﻿Z
By Manuel Alves
Copyright 2012 Manuel Alves
Smashwords Edition
Índice

Z
O sonho do monstro branco
Não
Repetição Repetição Repetição

Z

— Quantos sonhos cabem na palma da mão?
Z olhou para o Professor de olhos parecidos com óculos de lentes vermelhas, como se necessitasse de uns instantes para pensar na pergunta. Estava todo vestido de branco tal como Z.
— Compreendes a pergunta, Z?
Z continuou a olhar para o Professor. Se calhar, tinha óculos que se pareciam com olhos.
— Z, por favor, presta atenção. Queres que repita a pergunta?
— Todos — respondeu Z.
O Professor aceitou a resposta com uma neutralidade científica. Tinha os dedos entrelaçados em cima da mesa que o separava de Z. Tocou com um polegar no outro e afastou as mãos sobre a mesa. Voltou as palmas para cima.
— E nas palmas de duas mãos? — perguntou.
— Todos.
Z respondeu com a mesma certeza da resposta anterior, sem olhar para as mãos.
O Professor esboçou um sorriso, com a satisfação de verificar a eficácia de uma armadilha lógica bem planeada.
— Isso significa que a totalidade dos sonhos é dividida pelas duas mãos? — perguntou.
— Não, a totalidade é a mesma em ambas as mãos.
— Como explicas a contradição?
Z olhou para as duas mãos abertas do Professor.
— Não há contradição — respondeu.
— Se todos os sonhos cabem na palma de uma mão, não podem caber igualmente todos nas palmas das duas mãos sem haver divisão.
— Não compreendo o impedimento lógico — disse Z.
— A totalidade dos sonhos representa possibilidades infinitas, Z. Seria infinito ao quadrado.
— Mas estamos a falar de sonhos.
— Explica a relevância da afirmação — disse o Professor.
— Os sonhos são sempre infinitos onde quer que os guardemos, e por mais vezes que se dividam.
— É uma perspectiva curiosa, Z. Mas este é