homem de um metro e oitenta, muito magro, olhos negros injetados em um rosto comprido realçado pelo pequeno óculos que insistia em deslizar pelo longo nariz aquilino. Esbaforido pelo trote chega à enorme sala em forma de arena que esta cheia de adolescentes, para ministrar mais uma vez a aula sobre história antiga. Posiciona-se ao centro e olha para todos. Ao seu lado o robô metálico com um metro e sessenta, feito de uma liga de metal metamórfica. - Desculpem o meu atraso Harmonia e Ordem a todos. O que é respondido em uníssono. - Harmonia e Ordem. Em quanto se apronta tirando alguns papéis da mala, pergunta. - Hoje vamos estudar o século vinte e um. Por falar nisso, senhor Niclos poderia dizer que dia é hoje? Um rapaz sentado no fundo olha desanimado para o professor e responde: - Claro professor. Hoje é dia 24 de março de 1151 dos dias da Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração. - Estamos na aula de história antiga senhor Niclos. Gostaria de saber em que ano estamos segundo o calendário gregoriano. Alguém por favor? Vale um ponto na nota final! – a mão levantada e o dedo indicador em riste. Uma menina sentada na primeira fileira levanta o braço. - Sim senhorita Galatéa. – sorridente. - Segundo o calendário Gregoriano estamos no ano de 3151 depois do Cristo professor. - Excelente Galatéa, perfeita como sempre. Nada menos do que o esperado da nossa futura Regente. – sorrindo para mocinha. - Obrigada professor. É verdade que o senhor vai sair para mais uma das suas expedições arqueológicas? - Sim Galatéa. Hoje mesmo após nossa aula estou partindo em busca do desconhecido. De novas descobertas sobre as civilizações anteriores a nossa. – muito entusiasmado. Outra menina sentada duas fileiras atrás pergunta parecendo indignada. - Mas professor, não é perigoso ficar vagando fora dos muros da Torre da Vigília? O senhor pode pegar uma doença com todos aqueles insetos ou ser atacado por algum animal selvagem? - Não se preocupe Noelia vou acompanhado do meu fiel escudeiro, o meta robô de Zoneamento de Área Pesquisa e Proteção Arqueológica ou carinhosamente conhecido como Z.A.P.P.A. Qualquer problema eventual que eu venha a ter ele está equipado para resolver. A aula correu tranquilamente como sempre acontecia. Sem interrupções e questionamentos. Os alunos apenas escutavam o que o professor dizia no mais clássico estilo de educação bancária onde o conhecimento é depositado nos alunos como em um banco. O que correspondia perfeitamente à proposta pedagógica da Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração. Que só autorizava as aulas do professor para enfatizar para as futuras gerações da Ordem que o mundo antes da Torre da Vigília não passava de um lugar horrível, onde as pessoas não eram mais do que animais seguindo seus instintos primitivos. Que existiam guerras, assassinatos, violência de todos os tipos contra mulheres, crianças, idosos. Que todos os tipos de abusos eram cometidos em nome da ganância e satisfação pessoal sem se preocupar com as leis divinas. O que levava o professor Goldmark quase a loucura, pois apesar dos esforços não conseguia fazer com que seus alunos despertassem para vida. Não conseguia despertar neles o espírito questionador. A vontade de mudança, fazê-los saírem daquele infindável estado de letargia, de marasmo, apatia moral e intelectual. Fazer com que eles analisassem a vida e não aceitassem o que lhes era imposto como correto. Mostrar-lhes que existem escolhas, opções a serem seguidas. E pagou caro por isso. Essas atitudes lhe custaram sua credibilidade perante toda sociedade científica. Era motivo de chacota e considerado louco por muitos. Em sua juventude o professor Goldmark despontava como uma das maiores promessas da ciência com um futuro grandioso na sociedade da OCSC. Mas seu espírito sempre inquieto o levou a questionar os costumes e crenças vigentes. Passou a estudar a história pré-torre da vigília e fez descobertas arqueológicas que mudaram sua maneira de pensar radicalmente. Publicou um ensaio comprovando suas teorias, mas foi veementemente ignorado não só pela sociedade científica, mas por todas as pessoas que simplesmente não queriam mudanças. Com o passar dos anos esmoreceu, mas nunca desistiu de encontrar algo que fizesse com que seus alunos começassem a questionar a vida. O professor encerrou mais um dia pouco produtivo e seguiu apressado para seu laboratório sempre seguido de perto por seu meta robô. - Está tudo pronto Zappa? - Sim professor. Já providenciei tudo o que iremos precisar para nossa expedição. Todas as coordenadas estão fixadas e prontas. Nunca nos afastamos tanto dos muros da Torre professor, o senhor tem realmente certeza de que quer fazer isso? - Tenho meu amigo metálico. Estou com um bom pressentimento sobre essa nossa expedição. Acredito que desta vez acharemos algo que vai mudar nossa história. - com um largo sorriso e muito excitado. - Então vamos professor que nosso visto é para as quatorze horas e se perdemos não poderemos deixar os muros da Torre. Algum tempo depois já estão dentro de um veículo que desliza velozmente pelo céu em direção a mata fechada que circunda toda a Torre da Vigília. Uma visão que sempre impressionava o professor. Exatamente no centro uma torre gigantesca de um branco intenso se erguia imponente em direção ao céu como querendo tocar o próprio Deus. Era o prédio principal da OCSC e morada do Regente supremo. Durante quatro horas e meia, ininterruptas, voaram em altíssima velocidade chegando finalmente ao anoitecer ao sítio de escavação. Uma clareira aberta em plena mata onde robôs operários trabalhavam freneticamente. Logo ao aterrissarem vem em sua direção um robô operário todo coberto de pó que era o encarregado do sítio dar as boas vindas e interar o professor das novidades e progressos alcançados. - Harmonia e Ordem Professor Goldmark. – com uma leve reverência. - Olá. Como estamos indo meu amigo robótico? Descobrimos algo de relevância? - Sim professor. Em nossa última expedição descobrimos uma construção que data cerca de mil anos aproximadamente. Fizemos análises estruturais no local e constatamos que esta em perfeitas condições. Aparentemente deveria ser uma espécie de laboratório ou hospital devido às características. - Hospital é. – decepcionado. – Nossas prioridades são bibliotecas, pen drives, arquivos, livros qualquer coisa que nos conte como nossos antepassados viviam. Como era sua cultura, seu modo de vida. O que acontecia no planeta antes da Torre da Vigília já que depois do decreto do Regente Augusto III, no ano de 2551, tudo anterior a inauguração da Torre foi considerado herege e destruído. - Sim professor, mas lá dentro descobrimos algo que o senhor deveria ver. É algum tipo de recipiente datado com cerca de mil anos. - E o que havia dentro? – intrigado pelo fato do robô já não ter relatado. - Seguindo as diretrizes do artigo 236 do código de descobertas arqueológicas, quando descoberto ser vivo seja ele animal ou vegetal deve-se isolar o local e esperar a chegada do responsável pelo sítio arqueológico. – falando de maneira mecânica como que acessando um arquivo interno. - Mil anos? Isto não pode estar certo. Nenhum animal ou vegetal viveria mil anos. Você tem certeza? – olhando incrédulo para o robô. - Absoluta professor! – parecendo insultado. – Fui programado, pelo senhor, para datar as descobertas com os mais rígidos processos analíticos e meus sistemas estão em perfeitas condições. - Ok. Então me leve até lá. Seguiram, com a noite já caindo, durante alguns minutos, andando em uma picada aberta mata adentro em fila indiana o robô operário, o professor e Zappa. Pararam enfrente a um barracão de dois andares com várias janelas quebradas de onde se via plantas saindo por elas. Em meio ao mato uma porta feita de ferro que estava toda enferrujada. O robô operário se encarregou de abri-la. - Ok meu amigo, daqui seguimos nós. – o professor apontando para si mesmo e Zappa. - No fim do corredor professor. – o robô operário com uma leve reverência. Zappa segue na frente iluminando o lugar, um enorme corredor com várias salas cheias de objetos quebrados como cadeiras, mesas, tudo coberto por mato. Ao passarem por uma sala pássaros se assustam com o barulho e saem em revoada fazendo o professor abaixar a cabeça. Realmente deveria ser um laboratório já que muitos microscópios e tubos de ensaio estavam espalhados sobre as mesas ou quebrados no chão. - Foi em um lugar assim que eu lhe encontrei Zappa. Só que era uma instalação militar. - sorrindo para o robô. Zappa foi achado em uma das primeiras expedições do professor. Foi projetado originalmente para ser um robô espião. Fabricado com uma liga de metal metamórfica que permitia que assumisse qualquer forma que quisesse assim como podia se dividir e formar objetos de que necessitasse para cumprir suas missões. Além da capacidade de escanear a mente dos humanos e extrair informações. Mas foi encontrado muito avariado o que não possibilitou ao professor descobrir muitas informações do seu passado. Com algumas modificações feitas pelo professor se tornou um robô ajudante quase um mordomo. Era extremamente cordial, educado e polido chegando a ser algumas vezes esnobe. Parecia um lorde inglês. - Sim professor e sou eternamente grato ao senhor por restabelecer minhas funções. – sorrindo. Chegam ao final do corredor na última sala e não encontram nada. O professor fica irritado. - Acho que o robô operário ficou muito tempo na floresta e a umidade afetou seus dispositivos. - Não professor meus sensores indicam que atrás desta parede existe alguma coisa. -chegando próximo a parede do fundo. Enfrente a parede Zappa transforma seus braços em marretas prateadas e com fortíssimos e precisos golpes derruba a parede. Outra pequena sala se desvenda diante de seus olhos e o professor e o robô entram. No fundo, encostado na parede algo que parecia ser uma cápsula muito empoeirada, o que não permitia que se visse o que tinha dentro. Passando a mão pelo vidro o professor só consegue ver um líquido amarelado viscoso. Chama por Zappa e pede que ele ilumine mais perto. Com a proximidade do robô o professor forçando os olhos pra enxergar dentro leva um susto e joga-se para trás caindo no chão e exclama assustado: - Santo Deus! Dentro da cápsula, boiando, algo que parecia ser um ser humano em posição fetal. Jovem para Sempre Extremamente assustado o professor chama o robô operário e ordena que a iluminação seja restabelecida no local e que a área seja isolada. Ninguém, nem nada, entram ou sai sem sua permissão. Com o lugar iluminado parados em frente ao objeto o professor e Zappa olham admirados. - O que em nome de Deus é isso Zappa? - Parece ser um ser humano senhor. - Você consegue escaneá-lo? - Posso tentar professor, mas devido ao grosso vidro e a este líquido, ou gel, não posso garantir que terei uma boa leitura. - Mesmo assim tente, por favor. Parado diante da cápsula sai dos olhos de Zappa uma luz esverdeada que percorre toda a extensão do objeto. O meta robô fica assim durante alguns minutos e ao terminar olha para o professor que espera impaciente. - Então o que tem aí dentro? - Sem dúvida nenhuma é um ser humano e o mais incrível professor, parece estar vivo só que em estado de catalepsia ou algo parecido. Mas infelizmente, como eu temia o grosso vidro e esse estranho líquido não permitem o escaneamento da mente. - Isso é fantástico e horrível ao mesmo tempo. – olhando para a cápsula atentamente. - Temos em nossas mãos a maior descoberta arqueológica da história. Imagine o que poderemos aprender com as informações que ele tem em sua mente. Como ele vivia suas emoções, tantas possibilidades de aprendermos. – extremamente excitado. Enquanto analisava o objeto o professor percebe que na base existe um marcador digital que mostrava o número 1000 e ao seu lado uma entrada para dados. Pede para Zappa acessá-lo. O robô aproxima o dedo da abertura que vai se esticando e transformando até se acoplar perfeitamente a abertura do dispositivo. Após alguns minutos a professor angustiado. - Pelo amor de Deus Zappa, estou enlouquecendo, me diga alguma coisa! – com as duas mãos na cabeça como se fossem arrancar os poucos cabelos que ainda tinha. - Desculpe professor. Os dados são realmente muito antigos e estão um pouco corrompidos, mas se referem a um diário de pesquisa. É um diário visual vou reproduzi-lo para o senhor. Dos olhos de Zappa projetasse de forma holográfica a imagem da sala em que eles se encontram, só que mil anos atrás. Sentado atrás de uma mesa um homem olha diretamente para frente e de forma extremamente fria e sem emoções começa a falar em um ritmo cadenciado e monótono. “Data 16 agosto de 2151. Sou o Dr. Robert James Ettinger Bedford e este é o diário da pesquisa Ambrosia. Escolhemos o nome Ambrosia, pois assim como o manjar dos deuses da mitologia grega que se comido por um mortal adquiriria a imortalidade, nossa pesquisa também levará ao mesmo fim. Hoje capturamos alguns espécimes que servirão para o projeto. Vagabundos e desabrigados que não farão falta a sociedade. Na verdade estamos fazendo um favor a ela. Dois adultos caucasianos que estão bem debilitados e um jovem também caucasiano em estado um pouco melhor... Devido à má qualidade dos dados a imagem algumas vezes se perdia o que fazia com que Zappa procurasse outro ponto inteligível novamente. “Vigésimo dia da pesquisa Ambrosia. Depois de vários testes o único espécime que se mostrou adequado as nossas expectativas foi o jovem caucasiano, os demais foram descartados. Dentro de mais alguns dias iniciaremos o processo de suspensão criogênica amniótica que consiste na criogenização do indivíduo ainda vivo utilizando o líquido amniótico modificado geneticamente juntamente com nitrogênio líquido para aperfeiçoar o sistema de criogenia. No modelo antigo o indivíduo deveria estar morto então se removia a água das células substituindo-a com uma mistura química à base de glicerina o crioprotetor - um tipo de anticongelante. Para proteger os órgãos e tecidos da formação de cristais de gelo a temperaturas extremamente baixas. Em seguida o indivíduo era resfriado em uma cama de gelo seco até que atinja -130ºC, completando o processo de vitrificação. Então era colocado na cápsula de metal com nitrogênio líquido a uma temperatura de aproximadamente -196ºC. Com o novo processo a agressão aos órgãos é muito menor e possibilitara, futuramente com o desenvolvimento da nanotecnologia, que o indivíduo possa ser ressuscitado de forma muito menos traumática e com um período de reabilitação muito menor. Mais uma vez Zappa tem dificuldades para continuar acessando os dados. - Desculpe professor, mas os dados estão muito corrompidos. Eles continuam assim até o ano de 2199. Vou reproduzi-lo para o senhor. Aparece o mesmo homem, ainda na mesma sala, só que muito mais velho e com um ar muito preocupado olhando várias vezes para trás com medo de que alguém entre a qualquer momento. “Diário da Pesquisa Ambrosia. Fomos descobertos e a qualquer momento seremos invadidos e presos, mas esses idiotas sem visão nunca descobrirão onde escondemos nosso maior triunfo. Suas mentes obtusas não compreendem a grandeza de nossa pesquisa se atendo a miudezas. Idiotas dos direitos humanos e religiosos hipócritas sempre atrasando os progressos da ciência. Deixo nossa descoberta para que os cientistas futuros possam aproveitar seus benefícios. Agora nos igualamos aos Deuses. Somos imortais.” A gravação é interrompida bruscamente. - Esta é a última informação que existe professor. - Meu Deus que coisa horrível! Utilizar seres humanos que não tinham como se defender, que já estavam em situação de degradação, como cobaias para pesquisas. Às vezes credito que o mundo realmente está melhor agora, mesmo com nossa falta de liberdade, do que antes. Chama o Robô operário manda que ele faça uma varredura no local e recolha todos os dados e objetos possíveis além é claro da cápsula e seu ilustre morador e os envie ao seu laboratório. Mas antes dá um aviso ao robô. - A partir de agora estamos sob artigo 139 do código arqueológico. Repita-o para mim. - Artigo 139 do código arqueológico, fica expressamente proibido divulgar qualquer informação sobre as descobertas encontradas mesmo que para isso seja necessária a autodestruição. - Excelente. Vamos. A Cada Suspiro Seu No laboratório o professor contempla extasiado sua grande descoberta. Deitada diante de seus olhos anos de história viva, o que era ainda mais incrível. Percebendo a excitação de seu dono Zappa comenta. - E agora professor o que faremos? Devo tentar escanear novamente a mente dele? - Não meu amigo. Acredito que não teríamos resultados positivos. Temos que arranjar um jeito de abrir esta cápsula sem danificar o espécime. - colocando a mão na boca como se tivesse dito um palavrão. – Estou apenas alguns dias com ele e já estou lhe chamando de espécime, que coisa horrível. - Vamos necessitar de um robô médico para isso professor. Ele será capaz de ressuscitá-lo já que aparentemente para isso são necessários nanorobôs. Só que como manda a lei todos os robôs médicos necessitam fazer um relatório para Ordem de qualquer tipo de atendimento realizado. O que denunciará a existência de nosso amigo congelado. - Você tem razão Zappa. Vamos chamar o robô médico. E não se preocupe eu dou um jeito no que diz respeito a mantermos nosso segredinho. – sorrindo como criança que fez coisa errada. Após alguns minutos o robô médico está parado diante da cápsula. Ele era muito diferente de Zappa que tinha forma humana só que todo prateado como se fosse cromado. Já o Robô médico parecia mais um latão branco preso a esteiras rolantes. Após rápida análise da cápsula, do corpo do robô médico começam a sair vários pequenos braços com os mais variados tipos de ferramentas. Com uma voz metálica olha para o professor e fala sem expressar emoção. - É necessário que ele seja retirado do recipiente. Já fiz todas as análises necessárias e não há risco. - Por favor, Zappa. - indicando a cápsula. O meta robô olha espantado para o professor sem saber direito como agir. - Você ouviu nosso amigo metálico, não há risco. Pode abrir, mas muito cuidado, por favor. Com extrema cautela o robô se aproxima da cápsula, pede para o professor se afastar e sua mão direita se transforma em uma espada prateada muito afiada. Com um único golpe extremamente rápido, tão rápido que o professor quase não o viu, e preciso, ela corta todo o espesso vidro. Durante alguns segundo absolutamente nada aconteceu, então o vidro começa a deslizar vagarosamente deixando vazar o líquido gosmento amarelado. Diante dos olhos arregalados e horrorizados do professor um menino de no máximo dezesseis anos completamente nu. Imediatamente o robô médico retira o rapaz de dentro colocá-lo em uma maca e injeta no braço nanorobôs e se afasta. Durante um minuto nada aconteceu. O professor olha apavorado para Zappa que apenas levanta os ombros. Então o corpo estendido na maca que parecia não ter vida começa a ter convulsões fortíssimas. O rapaz lutava desesperadamente para respirar, mas não conseguia. O professor desesperado vendo o sofrimento do menino tenta se aproximar, mas é detido pelo robô médico. Após mais alguns minutos angustiantes o menino virá à cabeça para o lado e de sua boca e nariz jorra um jato do líquido amarelado. E para imóvel. Um silêncio apavorante toma conta do laboratório. O professor apavorado olha para Zappa e em seguida para o robô medico sem saber o que fazer ou se o menino estava vivo. Então em um movimento súbito, erguendo o corpo da maca, o menino puxa desesperadamente o ar como alguém que se afogava e agora consegue respirar novamente. O professor quase desmaia com o susto que leva. O robô médico rapidamente se aproxima do rapaz e coloca em sua boca e nariz uma máscara para auxiliá-lo a respirar. Durante mais de seis horas o robô médico fica ao lado do rapaz auxiliando sua recuperação. O professor e Zappa esperam ansiosos sentados mais afastados. - Será que ainda vai demorar muito professor? - Nosso amigo esperou mil anos Zappa. Podemos esperar mais algumas horas se preciso. – sorrindo amavelmente. O Robô médico se aproxima dos dois e com sua habitual voz metálica sem emoções explica que o paciente ficará bom e que só necessita de descanso. Como se trata de um jovem sua recuperação deverá ser rápida. Olhando para o professor comenta que nunca antes registrou um atendimento desses. Que não havia na história médica da Ordem um caso como o dele. E que a forma como ele foi conservado era única. Que seu relatório seria de grande valor para aperfeiçoar os arquivos médicos da Ordem. Zappa olha apreensivo para o professor. - Muito obrigado meu robótico amigo, por favor, me acompanhe. – com o braço nas costas do robô conduzindo-o para fora do laboratório. Zappa olha sem entender nada para o professor que se afastava com o robô. Se o robô médico relatasse o caso a Ordem com certeza os censores retirariam o garoto do professor para análises. E o professor seria punido por não relatar a existência dele. Foi então que Zappa ouve um estrondo fortíssimo seguido por mais dois de igual intensidade. Corre na direção do som e para perplexo com o que vê. Parado com um pedaço de cano maciço enorme nas mãos o professor desfere vários golpes no robô médico que fica praticamente destruído. Zappa ainda sem acreditar na cena apenas balbucia. - Professor! O Velho olha para trás extremante feliz, com um sorriso enorme nos lábios, como criança que ganha brinquedo novo. - Eu sempre quis fazer isso! Eu não disse que esse probleminha eu resolvia! – rindo muito. Algum tempo depois Zappa terminava de dar fim no que restou do robô médico jogando os restos no compactador de lixo eliminando os vestígios do “assassinato” cometido pelo professor. Morto Agradecido No dia seguinte o professor não foi dar aula e tratou de proteger de todas as maneiras possíveis seu milenar convidado. Sabia que se fosse descoberto estaria com um grande problema nas mãos. Zappa instalou sensores de movimento na entrada do laboratório, e caso alguém se aproximasse eles saberiam. Por vinte e quatro horas o professor ficou parado ao lado do garoto esperando que ele acordasse em uma expectativa angustiante. - Eu não deveria ter destruído o robô médico. Deveria ter feito ele refém até ter certeza de que o garoto ficaria bem. Será que ele não está em coma? – olhando angustiado para o meta robô prateado. Zappa admirado e se divertindo com os novos sentimentos transgressores que afloraram no professor sorri. - Calma professor, logo ele acordará. Essa demora é normal. Os nanorobôs estão trabalhando para a recuperação do garoto. A senhor verá. E enquanto eles conversavam o garoto abre os olhos tentando se acostumar com as luzes e se localizar. O professor percebendo coloca-se ao lado dele e sorrindo fala: - Seja bem vindo meu milenar amigo. - O que aconteceu? Onde estou? – fala com dificuldade. - Se acalme amigo. Tudo ao seu tempo. Beba isso. – dando um copo de água para que o garoto bebesse. - Temos muito que conversar. O rapaz aos poucos vai se recuperando. Os nanorobôs que ainda estavam em seu corpo trabalhavam freneticamente e logo ele estaria gozando de perfeita saúde. Sentado na maca vestia uma roupa cor bege, calça e camisa. Alguns minutos depois agora perfeitamente lúcido leva um susto ao ver ao seu lado um homem todo prateado sorrindo para ele. - Santo Deus o que é isso? Zappa meio contrariado por ser chamado de “isso” olha indignado para o rapaz. - Este é o meta Robô de Zoneamento de Área Pesquisa e Proteção Arqueológica ou Z.A.P.P.A. – enquanto acalmava o amigo robótico. - Professor se o senhor não se importar acho melhor me afastar um pouco enquanto vocês conversam. – ainda um pouco contrariado por ser considerado “isso”. - Zappa? Meta robô? Onde eu estou? Em alguma instalação militar? Os acontecimentos vieram em turbilhão em sua mente e Reymond lembrou-se de tudo até a hora em que se afogava na cápsula. Lembrou da morte de seus pais, dos dias vividos nas ruas, da traição de seu tio, da prisão sem explicação e de tudo mais. Olhando intensamente para o professor fala: - Porque vocês me colocaram dentro daquela cápsula. SOCORRO. – olhando para os lados assustado. O professor assustado tenta acalmar o garoto que se afasta. - Calma. Nós o encontramos já dentro da cápsula e o trouxemos para cá para ajudá-lo. – com a mão direita levantada espalmada na direção do rapaz. Mas Reymond não dá ouvido ao professor e com um salto pula da maca e sai correndo em direção a porta. O professor apenas consegue gritar Zappa, mas já era tarde Reymond estava na rua. Ao abrir à porta do laboratório a luz do sol cega Rey por alguns segundos. Ao conseguir se acostumar com a claridade fica paralisado com o que vê. Estava em uma enorme praça toda calçada em mármore branco, extremamente limpa, com enormes árvores e canteiros floridos espalhados. Muitas pessoas todas vestidas com roupas em cores pastéis andam de um lado para outro em perfeita ordem. Ainda cambaleando sai correndo em direção ao centro da praça. Em alguns prédios ao redor enormes bandeiras de estrema brancura com as letras OCSC e em baixo o número 1000 pintadas. E exatamente no centro da praça uma estátua em mármore gigantesca. Aproxima-se contornando a estátua para poder ver o rosto, então cai de joelhos com a boca aberta, ombros caídos as mãos sob as pernas não acreditando no que via. Diante de seus olhos o figura de seu tio Július. A estátua causa em Reymond uma sensação contraditória, pois ao olhar para ela via a pessoa que mais lhe fez sofrer no mundo, seu tio, assim como via a imagem da pessoa que mais lhe fez feliz na vida, seu pai Memphis. Ainda de joelhos vê a aproximação de dois homens vestido com túnicas azuis escura. - Você esta bem irmão? – olhando intrigado para Rey. Antes que o garoto pudesse responder aparece o professor Goldmark e Zappa. - Tudo bem oficial cavaleiro. Ele veio da colônia européia hoje cedo e ainda não se recuperou da viajem. Nós o levaremos até o centro médico. Obrigado. - com um sorriso amarelo. - Ah é o senhor professor Goldmark. Ok. Tome conta do garoto não é de bom tom ficar caído na rua. Enquanto se afastava o professor ainda ouve o oficial cochichar com o outro. - Só podia ser coisa do velho louco. – sorrindo baixo. Caminhando ao lado de Reymond e Zappa o professor fala complacente para o garoto. - Acredita agora que não queremos lhe fazer mal? O garoto segue calado até o laboratório. Chegando lá o professor indica uma cadeira confortável para Rey e espera o garoto se acalmar. - Que maravilha, vejo que você esta muito melhor. - Desculpe por não acreditar no senhor. - É compreensivo dada às circunstâncias. Você esta se sentindo bem? - Engraçado, na verdade nunca me senti tão bem. - São os nanorobôs que ainda estão em seu corpo. Fazem verdadeiros milagres médicos. – sorrindo. - Tenho robôs dentro de mim. – se tocando assustado. - Se acalme. Eles são inofensivos e assim que terminarem o trabalho sairão pela sua urina. Teremos muito que conversar. Mas acredito que antes de falarmos do seu passado devemos colocá-lo a par do que aconteceu enquanto você dormia. Afinal são mil anos. – sorrindo. - MIL ANOS! – Reymond quase cai de costas. – Eu fiquei dormindo durante MIL ANOS? - Eu receio que sim meu amigo. O mundo que você conhecia não existe mais e infelizmente ele é bem diferente do que você estava acostumado. Mas antes se você não se importar ainda não sei seu nome? - Desculpe. Reymond Rolland. Mas se o senhor preferir pode me chamar de Rey. – ainda atordoada com a revelação. - Então relaxe meu amigo tenho muito que lhe contar. O professor percebendo que o rapaz já está lúcido e em perfeitas condições de saúde trata de colocá-lo a parte dos recentes acontecimentos desde sua descoberta. -... e então foi assim que chegamos até este momento.- sorrindo para o garoto. – A propósito me chamo Peter Carl Goldmark ou se preferir apenas professor Goldmark. - Não sei como posso lhe agradecer. O senhor salvou minha vida. Nunca poderei lhe agradecer. Eu estava morto e o senhor me trouxe de volta. – pegando na mão do professor para cumprimentá-lo. O professor fica extremamente desconfortável por sentir o toque da mão do garoto na sua, mas resolve não falar nada afinal eram mil anos de diferenças culturais. - Na verdade acho que você, meu jovem, é que vai salvar nossa sociedade com suas memórias. Não precisa ser um morto agradecido. – sorrindo. - Engraçado o senhor falar isso, meu pai contava um conto folclórico da velha Inglaterra, aonde um viajante que chega a um vilarejo e encontra um cadáver apodrecendo em público, pois o povo se recusa a enterrá-lo devido a dívidas contraídas e não pagas enquanto vivo. O viajante resolve pagar as dividas e enterrar o homem. Ao seguir viagem, ele é atacado por ladrões que iriam matá-lo, mas é salvo por um estranho. Quando vai agradecê-lo percebe que não é um homem, mas o espírito agradecido do cadáver que ele pagou para enterrar. O morto agradecido. O professor não cabe em si de alegria por ouvir tão singular história tão cheia de vida e mistério e não via à hora de saber mais sobre o passado. Nascido para ser Selvagem O professor arrumou uma cama no laboratório onde alojou Reymond. E nos dias que se seguiram não foi dar aulas e tratou de arrumar documentos falsos para Reymond com o auxilio de Zappa. De agora em diante Reymond para todos os efeitos legais era um aluno de intercâmbio vindo da colônia européia. Enquanto o professor arranjava os documentos Reymond aproveitou para conhecer um pouco mais sobre o mundo para o qual foi levado. Caminhou pelas ruas sem se comunicar com as pessoas, recomendação essa do professor, pelo menos até que se habituasse aos novos costumes. Aparentemente o mundo havia melhorado muito. As ruas eram extremamente limpas, as pessoas sempre muito tranqüilas, sem a loucura e correria da qual Reymond estava acostumado. Não havia carros e todo o transporte era coletivo. As lojas vendiam as mesmas roupas, não importava em qual ele entrasse. Para todos os lados que se olhava o que se via era ordem e harmonia. Mas algo incomodava tremendamente Reymond. Ele sentia falta de alguma coisa, mas não sabia o que. Era um mundo bege, limpo, perfeito e igual. Em um dos seus passeios quando retornava ao laboratório percebe uma construção arredondada muito grande com vários jovens dentro todos sentados esperando para serem atendido. Com receio de perguntar as pessoas que ali estavam o que era aquilo volta para o laboratório para perguntar ao professor. No laboratório o professor esperava ansiosamente a chega do garoto. - Finalmente você chegou Reymond. Desculpe não poder ter dado a atenção que você merecia nestes últimos dias, mas para a nossa segurança foi necessário eu lhe asseguro. - Não se preocupe professor. Eu entendo. – sorrindo amavelmente. - Vamos conversar. Preciso colocar-lhe a par dos últimos mil anos. Como você pode perceber o mundo em que vivemos hoje é diametralmente oposto ao seu. - Com certeza é muito mais calmo e organizado. Professor hoje enquanto caminhava vi uma construção arredondada muito grande com várias pessoas dentro, o que era aquilo? - O centro de companheirismo. Todo jovem da Ordem ao completar vinte e cinco anos segue para lá para encontrar seu parceiro que irá lhe fazer companhia pelo resto da vida. – como se lembrando de sua juventude. - Parceiro? Como em uma agência de casamento? - Casamento? Realmente temos muito que conversar. – levantando as sobrancelhas sorrindo. – Mas vamos ao que interessa. Vou relatar a você, de maneira sucinta, o que aconteceu nos mil anos em que você ficou “dormindo”. Se a qualquer momento você quiser me interromper fique a vontade. – olhando para o garoto complacente. - Ok. - Nossa história começa no dia 16 de agosto de 2151 com a abertura da Torre da Vigília. Uma obra monumental para os padrões da época idealizado pelo primeiro regente supremo da Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração, Július o primeiro. A simples menção do nome do tio já causa enorme transtorno em Reymond. - Desculpe interromper professor, mas há um sério equivoco aí. Não foi meu tio quem idealizou a Torre. Foi um mega bilionário dono de um império das telecomunicações, seu nome era Manoel Santiago de Castro. O professor fica olhando de boca aberta para Reymond. - Seu tio? - Sim este traste, assassino a quem vocês reverenciam era meu tio. – com ódio na voz. Reymond relata os acontecimentos de sua vida para o professor boquiaberto que custava a acreditar no que ouvia. Em sua ânsia por poder e glória Július traiu até mesmo seu mestre e mentor. Mil anos de mentiras contadas de geração para geração. O que só vinha a comprovar que uma mentira contada muitas vezes torna-se verdade. Em pé andando de um lado para o outro da sala o professor parecia um leão enjaulado. - Na hora em que eu botei os olhos em você ainda naquela cápsula eu sabia que isso mudaria nossa história, mas nem nos meus mais incríveis sonhos eu poderia imaginar que mudaria tanto. A possibilidade de fazer justiça encheu de esperança Reymond. Fazer seu tio pagar por seus crimes mesmo que mil anos depois seria fantástico. Poderia desmascarar o traidor. Acertá-lo onde mais doía, seu orgulho. - Então professor tudo o que temos que fazer é contar a verdade. - com os olhos brilhando de alegria. - Receio que não é assim tão simples meu jovem. – desanimado. - Mas por quê? – não querendo acreditar no que ouvia. - Entenda Reymond durante séculos e mais séculos a Ordem controla não somente os corpos e mentes das pessoas, mas controla suas almas. Mesmo que tivéssemos uma confissão assinada pelo seu tio ainda assim as pessoas não acreditariam. Elas simplesmente não se importam. Uma das bases da doutrina da Ordem é exatamente essa. A verdade é uma só e os únicos que a detêm são eles. As escolhas trazem dúvidas e as dúvidas levam a perdição, ao pecado. Para que se arriscar e tentar e falhar se o caminho certo a seguir esta ali na sua frente. Com um manual a ser seguido. Infelizmente séculos dessa doutrina acabaram com o espírito das pessoas. Elas simplesmente não ligam. Não se importam. Para que se preocupar se a Ordem já se preocupa por elas. Tudo o que elas têm que fazer é aceitar e acreditar. - É a fé cega. Acreditar por acreditar. Meu pai dizia que isto leva ao fanatismo, a intolerância e os mais terríveis atos e crimes são cometidos em nome de Deus. Que a verdadeira fé tem que ser raciocinada, devemos compreender o porquê acreditamos não apenas aceitar como carneirinhos. - Seu pai devia ser um grande homem Reymond. – olhando penalizado para o rapaz. - Era professor. Mas nós temos que fazer alguma coisa. Temos que contar a verdade. Fazer as pessoas acordar se rebelar. – muito animado com o punho fechado balançando no ar. - Está é a luta de minha vida Reymond. Fazer com que as pessoas acordem. Que elas compreendam que existem escolhas. Que o mundo não é preto e branco. Foi por isso que comecei a dar aulas com a esperança de que pelo menos as novas gerações saíssem desta letargia, deste marasmo ideológico, desta falta total de iniciativa, desta infindável apatia. E infelizmente tenho que admitir que até agora fracassei. – olhando para baixo envergonhado. - Não há do que se envergonhar professor. O senhor pelo menos tentou. Mas o que aconteceu com as pessoas para ficarem assim? - Vou explicar. “Após a inauguração da Torre da Vigília podemos dividir o mundo entre extra-torre e torre. Os primeiros anos da Torre da Vigília foram extremamente difíceis. Mesmo com as rígidas normas de seleção muitos dos primeiros moradores não aceitaram bem o novo sistema e foi preciso tomar medidas digamos “extremas” as quais seu tio não hesitou em tomar. Querendo ou não foi o pulso firme de seu tio que possibilitou a sobrevivência da Torre naqueles primeiros anos.” “Com o passar dos anos tanto dentro quanto fora da Torre à humanidade continuou a progredir científica e tecnologicamente. E o desenvolvimento foi incrível. Até três descobertas científicas mudarem a história da humanidade. A primeira aconteceu no ano de 2300 quando desenvolveram o anticoncepcional masculino, bastava o homem tomar uma injeção e durante doze meses ele ficaria impossibilitado de engravidar uma mulher. Este acontecimento gerou transformações profundas no comportamento das pessoas extra-torre. A natalidade caiu drasticamente em todo o planeta e a promiscuidade aumentou significativamente.” “A segunda foi à descoberta da vacina para AIDS em 2357. Este fato foi um marco para humanidade. Todas as inibições caíram, as pessoas se entregaram a todas as formas de promiscuidades. Festas regadas a drogas sintéticas e orgias se espalharam por todo o planeta. Muitos dos moradores da Torre tentados pelas novas descobertas e pelos prazeres mundanos fugiram. As instituições básicas como família, religião ruíram diante da total falta de limites. Revivíamos Sodoma e Gomorra. Avançamos inacreditavelmente científica e tecnologicamente, mas infelizmente regredimos moralmente. Noventa por cento da humanidade extra-torre foi vacinada. Obviamente os habitantes da torre não foram já que ia contra os dogmas da Ordem.” “A terceira e mais importante descoberta foi o desenvolvimento de uma vacina contra o câncer em 2388. Em qualquer outra época da humanidade isso seria fantástico e motivo de alegria nos quatro cantos da terra. Noventa e nove por cento das pessoas do planeta receberam a vacina inclusive os habitantes da Torre.” “Dois anos depois da imunização a combinação da vacina da AIDS com a vacina do câncer somado a promiscuidade e ao abuso das drogas sintéticas cada vez mais fortes, causaram a mutação do vírus HIV que se tornou extremamente agressivo. A contaminação se dava não apenas por transmissão de fluídos corporais e sangue, mas através do simples toque. Depois de contaminado em apenas dez dias a pessoa entrava em óbito. Os cientistas do mundo inteiro, inclusive os da Ordem, trabalharam alucinadamente na busca da cura. O medo tomou conta do planeta. As pessoas não mais se tocavam. Mães só abraçavam seus filhos com luvas. Governos se acusaram e guerras foram declaradas piorando ainda mais a situação. Quando finalmente descobriram a cura o planeta estava dizimado. Aqueles que não morreram pela doença morreram de fome.” “Como a Torre da Vigília era completamente auto-suficiente manteve-se nos tempos difíceis e basicamente só quem vivia na Torre se salvou. Nos anos que se seguiram foram feitas cruzadas pela Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração para colonização e catequização dos sobreviventes extra-torre. Foi aí que a Ordem assumiu definitivamente o controle do planeta. Foram fundadas colônias na América do Norte, Ásia, Europa, África e Oceania.” “Com o medo como mentor as pessoas simplesmente aceitavam os dogmas da Ordem sem questionamento. Depois de verem o que aconteceu com o mundo quando o que reinava era o caos aceitaram prontamente o seu oposto. O que era um ato de sobrevivência, não se tocar, passou com o tempo a ser cultural.” “As pessoas não se casavam, não constituíam família, não geravam filhos. Todas as escolhas foram substituídas pelos ensinamentos da Ordem. As gerações futuras passaram a ser geradas em úteros artificiais, sem o contato humano. A família foi substituída pela grande família da Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração onde todos são irmãos. O amor foi substituído pelo companheirismo. Todos perante a Ordem são iguais desaparecendo assim as disputas individuais. Não é mais necessário pensar a Ordem se encarregava disso.” “Qualquer contato físico passou a ser considerado indecoroso, inaceitável e de extrema falta de educação. Assim como qualquer tipo de demonstração de afeto. As artes, música, pintura, literatura, poesia passaram a ser hereges e foram condenadas e destruídas com o ato de moralização do Regente Augusto lll em 2551.” - É isso! – Reymond interrompendo o professor. - O que foi Rey? - A total falta de música! Desde que acordei não escuto absolutamente nenhum acorde. O silencio reina nesse lugar. Até nas ruas ele predomina. - Exato. - Mas como foi possível acabar com a poesia, a música as artes em geral? E o contato físico então? Li uma pesquisa que dizia que o contato físico é uma necessidade humana. Crescer sem isso causa traumas intensos. Depressão e até suicídio! - O medo é uma arma poderosíssima Reymond. O mundo passou por mal bocados. A raça humana foi quase completamente extinta exatamente pelo excesso de contato. As pessoas tinham medo e aceitaram qualquer coisa para se sentirem protegidas novamente. E a Ordem pensa em tudo. Seus cientistas sabiam que o contato é uma necessidade humana e a música, poesia, literatura a arte em geral são formas de se distrair e liberar a tensão e que sem isso muitas pessoas entrariam em depressão e conseqüentemente praticariam o suicídio. Então criaram os templos da paz de espírito espalhados por toda o Torre. - E o que é isso? - Quando qualquer cidadão se sente triste ou deprimido, basta se dirigir a um desses templos. Enquanto ele ouve o sermão, no ar são liberadas toneladas de beta-endorfina, substâncias que estimulam as áreas do cérebro responsáveis pelo prazer e bem estar causando sensação de euforia. - Minha nossa. A pessoa entra toda triste, ouve o sermão e sai acreditando que foi isso que melhorou seu estado de espírito. – horrorizado. - Exato. Isso reforça a crença na Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração e que para atingir a felicidade o ÚNICO caminho é ser fiel aos seus ensinamentos. Olhando para o rapaz desabafa. - Vivemos em um mundo quase perfeito. Temos trabalho para todos, não existe analfabetismo, não existe fome, doenças e individualismo conseqüentemente o egoísmo. Nossa sociedade funciona em serviço do coletivo. - Ou seja, é como viver em uma colméia ou formigueiro. – olhando para o professor que sorri com a analogia. - Nunca havia pensado nisso, mas você está coberto de razão. O problema é assim como em uma colméia também não temos liberdade de escolha. – entristecido. - Basicamente o senhor esta dizendo que vim parar no inferno! Não há música, as pessoas não namoram, não podem pensar por conta própria e o que é pior, não querem. Além é claro de considerarem meu tio um Deus. - levantando os braços para o céu. - Eu sinto muito Reymond. É por isso que é tão importante descobrirmos em suas memórias alguma coisa que consiga fazer com que as pessoas saiam de seu estado letárgico. Algo que consiga estimulá-las a se rebelarem. Procurarem o novo. Se arriscarem. - E como o senhor pretende fazer isso? Abrindo minha cabeça? – olhando desconfiado. - Claro que não. Zappa pode escanear sua mente em busca de suas memórias. – sorrindo. – Será completamente indolor e só levará alguns segundos. - Ok. Então vamos lá. Pode chamá-lo. Minutos depois Zappa está parado em frente a Reymond. De seus olhos sai uma luz verde que percorre desde o topo da cabeça até o queixo de Reymond subindo e descendo várias vezes. Enquanto isso imagens surgem na mente de Rey que as via como se estivesse vendo um filme. O robô fica neste processo cerca de cinco minutos tremendo levemente o corpo prateado o que começa a preocupar o professor. - Esta tudo bem Zappa? O escaneamento nunca demorou tanto assim antes. E porque você está tremendo? - Tudo em ordem professor. É que nunca antes vi tantas conexões neurais. E os arquivos são fantásticos. Parece que tivemos muita sorte professor e achamos uma enciclopédia viva. Ou um gênio! - Que maravilha, mas não precisa escanear tudo Zappa. Selecione só o que precisamos história, geografia, fatos importantes do passado da humanidade. - Certo professor, acabou. Já estou transmitindo os dados para seu computador pessoal. Reymond esta parado com um largo sorriso nos lábios e os olhos arregalados. - Nossa isso foi demais! Incrível! Parecia que todas as minhas memórias flutuavam em minha frente. Tinha coisa ali que eu nem me lembro de ter visto. – sorrindo. – Espero que alguma coisa sirva professor. - Tenho certeza que sim Reymond. – sorrindo muito esperançoso. Tudo o que Você Precisa é o Amor Graças a sua memória fotográfica e a quantidade de livros que devorou, devido à educação recebida por sua mãe, o material que o professor tinha para pesquisar era fantástico. Através das memórias de Reymond conheceu Malcon X, Martin Luther King, Gandhi e tantos outros que morreram lutando pela liberdade. Analisava avidamente o material quando ouve baterem na porta do laboratório. O professor olha assustado para Reymond e Zappa que se antecipa e se dirigi até a porta. - Quem é? - Sou eu Zappa, senhora Bethel Stockwood e comigo está à senhorita Galatéa. Zappa olha para o professor que fica muito agitado e começa a se arrumar passando as mãos tentando ajeitar os poucos cabelos, desamassando a roupa e se olhando para verificar o resultado. Olhando para o robô ordena. - Pode abrir. Ao abrir a porta entra uma senhora de cerca de sessenta anos muito bonita, corpo esbelto com longos cabelos loiros com pequenas mexas esbranquiçadas a cair-lhe pelos ombros. Logo atrás vinha Galatéa. Ao olha-lha o coração de Reymond quase saiu pela boca. Ela era a menina mais linda que ele já tinha visto em toda sua vida. Um metro e setenta, corpo perfeito, longos cabelos encaracolados castanhos com tons de dourado, olhos verdes em uma pele perfeita. Reymond simplesmente não conseguia para de olhá-la. - Olá senhora Stockwood. – o professor parecendo nervoso. - Olá professor. Desculpe vir aqui incomodá-lo em seu laboratório, mas a menina Galatéa estava preocupada com o senhor já que desde que retornou da expedição o senhor não deu mais aulas. – sorrindo com uma voz doce. – Eu lhe garanti que tudo estava bem, mas como também não tenho visto muito o senhor em nossa casa resolvi fazer-lhe uma visita. - Que é isso senhora Stockwood. Incômodo algum. Desculpe por não parar muito em casa, mas é que recebemos um convidado vindo de nossa colônia da Europa. – apontando para Reymond. Para Reymond o amor aconteceu como tem que ser a primeira vista. Para ele na sala não havia absolutamente mais ninguém além de Galatéa que não tirou os olhos do rapaz desde o momento que o viu. O rapaz se aproxima dela sorrindo, um sorriso sincero, e instintivamente estica o braço para cumprimentá-la. Mais que depressa o professor se coloca na frente dele sorrindo sem graça. Galatéa sente todo o seu corpo formigar com a proximidade do rapaz. Um calor intenso percorre todo seu corpo e sente seu rosto corar ao ver o belo e sincero sorriso do rapaz. - Este é Reymond Galatéa, um aluno brilhante de história antiga, será de grande valia para incrementar nossas aulas. E a única coisa que ela consegue dizer é: - Oi. – com um leve sorriso a escapar-lhe dos lábios. Para Reymond aquilo era música em seus ouvidos, o som mais lindo que ele já ouviu e assim como ela só consegue retribuir. - Oi. – ainda sorrindo. A senhora não compreendendo muito bem o que acontecia olha para o professor e ele ainda sem graça. - Estrangeiros. – com um sorriso amarelo. - Não queremos atrapalhar seu trabalho professor. Só passamos para dar um alô. Não é mesmo menina Galatéa? A moça continuava a olhar para Reymond e como se acordasse de um transe responde atrapalhada. - Sim... sim. – constrangida olhando para o chão. – Quando o senhor voltará a dar aulas professor? - Logo minha querida. Apesar de saber que você é a única que realmente se interessa pelo passado. A senhora olha intensamente de cima a baixo, medindo Reymond. - Está bem então professor. Fiz torta salgada que o senhor tanto gosta para o jantar. Até mais tarde. Vamos menina. Vamos. E se dirige para porta com Galatéa em seu encalço. Antes de deixar o laboratório a menina ainda dá uma olhada por cima do ombro direito para ver Reymond. Novamente sente seu rosto corar e vira rapidamente. Já na rua a senhora comenta. - Garoto estranho esse tal Reymond não achou menina Galatéa? Ele te olhou de um jeito esquisito. – fazendo uma careta. A menina sentindo seu rosto corar novamente. - Não percebi nada senhora Stockwood. – mentindo. - Foi impressão minha ou ele tentou te tocar? – horrorizada. Novamente Galatéa sente um calor percorrer todo seu corpo. - Não percebi senhora. – olhando para o chão evitando os olhos da outra. - Deve ser por que ele é estrangeiro. Fiquei sabendo que nas colônias eles não são tão civilizados como nós. – sorrindo. - Pode ser. Acho que esta se aproximando uma tempestade. – querendo encerrar a conversa. Galatéa não sabia o que estava acontecendo com seus sentimentos. Não compreendia porque a presença daquele rapaz mexeu tanto com ela nem o que era aquilo que estava sentindo. Parecia que a tempestade que se aproximava ocorria dentro dela. No laboratório Reymond despeja um verdadeiro bombardeio de perguntas ao professor. - Nossa quem era ela? – com os olhos vidrados ainda. - A senhora Stockwood? Minha companheira. - Não, falo da menina que estava com ela? Ela tem namorado? Quantos anos ela tem? Como é mesmo seu nome? Ela é simplesmente linda parece que foi esculpida. - Há! Galatéa. Posso lhe garantir que ela não tem namorado – sorrindo. – Ela e nem ninguém em nosso século sabe o que é isso Reymond. Não crie muita expectativa sobre ela. Desde quando ela foi gerada vem sendo preparada para ser a Regente Suprema da Torre. - Regente? Mas ela não é muito nova? – surpreso. - Todos os regentes são escolhidos desde que nascem. São preparados educados, ou melhor, doutrinados e crescem em conjunto com as novas gerações. São um modelo para eles e assim quando o regente atinge a idade adequada para assumir o cargo todos os seus discípulos já estão acostumados a segui-lo. Não há divergências. - Nossa essa Ordem pensa em tudo mesmo. Mas a esperança é a última que morre professor. Galatéa um dia ainda será minha assim como, mesmo sem ela saber, eu já sou dela. – sorrindo. – E que história é essa com a senhora Stockwood. O senhor ficou todo preocupado quando soube que era ela. – sorrindo maliciosamente para o professor. O homem fica sem jeito. - Um dia eu também já tive vinte e cinco anos Reymond e assim como todos os jovens fui até o centro de companheirismo. Lá um computador quântico analisou meu perfil e indicou uma companheira compatível com ele. - Por isso o tratamento tão formal. Apesar de morarem juntos pareciam dois estranhos. O professor fica envergonhado e olha para o chão. - Feita a escolha pelo computador existe um prazo de seis meses de convivência para comprovar a compatibilidade. É raro mais às vezes acontece uma falha na escolha e duas pessoas com perfis não compatíveis são colocadas juntas. Comprovada a não compatibilidade as pessoas se separam e seguem suas vidas com outros companheiros compatíveis. Tudo em prol da boa convivência da Ordem e Harmonia. - Que horror. - Foi à forma que a Ordem encontrou para substituir a família tradicional. Desta forma não há brigas, divórcio etc. Eu e a senhor Stockwood estamos juntos a mais de trinta anos. Zappa que ouvia a conversa mais ao fundo complementa. - O seu caso foi um desses, não professor? O senhor e a Senhora Stockwood não são compatíveis. O professor olha para Zappa querendo matá-lo. Reymond fica intrigado. - Não compreendi professor, o senhor não disse que seis meses depois de descoberto o erro a troca era desfeita? Mas vocês já estão juntos a mais de trinta anos? O homem como vencido por anos de angustia desabafa. - Uma semana após começarmos a morar juntos eu percebi o erro. Não havia absolutamente nada compatível entre nós, mas eu simplesmente não conseguia ficar longe dela. Eu não sabia explicar. - com as mãos no rosto. - O senhor se apaixonou professor. – olhando sorrindo para o homem. – Porque o senhor não falou para ela? - Paixão, amor não existe em nosso mundo Reymond. – extremamente triste. – Algumas vezes quase contei o que sentia, mas preferi não arriscar acabar com nossa convivência e ficar sem ela. - É estranho, professor, como nos acomodamos facilmente e passamos a acreditar que covardia é sensatez. Que ter um amor, mesmo que platônico, é melhor do que não ter amor nenhum. – olhando penalizado para o homem. – Mas e ela porque não pediu a anulação desse negócio de companheirismo? - Nunca entendi também. Acho que ela nunca percebeu. – olhando para o vazio. - Mas agora deixe me trabalhar meu amigo do passado. Como pode ver temos muito que mudar. – sorrindo tristemente. - Está bem professor, mas não fique triste como diziam Paul e John tudo o que você precisa é o amor. – sorrindo. Reymond sai em direção ao pátio imaginando como seria viver trinta anos com uma pessoa, estando apaixonado por ela sem nunca poder tocá-la. Um calafrio percorreu toda a extensão de sua espinha. Sentou em um banco no pátio externo onde via o céu muito negro anunciando a chegada de uma tempestade. Relâmpagos iluminavam o lugar, mas para Reymond a única coisa que importava era Galatéa. Entretido em seus pensamentos não percebe a aproximação de Zappa. O Robô senta ao seu lado e várias vezes olha rapidamente para Reymond, mas não fala nada. O rapaz percebe o desconforto da figura metálica ao seu lado e resolve puxar conversa. - Não é linda esta Galatéa Zappa? - Acredito que para os padrões humanos sim, mas ela deve estar com algum problema de saúde. Deveria procurar um robô médico. Reymond olha assustado para o robô. - Do que você esta falando? - Quando ela estava perto do senhor meus sensores captaram alterações hormonais, ouve aumento de produção de dopamina junto com a neuroepinefrina e a pheniletilamina, seus batimentos cardíacos aumentaram e um ligeiro aumento na atividade das glândulas sudoríparas. Mas posso estar enganado porque o mesmo aconteceu com o senhor. Isto também acontece com o professor quando esta perto da senhora Bethel Stockwood. Os humanos são seres intrigantes. - Isto é o que acontece quando nos apaixonamos meu amigo prateado. – com um sorriso que iluminava seu rosto. - Senhor Reymond posso lhe fazer uma pergunta? - Claro, diga Zappa. Você quer saber se robôs também se apaixonam? – sorrindo. - Na verdade não. Enquanto escaneava sua mente havia muitas memórias referentes à música mais especificamente ao rock and roll. A quantidade de arquivos sobre este tema era impressionante. Como não era do interesse do professor não os baixei, mas confesso que fiquei muito curioso. Afinal algo que ocupa tanto espaço em sua mente deve ser importante. O senhor poderia me dizer do que se trata? - Definir o Rock and Roll! Uma vez um grande músico, Pete Townshend, disse que o Rock and Roll é uma das chaves, uma das muitas, muitas chaves de uma vida complexa. Não fique se matando tentando todas as outras chaves. Sinta o Rock and Roll, e então provavelmente você vai descobrir a melhor chave de todas. - Interessante! - O rock and roll é vida, atitude, rebeldia. Meu pai dizia que na vida tudo acontece em ciclos. O mundo é redondo, as marés nos oceanos, as fases da lua, temos a primavera, o verão, o outono, o inverno e a primavera novamente. Nascemos, crescemos, morremos e nascemos novamente. Os séculos passam, a humanidade evolui, tecnológica e cientificamente, os mais variados ritmos surgem, mas então um dia alguns garotos se conhecem e com uma guitarra, um baixo, uma bateria e letras que falam de rebeldia, amor adolescente, liberdade eles revolucionam o mundo. Quebram paradigmas, conceitos e regras. E como ele sempre dizia enquanto Elvis Presley estiver vivo o rock nunca morrerá, pois como sabemos Elvis não morreu. – rindo. - Será que eu poderia escanear sua mente novamente? Assim acredito que ficaria mais claro para mim. Neste instante ouvem um enorme estrondo causado por um raio que caiu muito perto. Reymond se assusta e olha para Zappa que continua impassível. - Claro, mas acho melhor entrarmos. Está ficando um pouco perigoso aqui. – olhando para o céu negro devido à tempestade que se aproxima. - Se o senhor não se importar eu não gostaria de fazer isso na frente do professor ele pode não entender porque estou baixando dados que são irrelevantes. – com olhar suplicante. - Não há perigo em fazer isso aqui? - Não, eu posso garantir. Se algo for acontecer meus sensores me avisarão e paramos imediatamente o escaneamento. – sorrindo. - Ok. Mais uma vez Reymond fica parado em frente ao robô e de seus olhos sai o filete de luz verde que percorre a cabeça do rapaz. As lembranças de Reymond passam como em um filme diante de seus olhos e Zappa vendo concertos, shows, bandas, cantores, cantoras e tudo o que o Rock and Roll fez por gerações fica completamente extasiado. Estava tão concentrado e fascinado com as novas informações que não percebeu um raio que atingiu exatamente seu peito. Zappa é arremessado violentamente para um canto do pátio e Reymond para o outro. O professor ouvindo o enorme estrondo sai correndo e vê Reymond caído perto de um vaso. Muito preocupado chega perto do rapaz. - O que aconteceu? REYMOND você esta me ouvindo? O Rapaz levanta com o rosto preto os olhos arregalados e os cabelos em pé. Olhando para o professor com um largo sorriso. - Uau! Isso foi demais! Rock and Roll puro! Uruu! – com a mão direita levantada com os dedos indicador e mindinho levantados em forma de chifres. - Você esta bem? O que aconteceu? – preocupado. - Zappa estava escaneando minha mente e acho que fomos atingidos por um raio ou algo assim. – ainda meio tonto, mas sorrindo. - Escaneando em meio a esta tempestade! Zappa deve estar com defeito. Onde ele está? – olhando para os lados. - Não sei. Os dois saem à procura do robô que está deitado atrás de um vaso enorme de flores. Ao se aproximarem ficam durante alguns segundo olhando assustados para o robô. Zappa fica se transformando em personalidade do rock instantaneamente. Assume a forma de Jimi Hendrix, John Lennon, Elvis Presley, e muitos outros ícones do rock todos prateados. - Santo Deus o que esta acontecendo com ele e quem são essas pessoas? – fala o professor assustado. Com receio segura os ombros do robô e o sacode firme. Como se despertasse de um transe o robô assume sua forma normal e com um largo sorriso fala olhando para os dois. - Rock and Roll Baby! Reymond sorrindo olha para o professor e fala. - Já sei professor o que fará seus alunos despertarem para a vida e posso garantir ao senhor que nunca mais eles serão os mesmos. – rindo muito. - E que milagre pode ser esse Reymond? - O mesmo que uma vez já mudou radicalmente o mundo, seus costumes e crenças o bom e velho Rock and Roll. – rindo muito. O professor e Reymond ajudam o robô a se levantar e seguem com ele cambaleando e mancando em direção ao laboratório. Enquanto andam o robô vai cantarolando sorridente Revolution dos Beatles. Você diz que você quer uma revolução Bem, você sabe... Todos nós queremos mudar o mundo Você me diz que isso é uma evolução Bem, você sabe... Todos nós queremos mudar o mundo... O Retorno do Rei No dia seguinte na sala de aula a espera de seus alunos o professor caminha de um lado para outro ansioso. Reymond que conversava com Zappa percebe a angustia do professor. - Calma professor, vai dar tudo certo. Não se preocupe. Já acertei todos os detalhes com Zappa. O homem olha para o robô que desde o incidente no pátio vinha agindo de forma estranha. Não parecia mais com o robô que o professor achou e consertou, sempre tão correto e educado com aparência impecável de um cidadão da Torre da Vigília, com seu corpo sempre imitando as roupas tradicionais só que em seu caso prateadas. Agora mostrava um cabelo longo revolto até os ombros, sobrancelhas grossas com um nariz aquilino, um bigode que descia pelo canto da boca e um pequeno cavanhaque exatamente embaixo do lábio inferior com formato quadrado um perfeito hippie saído de um festival de rock dos anos sessenta. - Eu não sei Reymond. Você acredita mesmo que esse tal de Rock and Roll vai dar certo? Afinal é apenas música. Como isso poderá afetar eles? - Confie em mim professor. A semente está lá só o que eles precisam é de uma regadinha. – sorrindo. – No mais, eu sei é apenas rock and roll, mas eu adoro. – cantarolando. Enquanto o professor e Reymond conversam os alunos começam a chegar com sempre muito educados em ordem sem algazarra nem barulho. Educadamente vão ocupando seus lugares e tranqüilamente esperam o início da aula. Quase todos tranquilamente. Galatéa olhava o tempo todo para Reymond e toda vez que o garoto retribuía o olhar ela desviava o seu. Como sempre fazia o professor posiciona-se ao centro e olhando para todos inicia a aula. - Bom dia e Ordem e Harmonia a todos. O que é respondido em uníssono. - Bom dia e Ordem e Harmonia. Um burburinho começa a percorrer a sala. - Vejo que estão animados hoje, muito bom! Um rapaz no fundo da sala levanta a mão. - Sim Freed. - Professor Zappa esta com algum problema? Ele está estranho. – sorrindo. Todos olham para o fundo da sala onde Zappa está parado gingando levemente de um lado para o outro enquanto balança a perna. Irritado o professor chama por ele. - Zappa! ZAPPA! – com o canto da boca. O robô como que despertando de um transe olha pra o professor. - Fala Profê! - Para! – irritado. A sala toda cai na gargalhada. - Não dêem atenção para ele. Ele está bem. Vamos voltar ao que interessa. Hoje não teremos uma aula tradicional. Vamos falar de um assunto novo que nunca abordamos antes, música. – olhando para todos para avaliar suas reações e como esperado nenhuma. – Para discorrer sobre o assunto temos um convidado vindo da nossa colônia européia, Reymond Rolland. – apontando para o garoto que se levanta. Galatéa sente seu rosto corar. Reymond segue até o centro da sala e olhando para todos sorri. Imaginava que nunca na vida teve uma platéia tão difícil e como seu pai ficaria feliz e orgulhoso ao vê-lo fazendo história. Que mesmo após séculos de opressão a música ainda resistia e seu filho seria o responsável por essa nova revolução. Július não venceu. - Olá. Hoje lhes apresentarei o Rock and Roll um estilo de música que surgiu no final de 1940 início de 1950. Ele é uma mistura de vários outros gêneros musicais como folk, blues, rhythm and Blues entre outros que estudaremos com o tempo. O Professor olha par a classe que como sempre não esboça reação nenhuma e começa a perder as esperanças no plano de Reymond. - Mas não existe maneira melhor para entender o rock do que ouvindo. Para isso vou pedir o auxilio de nosso amigo prateado. – apontando para Zappa que caminha em sua direção gingando o que arranca risos de todos. O professor coloca as mãos na cabeça e balança negativamente suspirando. Do peito Zappa retira uma pequena bola de metal prateado e começa a manuseá-la. Em instantes ela se transforma em um violão todo prateado que ele entrega a Reymond. Todos na classe inclusive o professor ficam olhando abismados para o instrumento reluzente. Reymond se ajeita e confere a afinação. Atrás dele Zappa se divide em três Zappas o primeiro com um contra baixo de pau, o segundo com uma guitarra e o terceiro em uma bateria todos prateados. Reymond olha novamente para todos e fala. - Com imenso prazer lhes apresento Reymond Rolland e os Garotos Prateados – sorrindo. Olhando para todos, mas em especial para Galatéa ele começa a tocar Blue Suede Shoes de Carl Perkins como o rei Elvis Presley fazia. Bem, um é pelo dinheiro, Dois é pelo show Três é para se aprontar Agora vá, gata, vá Mas não pise Nos meus sapatos de camurça azul. Bem, você pode fazer qualquer coisa, mas Fique longe dos meus sapatos de camurça azul. Todos na sala ficam no primeiro instante, simplesmente paralisados com o que ouviam. Aquele ritmo alucinante a maneira que Reymond movia as pernas mexia o quadril como tocava o violão. As meninas se agarram nos encostos das cadeiras. Sentimentos começaram a aflorar e eles não sabiam o que fazer. Acostumados com o silêncio à ordem ficam hipnotizados com os acordes a batida cadenciada da bateria a linha do baixo a guitarra, achavam tudo novo e fantástico. Enquanto Reymond seguia alucinado com a alegria estampada no rosto, a felicidade transbordando por todos os seus poros junto com a energia daqueles movimentos sensuais. Bem, você pode me derrubar Pisar no meu rosto Caluniar meu nome Em toda região. Fazer qualquer coisa que queira Mas querida, fique longe desses sapatos. E não pise nos meus sapatos de camurça azul. Aquela letra que pregava que você podia fazer qualquer coisa instigando a se movimentar era quase impossível ficar parado. Um garoto que estava sentado no fundo olhando vidrado para aquilo começa a bater o pé no ritmo da música. O que está ao seu lado olha assustado para ele pergunta. - O que você esta fazendo? – apontando para a perna dele. O rapaz se assusta e olha para própria perna, pois não havia percebido que se mexia. - Não sei! Só sei que é bom! – levantando os ombros e sorrindo ao mesmo tempo em que começa a bater palmas acompanhando a música. Você pode queimar minha casa Roubar meu carro Beber meu licor De um velho jarro de frutas Fazer qualquer coisa que queira Mas querida, fique longe desses sapatos. E não pise nos meus sapatos de camurça azul Bem, você pode fazer qualquer coisa, mas Fique longe dos meus sapatos de camurça azul Logo a maioria da sala bate palmas seguindo o ritmo alucinado de Reymond e os Garotos Prateados. Os olhos do professor vendo a reação de seus alunos se enchem de água e as lágrimas começam a escorre por seu rosto junto com um largo sorriso e ele também começa a bater palmas. Ao encerrar a música todos batem palmas alucinados e correm em direção a Reymond bombardeando o garoto com perguntas. Alguns queriam tocar no violão, outros vão até os outros instrumentos todos muito excitados. Enquanto o professor tentava colocar ordem no lugar Reymond percebe que Galatéa esta sentada apenas olhando para todos. Então se livra do assédio vai até ela e senta ao seu lado. - Você não gostou? - Não é isso. É que nunca vi nada parecido. – sentindo seu rosto corar. - O rock and roll costuma fazer isso quando ouvimos pela primeira vez. - sorrindo. – Mas venha existe muitas outras coisas que quero lhe mostrar, pintura, literatura, escultura e especialmente poesia. – pegando em sua mão. Galatéa sente todo o seu corpo tremer ao toque do rapaz e ligeiro puxa a mão. Reymond olha para ela e sorrindo estica novamente o braço. - Não tenha medo. Na vida as coisas mudam, elas sempre mudam. – sorrindo. Sem compreender muito bem o porquê Galatéa segura à mão de Reymond e segue em direção aos outros. Algo em seu interior dizia que podia confiar nele mesmo sem conhecê-lo e ele sendo tão diferente do que ela estava acostumada. Durante o restante da aula Reymond segue apresentando aos ávidos colegas grandes clássicos do rock como Chubby Checker e o sue the twist, Bill Haley com rock around the clock, Chuck Berry com roll over Beethoven e go johnny go, Jerry Lee Lewis & The King com what'd i say, Aretha Franklin e a magnífica respect, Ray Charles e hit the road jack! Entre tantos outros sucessos. Quando não os tocava com os garotos prateados, Zappa reproduzia imagens com os artistas originais tocando. Ficaram fascinados em ver as pessoas se tocando enquanto dançam e a forma como se divertem com aquilo. Como aquele mundo era tão diferente do seu com tanta alegria, felicidade e cores muitas cores. Que nem tudo era caos e horror com vinham lhes ensinando desde que nasceram. Ao terminar a aula pela primeira vez na vida o professor teve que expulsar seus alunos extremamente feliz por fazer isso. - Eu não falei professor tudo estava sob controle. Adolescentes são adolescentes em qualquer época da humanidade. Só o que precisamos é estímulo. – sorrindo. - Meu amigo você não imagina quanto sou grato a você. O primeiro passo foi dado. De agora em diante podemos mostrar a pintura, escultura, literatura, mostrar-lhes que existem outras formas de se ver o mundo e não apenas pelos olhos bitolados da Ordem. Podemos lhes ensinar a LIBERDADE. – com as mãos para o céu. De tão feliz o professor quebrando o protocolo da boa educação e da etiqueta social estica a mão em direção a Reymond para cumprimentá-lo. Reymond olha para o professor, mas não estica a mão. O homem fica envergonhado. - Não é assim que vocês se cumprimentavam na sua época. – sem saber se estava fazendo a coisa certa. Reymond abre um largo sorriso e puxa o professor para perto e dá um forte abraço no homem que fica extremamente desajeitado. O Mito de Pigmalião Apesar de estar feliz com as mudanças que a música vinha causando nos jovens, Reymond não conseguia se aproximar de Galatéa que sempre que podia se esquivava de sua presença. Nas raras oportunidades que consegui falar com ela, a moça sempre se mostrava arredia e até, algumas vezes, grosseira. Não compreendendo o porquê, vai desabafar com o professor. O homem está sentado em sua mesa no laboratório preparando a aula do dia seguinte. Ao ver Reymond se anima. - Que bom que você esta aqui Rey. Amanhã vamos falar da relação da música com a liberdade. – sorrindo entusiasmado. - Ok professor. – desanimado. O homem percebendo o desânimo de Rey. - O que foi Reymond? Você não me parece feliz? Algo o incomoda? - É estranha a vida professor. A minha, por exemplo, vivia muito bem com meus pais, feliz, com um futuro promissor pela frente e de uma hora para outra tudo mudou. Confesso que nos tempos em que vivi nas ruas acreditei que nunca mais poderia ser feliz novamente, mas então a pior coisa que poderia me acontecer acaba se tornando a melhor. - Não entendi. - Eu fiquei congelado por mil anos. Se não fosse por isso provavelmente eu estaria morto e meu tio teria vencido, mas, no entanto hoje estou aqui podendo mudar o que meu tio construiu e encontrei o amor de minha vida, Galatéa. E agora posso voltar a acreditar na felicidade. - Mas você não me parece muito animado. - Não entendo Galatéa. Sei que ela gosta de mim então porque não consigo falar com ela. – balançando a cabeça desanimado. – Sempre que eu tento me aproximar ela se afasta. - Toda mudança causa medo Reymond. Galatéa esta confusa. As mudanças especialmente para ela são difíceis. Ela foi criada para ser o exemplo de conduta, o modelo de educação da Ordem. Desde o dia em que nasceu vem sendo preparada para isso, doutrinada. Agora aparece você com esse tal de rock and roll e literalmente balança seu mundo. Deixe as coisas acontecerem naturalmente. O rapaz fica parado durante alguns segundos pensando. - O senhor está certo professor. Não posso esmorecer devo atacar com mais agressividade. Obrigado. – e sai em disparada. O professor fica olhando o rapaz sair sem acreditar e comenta em voz alta. - Será que ele não ouviu nada do que eu disse. – balançando a cabeça. Reymond sai correndo a procura de Galatéa. Estava disposto a conquistá-la e nada poderia impedi-lo de conseguir. Sabia que depois das aulas Galatéa seguia para a praça principal para ouvir o pronunciamento da Ordem que era feito todas as tardes por um dos Conselheiros da Ordem, mas com a proximidade da comemoração do primeiro milênio da Ordem o próprio Regente vinha ministrando o sermão que era transmitido para toda a Torre da Vigília assim como simultaneamente para todas as colônias da Ordem ao redor do planeta. Procura pela amada em meio à multidão que se aglomerava para ouvir os ensinamentos. Após alguns segundos avista a menina. Anda com dificuldade devido ao grande número de pessoas, era como andar em um mar branco e bege, que ficam irritadas por serem tocadas, até que consegue ficar ao seu lado. Ao perceber a presença de Reymond Galatéa tenta se afastar. Ele se aproxima mais e sussurra em seu ouvido. - Quero conversar com você. Galatéa sente seu rosto corar e seu coração dispara. - Desculpe estou ocupada. – virando o rosto. - Só alguns minutos após a palestra. – suplicante. - Não! Desculpe. – se afastando um pouco. Reymond segue novamente em sua direção e sussurra em seu ouvido. - Se você não falar comigo eu juro que vou te dar um abraço aqui no meio de todo mundo. – olhando sério para a menina. Galatéa olha assustada para ele. - Você não se atreveria? – indignada. - Não? – fazendo menção de abraçá-la. Mais do que rápido a menina vai para trás esbarrando em algumas pessoas que ficam extremamente irritadas com a falta de educação da moça. - Está bem. Quando terminar a palestra nós conversamos. – virando para frente e sorrindo pela impertinência do rapaz. Logo em seguida surge no alto de uma enorme sacada decorada com bandeiras brancas com as letras OCSC, na Torre da Vigília, um homem de cerca de setenta anos cabelos brancos olhos claros e pouco expressivos. Olhando para frente fala de forma calma, mas muito firme. Era o Regente Parkertom. Por toda praça sua imagem holográfica é reproduzida, com extrema definição, para que ninguém ficasse sem ouvi-lo. - Harmonia e Ordem a todos. Como todos sabem este ano completamos mil anos desde a criação da Torre da Vigília um marco para história da humanidade. E devemos isto ao nosso grande mestre e mentor Július o Primeiro. A simples menção do nome do tio causa um mal estar em Reymond. - Graças a sua visão inspiradora e iluminada do futuro hoje vivemos em um mundo muito mais justo, ordenado e correto. Muito diferente de nossos antepassado que viviam sobe o domínio das paixões mundanas, da falta de ética, dominados pelos prazeres. O homem segue durante uma hora contando os avanços sociais e morais que a humanidade conseguiu sob o controle da Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração. Que o amor era ilusão e que o único e verdadeiro caminho era a resignação e obediência. Reymond já não agüentava mais quando finalmente o homem encerra a palestra. Olha para Galatéa e comenta. - Nossa achei que ele nunca mais fosse parar. Ela nada responde e indica para ele um canto da praça mais afastado. Onde poderiam ficar a sós sem serem interrompidos. Caminham durante algum tempo mudos até chegarem a um jardim maravilhoso. No centro havia um chafariz com água cristalina jorrando. Muitas flores ao redor que com a luz da lua que nascia dava ao lugar um ar romântico. Sentam em um banco de frente ao chafariz com a lua ao fundo. Permanecem calados durante alguns minutos até que Galatéa irritada fala. - Você não queria conversar. Então fala! – olhando para Reymond. Ele leva um susto com a reação da menina e responde sínico. - Como pode ser? O que tem de bonita e tem de grosseira! Galatéa faz menção de levantar. Reymond rapidamente se desculpa. - Não! Por favor. Desculpe. – suplicante. A menina olha para ele e senta novamente. Após alguns segundos de silêncio fala. - Eu é que devo te pedir desculpas. Tenho sido muito grosseira com você. – olhando para o chão. – Não existe motivo para isso, mas eu não sei o que está acontecendo comigo. Quando estou perto de você me sinto estranha. Fui criada para ser o modelo para nosso povo. Mas eu nunca quis isso! – surpresa por ter falado isso. – Viu? Nunca em sã consciência eu falaria isso para alguém. - Fico feliz em ouvir isso e honrando por ter sua confiança. E se você não quer ser o modelo para uma geração não seja. – sorrindo. - Não é assim tão fácil. Eu não tenho escolha. – desanimada. - Sempre temos escolhas. Só o que temos que fazer é ter coragem para tomá-las. - A vida nas colônias deve ser realmente muito diferente. – intrigada. - Você nem imagina. – sorrindo. Galatéa olha fixo para Reymond tentando decifrá-lo. - Você é diferente dos outros garotos. É espontâneo. Parece que nada te perturba. Além de fazer coisas incríveis. Como você sabia tocar aquele instrumento? - Eu aprendi com meu pai. – saudoso. - Com quem? – sem entender. - Uma pessoa que foi muito importante para mim. – suspirando e sorrindo em seguida. - Mas não vamos falar do passado já que é o futuro que me interessa. Não sei nada a seu respeito, do que você gosta, por exemplo? - Sei lá. O mesmo que todo mundo. – levantando os ombros. Novamente o silêncio incômodo. - Você tem um nome lindo. Galatéa. A menina sente seu rosto corar e olha para baixo. - Você fala coisas estranhas. Meu nome foi escolhido aleatoriamente assim como o de todos. Não existe individualismo na Ordem todos somos iguais. - Você é especial. Você não é igual a ninguém. Prova disso é que foi escolhida para ser a nova Regente. E seu nome com certeza não é comum. - Viu? Eu nunca havia pensado nisso. – olhando fixo para Reymond. Reymond se aproxima mais de Galatéa que começa a respirar mais fundo. - Vou lhe conta o Mito de Pigmalião a origem de seu nome. – sorrindo enquanto se aproxima ainda mais da menina. “Era uma vez quando o mundo ainda era jovem e as pessoas acreditavam na magia da vida, em uma pequena ilha vivia um escultor, um mestre escultor, e seu nome era Pigmalião.” Galatéa ouvia tudo fascinada. “Este escultor só acreditava em sua arte. Não acreditava no amor na paixão. Dizia que o amor e as paixões desviam o homem de seu real destino. Que enquanto vivesse sozinho era livre. Sem sofrer com as escolhas que o amor nos força a tomar. Os caminhos que nem sempre são retos que temos que seguir ao aceitá-lo. Por medo de sofrer jurou nunca se entregar ao amor e assim tornar-se livre. Dedicou-se a sua arte integralmente fabricando obras magníficas de arte. De imensos blocos do mais puro mármore moldava homens e mulheres perfeitos que assim como ele não sofreriam com as mazelas do amor e das paixões.” Não havia como Galatéa não se identificar com a história que ouvia. “Um dia como sempre fazia de um bloco de mármore de extrema brancura começa a surgir à imagem de uma bela mulher, mesmo não sendo essa a intenção de Pigmalião. A figura surgiu a despeito de sua vontade. Durante dias ele trabalhou somente nela e tinha plena certeza que essa seria sua obra prima, seu maior trabalho. Era tão perfeita que o escultor se apaixonou pela imagem da mulher perfeita que esculpiu e lhe chamou de Galatéa. Finalmente o amor venceu Pigmalião estava apaixonado.” Reymond se aproxima ainda mais de Galatéa ficando bem próximo de seu corpo. A menina sentindo sua proximidade sente seu coração bater mais forte. “Nos dias que se seguiram Pigmalião sofria contemplando seu amor petrificado sabendo que nunca poderia beijá-la, sentir seu cheiro, seus lábios perfeitos, a suavidade de sua pele macia e cabelos longos. Sofria como todo amante sofre longe da pessoa amada, mas sem o consolo de um dia poder reencontrá-la.” Galatéa da um leve suspiro como penalizada pelo sofrimento do artista. “E assim o tempo passou até que chegou o dia do festival de Afrodite a Deusa do amor. Desesperado Pigmalião ajoelha-se diante da imagem da Deusa e suplica com todas as forças de seu ser para que sua amada pudesse se tornar carne. Pedia perdão por seu orgulho e arrogância em achar que o amor não poderia alcançá-lo. Suplica humildemente para que Afrodite, que pode tudo, atendesse seu pedido de amor desesperado.” Galatéa olha suplicante para Reymond esperando o desfecho, intimamente rezando para que a súplica do artesão fosse atendida. “Foi então que Pigmalião ainda ajoelhado vê as chamas das velas, no altar da Deusa, levantarem e ouve um suave sussurro de uma voz divina: - Que assim seja.” Galatéa dá um pequenino grito de felicidade e olha envergonhada para Reymond que retribui com sorriso. “Pigmalião corre desesperado para casa não vendo à hora de encontrar seu único e verdadeiro amor, Galatéa. Mas ao chegar percebe que nada havia mudado, ela continua imóvel petrificada. Sente o desespero apoderar-se de sua alma e de seus olhos lágrimas escorrem.” Galatéa dá um novo suspiro com os olhos marejados. “Pigmalião aproxima-se da estátua e toca na mão perfeita de sua amada. Acreditando sentir novamente o frio do mármore. Mas com o toque do artesão os pequeninos dedos da figura marmórea começam a ganhar vida. A felicidade de Pigmalião era imensa. Aos poucos ele vai tocando sua amada que se transforma em carne, ganha vida, até que não agüentando mais a abraça.” Neste instante Reymond está muito próximo de Galatéa que simplesmente não consegue se afastar do rapaz. E com dificuldade devido aos ritmo acelerado de seu coração suspira. - O que aconteceu então. - Então Pigmalião se aproxima da amada coloca as mãos em seu rosto – com as mãos no rosto da menina- olha em seus lindos olhos verdes e apenas a beija. – beijando a menina. Aquele não era apenas o primeiro beijo de jovens amantes descobrindo as maravilhas e surpresas da vida, mas o primeiro beijo dado em séculos. E como disse o poeta o amor pode ser eterno, mas cabe no breve espaço de um beijo. Novamente a força do amor venceu. Os dogmas, ensinamentos, normas culturais de séculos caíram todos com apenas um simples beijo apaixonado. Ainda sem fôlego depois do beijo Galatéa, com os braços entorno do pescoço do rapaz, olha apaixonadamente para ele e pergunta. - O que aconteceu com eles então? - Foram felizes para sempre. – beijando-a novamente. Eu Tenho Você Babe Reymond não cabia em si de felicidade. Amava e era correspondido. Nos dias que se seguiram ele e Galatéa se encontravam no mesmo lugar onde deram seu primeiro beijo, seu canto secreto de amor. Reymond com a ajuda de Zappa mostrava para Galatéa a música, poesia, literatura, filosofia, as grandes lutas travadas em nome da liberdade durante os séculos, o direito sagrado do ser humano da escolha e do amor. A menina fascinada com um mundo tão diferente se encarregava de repassar os ensinamentos aos demais jovens da Ordem o que era facilitado, pois a maioria estava acostumada a segui-la. Em pouco tempo as idéias revolucionárias de Reymond e do professor se espalhavam e ganhavam adeptos por todo o mundo. Não podendo e não querendo esconder nada da menina contou toda sua história. Como seu tio traiu não só seu pai, mas seu mestre e mentor e assumiu o posto de messias. O trágico assassinato de seus pais, seus dias nas ruas perdido e assustado até o dia em que se encontrava agora. Segurando a mão de Galatéa fala. - E foi assim que cheguei aqui hoje. – olhando para menina tentando decifrar sua reação. - Que horror. Deve ter sido absolutamente horrível. Coitadinho. – dando um beijo no rosto de Reymond. – Você deve ter muita raiva de seu tio? - É estranho, mas ironicamente não tenho mais raiva de meu tio. Sinto falta de meus pais, não sei se algum dia irei perdoá-lo pelo que fez, mas não o odeio mais. Tenho certeza que esteja ele onde estiver estará respondendo por seus atos. E o seu maior castigo será ver o seu sonho, seu império de mentiras e opressão ruir. A liberdade e o amor afinal prevalecerão. – calmo e sereno com o coração em paz. - Sou também extremamente grata ao seu tio. Não me entenda mal o que ele fez foi horrível mas se não fosse ele hoje eu não conheceria você e estaria ainda vivendo uma mentira. Milhões ainda estariam vivendo uma mentira. Graças a ele hoje eu tenho você. E nada nem ninguém no mundo me afastará de você agora. – abraçando o garoto e sorrindo. - É eu tenho você. – sorrindo canta abraçado a ela. Eles dizem que nós somos novos, que não sabemos de nada, que não encontraremos a saída até que nós cresçamos.Bem... Eu não sei se isso tudo é verdade, mas você tem a mim, e eu tenho a você. ...Eu tenho você para andar comigo. Eu tenho você para conversar comigo. Eu tenho você para dar um beijo de boa noite. Eu tenho você para me abraçar forte. Eu tenho você, e não quero ir embora. Eu tenho você, quem me ama muito... Babe Eu tenho você babe, eu tenho você babe... Faça Você Mesmo Reymond caminhava tranquilamente pelos maravilhosos jardins que circundavam toda a Torre da Vigília, mas mesmo diante de toda aquela beleza só conseguia pensar em Galatéa. Estava tão feliz que mal cabia em si. Agora aqueles dias tenebrosos que passou depois da morte de seus pais pareciam um pesadelo que finalmente acabou. Quando não estava com Galatéa ou com o professo, passava horas conversando com os jovens que ávidos por suas histórias sobre o rock and roll não lhe davam descanso. Estava feliz como nunca pensou que um dia voltaria a estar. Ao passar por um grupo de jovens que conversavam animadamente é abordado por um deles. - Reymond, olá. – com o braço estendido correndo em sua direção. - Olá Cristofer. - Eu posso conversar com você um estante? - Claro, no que posso ajudar? - É que depois de sua vinda para cá muitas coisas mudaram. Passamos a encarar nossas vidas com outros olhos. Adoramos as aulas do professor Goldmark, mas elas são tão curtas e existem tantas coisas para aprendermos, como literatura, poesia, música, pintura, entre outras. - Isso é ótimo! Significa que finalmente vocês estão se interessando. Estão pensando por conta própria. – sorrindo e colocando a mão no ombro do rapaz. Velhos hábitos são difíceis de esquecer e o rapaz ao sentir o toque de Reymond fica meio desajeitado. - Mas é difícil! Antes tudo o que tínhamos que fazer era seguir os ensinamentos da Ordem e tudo ficaria bem. Mas agora já não sei se quero que tudo fique bem. – olhando para o chão. – Bem não é a palavra certa meu amigo. Agora você não quer que tudo fique igual. – sorrindo. - Exato. Mas como poderemos mudar séculos de doutrina e repressão? – meio desanimado. Reymond olha para o garoto e sorrindo começa a cantarolar Blowin' In The Wind de Bob Dylan. Quantas estradas precisará um homem andar Antes que possam chamá-lo de um homem? Sim e quantos mares precisará uma pomba branca sobrevoar Antes que ela possa dormir na areia? Sim e quantas vezes precisará balas de canhão voar Até serem para sempre abandonadas? A resposta meu amigo está soprando no vento A resposta está soprando no vento... O garoto fica fascinado com a letra da música e apenas sorri. Reymond ainda com os olhos brilhando continua. - Com persistência. Ninguém disse que seria fácil. Algumas vezes na vida é melhor pedir perdão do quer permissão. O que não podemos fazer é desanimar. – extremamente animado. – Vou te contar uma história. “Existia uma banda, em minha opinião, uma das maiores bandas de todos os tempos, que nunca desistiu. O conhecimento musical deles não era muito grande. Faziam músicas curtas e rápidas. Três acordes, letras que falavam sobre conflitos adolescentes e muita mais muita energia. Ouvi-los era como levar um soco na boca do estômago. Era impossível ficar parado. Em quatro de julho de 1976 eles fizeram um show em Londres para umas trezentas pessoas, um público pequeno. Mas depois de os verem tocando, dali saíram umas vinte bandas entre elas The Clash e Sex Pistols, expoentes do Punk Rock. Depois deles, se você perguntasse para dez bandas suas influências, doze responderiam RAMONES. E, no entanto em sua época nunca tiveram o reconhecimento merecido e mesmo assim nunca desistiram. O importante é o legado que eles deixaram.” O garoto olhava para Rey com os olhos brilhando. - Você esta certo Rey, devemos lutar por nossos sonhos! E muitos pensam como nós. Várias pessoas estão escrevendo poesias, fazendo retratos, compondo músicas, estão tentando se expressar. - Excelente! Só que isto não é visto com bons olhos pelos sensores da Ordem. Teremos que fazer alguma coisa em relação a isto. – pensativo. O garoto meio encabulado fala. - Eu tenho uma coisa para lhe contar. Nós já fizemos. Estive conversando com alguns garotos e tivemos uma idéia. No prédio onde fica o laboratório do professor existe um porão que não é utilizado. Nos reunimos, arrumamos o lugar e estamos nos encontrando escondidos para trocarmos idéias, ouvirmos músicas, ler poesias entre outras coisas. Um local onde a liberdade reina, e a cada dia mais e mais pessoas aparecem. Reymond fica eufórico. - Legal! Eu quero conhecer esse lugar, vamos lá! Caminham durante alguns minutos e logo estão diante de uma porta de metal. O rapaz que estava com Reymond bate duas vezes na porta e aguarda. Uma pequenina portinhola na parte superior da porta se abre e dois olhos desconfiados ficam amostra. Então se ouve uma voz muita séria. - Qual é a senha? O rapaz olha meio encabulado para Reymond e com um sorriso amarelo responde. - Rey Roll! E Reymond sorrindo completa. - Rock and Roll! Ao entrarem, Reymond a princípio, não consegue enxergar muito bem, já que o lugar é pouco iluminado. Após se acostumar com a penumbra Rey percebe que é um lugar muito grande com vários ambientes e em cada um deles muitos jovens. Alguns lêem poesias, outros pintam ou apreciam quadros, outros conversam animadamente, em resumo um lugar dedicado as artes. Decorando as paredes retratos de músicos, artistas de cinema, escritores, pintores, personalidades histórias com Malcon X, Che Guevara e ao fundo um palco grande onde Zappa discotecava clássicos do rock. O rapaz que acompanhava Reymond olha para ele ansioso e pergunta. - Então Reymond o que você achou? - Fantástico! Simplesmente maravilhoso! Como vocês chamam o lugar? - Não sei! Não demos nome. - Mas deviam! Vocês estão fazendo história! Temos que concertar isso. Como é o nome dos idealizadores dessa maravilha? - Eu Cristofer, Bertold, Gabidon, Bertran. Reymond fica parado pensando durante alguns segundos e então como se tivesse um estalo fala sorrindo. - Como eu não pensei nisso antes! Perfeito, o nome não poderia ser outro, será CBGB. O rapaz olha intrigado para ele. - CBGB? - O CBGB era um clube que ficou conhecido como o berço do Punk Rock, lá tocaram bandas como Ramones, Blondie, Television, Patti Smith entre muitas outras. Um lugar dedicado a diversidade cultural em geral, contra os preconceitos e imposições vigentes na época o que nos vem muito a calhar nos dias de hoje. - Certo Rey! Só mais uma coisinha. Se não fosse pedir muito nós gostaríamos que você tocasse algo para nós? – com um olhar suplicante. - Claro será um prazer! Reymond se dirige para o palco e fala com Zappa. Alguns minutos após diante de uma platéia ávida estão Reymond Rolland e os Garotos Prateados. Olhando para seu público Rey fala. - Olá. Hoje é um dia muito especial para mim e com certeza para vocês também. Estamos mudando a história, criando NOSSO destino, fazendo as NOSSAS escolhas. E por isso vamos PULAR. E começa a tocar Blitzkrieg Bop do Ramones. Hey, ho! Vamos lá! Hey, ho! Vamos lá! Hey, ho! Vamos lá! Hey, ho! Vamos lá! Eles estão formando em uma linha reta Eles estão indo junto com um vento forte Os garotos estão perdendo suas mentes O Ataque Relâmpago... Lua Ruim Nascendo Revolução é a ruptura brusca do sistema vigente em um curto espaço de tempo com a formação de uma nova liderança e uma visão diferente de mundo. O que causa grandes conflitos, pois quem detém o poder não vê com bons olhos o fato de perder o controle. E toda mudança brusca vem acompanhada de violência. Isso pode acontecer seja em nações, pessoas ou sentimentos. Nos meses que se seguiram as aulas do professor passaram a ficar lotadas. Não se falava outra coisa entre os jovens a não ser o tal do rock and roll. O professor mostrou a seus alunos a liberdade e como ela é importante para a humanidade. Como tantas pessoas morrem em sua defesa. Guerras foram travadas em seu nome. Que o homem acima de tudo é livre, livre até mesmo para errar. Mostrou-lhes a filosofia, a pintura, a literatura e por toda a Torre da Vigília viam-se jovens comentando sobre liberdade, escolhas, assoviando canções, lendo poesias. Até mesmo nas colônias o movimento tomava vulto. O que não agradou nada os sensores da Ordem. E logo em suas aulas era normal ser visto um homem com túnica azul escura, parado no fundo da sala. O número de Cavaleiros Oficiais nas ruas dobrou. Mas o professor não se intimidava e seguia sua batalha pela liberdade. E as coisas seguiam relativamente bem. Até que um belo dia um incidente mudou tudo. Depois da tradicional palestra diária do Regente Parkentom um grande grupo de alunos do professor começa a gritar palavras de ordem como liberdade, amor fraternidade. As pessoas ao redor ficam paralisadas sem saber o que fazer, já que aquele era um comportamento totalmente inaceitável. Os jovens cada vez mais animados começam a cantar em uníssono, All You Need is Love dos Beatlles. Amor, amor, amor Amor, amor, amor Amor, amor, amor Não há nada que você possa fazer que não possa ser feito Nada que você possa cantar Qque não possa ser cantado Nada que você possa dizer, Mas você pode aprender como jogar o jogo É fácil Nada que você possa fazer que não se possa fazer Ninguém a quem você possa salvar que não possa ser salvo Nada que você pode fazer, Mas você pode aprender como ser com o tempo É fácil Tudo o que você precisa é de amor Tudo o que você precisa é de amor Tudo o que você precisa é de amor, amor Amor é tudo o que você precisa Amor, amor, amor Amor, amor, amor Amor, amor, amor... O Regente olha furioso para os jovens e com um gesto curto manda que os Cavaleiros Oficiais acabem com a desordem. Imediatamente são cercados. Alguns dos estudantes diante da presença ameaçadora dos Cavaleiros começam a esmorecer. Reymond, que assistia a tudo ali perto, sabia que aquele momento era único, decisivo e que se fraquejassem agora seu tio venceria, a Ordem venceria. Chama por Zappa e procura um lugar mais alto onde todos pudessem vê-los. Rapidamente Zappa se divide nos Garotos Prateados e Reymond parado diante da multidão com sua espada revolucionária, sua guitarra prateada grita. - Chegou à hora! O lugar é este! Estão todos prontos para balançar? – sorrindo. Então começa a tocar Twist and Shout dos Beatles a pleno pulmões. Bem, dance agora baby (dance agora) Gire e grite (gire e grite) Vamos, vamos, vamos, vamos lá baby (vamos lá baby) Vamos lá, vamos dar certo juntos (vamos lá, vamos dar certo juntos) Bem, vamos dar certo juntos, amor (Vamos dar certo juntos) Você sabe que está tão bonita (Está tão bonita) Você sabe que você me tem agora (me tem) Assim como eu sabia que o faria (como eu sabia que o faria)... Os jovens começam a gritar pular bater palmas alucinados. Os Cavaleiros vendo aquilo se assustam e começam a se afastar. Reymond percebendo, canta ainda mais forte e ao chegar ao refrão da musica a multidão grita pula dança alucinada. Quando parecia que haviam vencido os Cavaleiros começam a atirar um gás na multidão que os fazia se acalmar. Reymond olha para Zappa. - O que esta acontecendo? O que é isso? – olhando para Zappa. - Era usado antigamente para conter revoltas, mas há séculos não é utilizado. É uma mistura de compostos químicos com base no 9-tetrahidrocannabinol o THC. - THC, cannabis? – sorrindo. - Me acompanhe! Começa a tocar I Shot The Sheriff de Bob Marley. Zappa se transforma e descendo de sua cabeça surgem enormes dreads looks prateados enquanto ele dança e balança alucinado. A multidão embalada pela guitarra reggae e o aroma peculiar volta a dançar e cantar. Eu atirei no xerife, mas não atirei no deputado. Eu atirei no xerife, mas não atirei no deputado. Todos perto de minha cidade natal Eles estão tentando me derrubar Eles dizem, eles querem colocar a culpa em mim Por matar um ajudante do xerife Pela vida do ajudante do xerife... Aquela foi à gota d’água. Os cavaleiros vendo que não conseguiam conter a multidão partiram para ignorância. Agrediam todos que não paravam de dançar, mas para surpresa de Reymond e dos próprios Cavaleiros da Ordem a multidão não se intimidou e lutou pelos seus ideais. Séculos de repressão eram liberados de uma só vez. Uma verdadeira panela de pressão que estourava. Uma batalha começava onde antes reinava a paz a harmonia e a ordem. A revolução havia se iniciado. Várias pessoas foram presas inclusive o seu líder e mentor, Reymond. Ao saber da prisão Galatéa corre para o laboratório do professor desesperada. - E agora professor o que vai acontecer? – em meio às lágrimas que escorriam demonstrando todo seu medo. - Não se preocupe Galatéa. Tudo vai ficar bem! Eu já esperava por isso. Infelizmente aconteceu mais cedo do que eu esperava. Nosso mundo nunca mais será o mesmo menina Galatéa. A revolução começou e não há mais como impedi - lá. – sorrindo enquanto arrumava sua valise. - O que vai acontece com Reymond? Conosco? Comigo? – colocando as mãos no rosto. O homem olha tentando esconder o nervosismo e acalmar a menina. - Nada! Eles só irão fazer algumas perguntas e mais nada! – tentando convencer a si mesmo, mas sabendo que as coisas não seriam fáceis. Neste instante entra na sala dona Bethel Stockwood apressada. - Professor vim logo que soube. Prenderam aquele seu aluno de intercâmbio. Eu sempre o achei muito esquisito desde a primeira vez que o vi. Ele conduziu a juventude a atos de verdadeira barbárie hoje na praça principal. Vários robôs médicos atendem aos feridos, felizmente ninguém morreu. – colocando as mãos no peito. - Porque ele fez isso? O professor olha complacente para a senhora, pois sabia que mudanças sempre causam medo ainda mais as inevitáveis. - Você estava preocupada comigo Bethel? – pela primeira vez na vida chamando-a pelo primeiro nome. – Por quê? A senhora fica sem jeito e olhando para o chão balbucia. - Porque você é meu companheiro. – sem graça. O professor se aproxima da senhora e coloca as mãos em seus ombros. Ela se assusta com a proximidade e o toque do homem. - Reymond veio para nos ensinar a viver novamente minha querida Bethel. Nosso mundo vai mudar, mas não se preocupe sempre estarei ao seu lado. – sorrindo amorosamente. Depois de trinta anos de desejo reprimido agarra a senhor e dá um longo beijo em sua boca. Galatéa reconhecendo o sentimento sorri enquanto as lágrimas escorrem por seus olhos. Ao terminar o professor pega sua valise e sai apressado em direção a sede da Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração. A senhora ainda atordoada com a atitude do professor recuperando o fôlego e com as pernas bambas sorri feliz. De Volta do Luto Como não havia bandidos ou qualquer tipo de desordem, não havia celas ou prisões na Torre da Vigília. Reymond foi colocado em uma sala sem janelas e dois Cavaleiros Oficiais ficaram de guarda na porta. Horas mais tarde o Regente manda chamar Reymond para interrogá-lo. Na sala estão Reymond, Zappa e seis conselheiros da Ordem. - Muito bem meu jovem. Você conseguiu um feito aqui hoje. Confesso que estou impressionado. Essa é primeira vez em séculos que temos uma revolta. O que você tem a nos dizer sobre isso? – ironicamente. - Eu vim chacoalhar seu mundo. – olhando para o homem sorrindo. - Não seja insolente moleque! Quem é você? E como você conhece os Beatles? Reymond fica surpreso com a pergunta. - Como eu conheço os Beatles? Como o senhor os conhece? – olhando intrigado para o homem. - Não sou o Regente Supremo de toda a Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração à toa. Sei tudo o que acontece, aconteceu e acontecerá em meu mundo. Ouviu bem? MEU MUNDO! – batendo a mão direita no peito. - Agora diga logo como você conseguiu essas informações? – ameaçador. - Meu pai me ensinou? – olhando orgulhoso para o homem. – Memphis Rolland. Ao ouvir o nome Rolland o Regente se surpreende. - Sim meu nome é Reymond Rolland sobrinho do traidor e assassino Abbey Rolland mais conhecido por Július o Primeiro. Os homens na sala ficam paralisados. E logo começam a cochichar entre si. -Isso é impossível! – fala o Regente. - Tudo é impossível até acontecer. Quando vocês velhos tolos acreditariam que uma revolução seria possível? E, no entanto ela esta aí, batendo em suas portas. Não há como impedir a liberdade e o amor, um dia eles sempre vencem! É inevitável! A revolução começou! - Não fale tolices garoto! Em nosso mundo perfeito não existem revoluções ou divergências, somente os ensinamentos da Ordem. Chega de brincadeiras diga logo quem é VOCÊ! – o regente gritando. Nesse instante Zappa assume a forma de um punk com o tradicional corte de cabelo moicano e de seu peito sai um enorme alto falante que começa a tocar Anarchy in the UK muito alto e Reymond começa a pular e cantar. Certo! Agora, há, há Eu sou um anticristo Eu sou um anarquista Não sei o que eu quero Mas sei como conseguir Eu quero destruir transeuntes Porque eu quero ser a Anarquia! Os homens na sala ficam horrorizados e mandam que retirem o garoto e o robô que saem cantando e rindo muito. Dois dias se passam sem que nada aconteça. Galatéa já não agüentava mais a angústia de ficar sem saber o que havia acontecido com Reymond. A saudade, sentimento até então desconhecido para moça, aflorou com intensidade esmagadora. - Nós temos que fazer alguma coisa professor! Não podemos ficar aqui parados! – chorando. - Eu sei menina, já venho tomando minhas providências. Não se preocupe a Ordem não fará nada com Reymond pelo menos não ainda, estamos muito próximos das comemorações do primeiro milênio da Ordem. Até lá eles não farão nada, mas temos que nos apressar. Por favor, faça uma coisa para mim... Depois de dois dias angustiantes o professor finalmente consegue ser atendido pelo Regente Parkentom. Na sala estão o Regente e seis conselheiros. O Regente o recebeu extremamente zangado e sem deixar o professor falar foi despejando toda sua ira. - O que o senhor tem ver com esse triste incidente Professor Goldmark? O que pelo amor de Deus o senhor vem colocando nas cabeças de nossos jovens? Jovens agindo como animais se digladiando com nossos Cavaleiros Oficiais! Será que voltamos aos tempos das barbáries, desarmonia, desordem o CAOS? E quem é esse tal de Reymond Rolland? De onde ele veio? Verificamos nossa colônia européia e não consta nada sobre ele. E o pior é que essa revolta medíocre nos últimos dias vem se espalhando por todas as nossas colônias, jovens agindo como animais ao redor do mundo. – olhando como se fosse fuzilar o professor. Um leve sorriso aparece no rosto do professor que pensa: - Muito bem menina Galatéa. O Regente Parkentom e o professor na juventude foram grandes amigos, mas a crescente insistência do professor em defender idéias fora dos ensinamentos da Ordem separou seus caminhos. - Calma Regente Parkentom. Onde esta o rapaz? Ele esta bem? - É claro que ele está bem, não somos animais! Ele esta na sala ao lado! - E meu meta robô? - Aquela aberração! Esta aqui fora. - Chame-o, por favor, e eu explico tudo. Muito irritado manda Zappa entrar. Ele vem gingando e ao passar na frente do Regente fala. - Paz e Amor bicho! – com a mão direita levantada e os dedos fazendo um “v” no ar. O Regente fica extremamente vermelho de raiva. - Zappa pare com isso e venha aqui. Reproduza este arquivo da memória de Reymond. – fala o professor sério. – Mas antes peço que mande todos saírem da sala, por favor, Parkentom. - Não há nada que você possa me mostrar que meus conselheiros não possam ver. Mostre logo o que você tem aí. - zangado. - Por favor, Parkentom. Pela nossa antiga amizade. Por favor. - suplicante. Homem contrariado segue as recomendações e pede para todos saírem. Os conselheiros saem à contra gosto. - Agora Zappa. O robô obedecendo ao professor reproduz os anos anteriores a inauguração da Torre da Vigília e ao terminar, a noite do assassinato dos pais de Reymond. Um silêncio assustador toma conta do lugar. O Regente não querendo acreditar olha para o professor. - Como um garoto pode ter tudo isso na memória? Será verdade? Mas isso é impossível! O professor conta toda a história de Reymond desde que o encontrou até aquele momento. - Isso é um horror Goldmark! Você não podia ter nos escondido isso! Mais alguém além de você e obviamente o rapaz sabem disso? - Não. Claro que não. - Bom! Muito bom! Você tem noção do que essas informações, agora neste momento de crise e falta de fé de nossos jovens, poderia fazer com a Ordem? - Sim. Séculos de mentiras revelados, meu amigo. Nosso Regente Július o Primeiro não passava de um traidor. Mas nós podemos conduzir a transição de maneira gradual e pacífica. Construir uma nova Ordem mais liberal onde a alegria e a liberdade não são pecados. Com a quantidade de informações que coletei de Reymond... É interrompido bruscamente pelo regente. - Cale essa boca Goldmark! Não fale besteiras velho tolo! Você está louco? Você acha que eu não sei disso tudo? Essa é a primeira informação que um Regente recebe ao ser nomeado. Serve para provar sua lealdade a Ordem. Porque você acha que Augusto III considerou herege e mandou destruir todas as informações anteriores a inauguração da Torre? Július fez o que qualquer Regente em sua posição faria. O professor fica de boca aberta estupefato. E o Regente continua. - O povo é conduzido como deve ser e como será por milênios. As pessoas devem ser guiadas. Elas necessitam que lhes digam o que fazer senão o que temos é o caos e a desordem. Não vou permitir que um garoto que deveria ter sido eliminado há mil anos venha nos atrapalhar agora. - Eles são jovens e devem ser orientados e não conduzidos. Não podemos, não mais, castra-lhes o direito sagrado a liberdade, as escolhas. – o professor encolerizado. - Esse garoto do passado deve voltar para onde nunca deveria ter saído. Ele será eliminado assim com essa revolta medíocre e qualquer um que não aceitar minhas ORDENS! Não passamos séculos doutrinando nossos cidadãos para permitir que um garoto destrua tudo o que construímos. - Você quer dizer adestrando seus cidadãos, pois para você eles não passam de animais que devem ser domesticados. - Cada qual com seu destino meu velho amigo. Alguns nascem para comandar e outros para obedecer e pode ter certeza que farei TUDO o que for preciso para manter as coisas na sua maior perfeita ordem. - Você ficou louco! Escute o que você esta falando. É um ser humano! Assassinato de uma criança! – olhando fixamente para o outro. - Exatamente Goldmark. É desse tipo de decisões que poupamos o povo. Nós que estamos no comando devemos muitas vezes fazer o que é preciso para manter a harmonia e a ordem. Essa não é a primeira vez que um Regente tem que tomar uma atitude como essa. O professor começa a ouvir um burburinho que vinha de fora do prédio. - Tenho pena de você meu amigo. – olhando para o Regente penalizado. - Pena! Do que você esta falando? Você é considerado piada em toda a Ordem. Não preciso me preocupar com você, pois mesmo que divulgue estas informações quem acreditaria em um velho louco? – olhando com desdém para o professor. - Tanto poder cegou seus olhos, está bloqueando seus pensamentos. Seu orgulho já não deixa você pensar com clareza. Se você matar Reymond a única coisa que conseguirá é um mártir nas mãos. A revolução é inevitável meu amigo. – sorrindo. O barulho fora do prédio aumenta significativamente. - E você acha que um bando de jovens tolos poderá fazer alguma coisa? – rindo zombeteiramente. - A semente foi plantada e germinou meu amigo. Não há mais como impedi-la. Como um jovem um dia me disse as coisas mudam, elas sempre mudam. – sorrindo. Neste instante a porta abre violentamente e entra um dos conselheiros extremamente agitado. - O que significa isso! Será que todos ficaram loucos? – o Regente em pé com os braços levantados. - Desculpe Regente. – fazendo uma leve reverência. – Mas o senhor tem que ver isso! O Regente e o professor seguem o homem apressado até a enorme sacada onde podem ver toda a praça principal da Torre da Vigília. Lá embaixo milhares de jovens batem palmas e gritam. Parada em frente à multidão Galatéa, como um maestro diante de sua orquestra. Ao ver o Regente na sacada a menina levanta os braços pedindo para que todos façam silêncio. Olhando para ele, que esta perplexo, fala. - Uma nova ordem esta surgindo. O amor e a liberdade devem prevalecer. Chega de proibições, da fé cega, do crer pelo crer. Uma nova era de luz se aproxima. NÓS VAMOS SACUDIR VOCÊS! Neste exato momento a multidão começa a bater os pés e as mãos em um ritmo cadenciado e em uníssono começam a cantar We Will Rock You do Queen. Amigo, você é um garoto que faz um barulhão Tocando na rua, vai ser um grande homem algum dia. Você tem lama no seu rosto, Sua grande desgraça. Chutando sua lata por todo lugar, Cantando Nós vamos nós vamos sacudir você! Nós vamos nós vamos sacudir você! Amigo, você é cara jovem, cara difícil Gritando na rua, vai enfrentar o mundo algum dia. Você tem sangue no seu rosto, Sua grande desgraça. Agitando sua bandeira por todo lugar, Nós vamos nós vamos sacudir você! Cante... O Regente agora esta apavorado e balbucia com dificuldade. - O que significa isso? Que ousadia é essa? De onde veio toda essa gente? Cavaleiros façam alguma coisa! – ordena. - De todas as colônias ao redor do mundo Parkentom. Não há mais o que fazer, a mudança é inevitável! – o professor olhando para o homem horrorizado. E a multidão continua cada vez mais alto. E mais enfurecida. Agora gritando palavras de ordem e em seguida a plenos pulmões. Libertem Reymod Rolland, Reymond Rolland, Reymond Rolland, Rey Roll, Rey Roll Rey Roll, Rey Roll, Rey Roll, Rock and roll, Rey Roll, Rock and Roll... Zappa sobe na sacada e incita a multidão com as mãos para cima e com os dedos em forma de chifre. O regente olha assustado para a turba. O professor sorrindo com os olhos marejados fala. - É a revolução meu amigo se você não libertá-lo terá uma rebelião em suas mãos e você não tem Cavaleiros Oficiais suficientes para deter toda essa multidão. Os tempos mudaram. A liberdade cobra seu quinhão. E quem não a acompanhar será atropelado pelos acontecimentos. - Jamais! Não vou me submeter a um bando de... A multidão enfurecida ataca os Cavaleiros que protegiam a entrada da Torre e estão prestes a invadir o prédio. Aparece o chefe dos cavaleiros Oficiais na sacada muito assustado. - Senhor não poderemos segurá-los por muito mais tempo! É melhor o senhor sair daqui! O senhor TEM QUE FUGIR! - FAÇAM ALGUMA COISA! SOLTEM O GAROTO! SOLTEM O GAROTO! – a multidão invade a Torre no mesmo instante em que o regente sai correndo. - Sábia decisão meu amigo. – o professor sorrindo. Em poucos instantes Reymond esta parado na sacada diante da multidão que vai ao delírio ao vê-lo e grita ainda mais alto. REY ROLL, REY ROLL, REY ROLL. Que Reymond completa. ROCK and ROLL! – com a mão direita esticada com os dedos em forma de chifre. Olhando para cima Galatéa manda beijos para seu amado e chora de alegria. Ao seu lado dona Bethel Stockwood, com o rosto corado, acenando para o professor. Reymond chama Zappa e cochicha algo em seu ouvido. O robô sorri e se divide e logo diante da multidão estão Reymond Rolland e os Garotos Prateados sendo que um deles vestindo um terninho, boné e bermuda até o joelho todo prateado. Reymond pega o recém surgido microfone e fala. - Hoje é o começo de uma nova era, uma vida cheia de realizações liberdade e amor. O mundo agora é nosso. Viva o ROCK and ROLL! A multidão vai ao delírio gritando e pulando. - Então vamos lá, porque EU ESTOU DE VOLTA! Começa a tocar Back in Black do AC/DC. De volta do luto, eu peguei as malas Estive longe por muito tempo, estou contente por voltar Sim, eu estou me libertando do nó corrediço Que me manteve pendurado até agora Continuo olhando para o céu, pois isto está me animando Esqueça o carro fúnebre porque nunca morrerei Tenho nove vidas, olhos de gato Maltratando cada uma delas e correndo selvagemente Porque eu estou de volta, sim, eu estou de volta Bem, eu estou de volta, sim, eu estou de volta Eu estou de volta, estou de volta Eu estou de volta do luto Sim, eu estou de volta do luto De volta num banco de trás de um Cadillac Número um com uma bala, sou um pacote de poder Sim, eu estou numa peleja com a banda Eles terão que me pegar se quiserem me pendurar Porque eu estou de volta na trilha, estou combatendo o fogo aéreo Ninguém vai me pegar em outra armadilha Então olhe para mim agora, estou apenas fazendo meu jogo Não tente forçar sua sorte, simplesmente saia do meu caminho Fim VIDA LONGA AO ROCK’N’ROLL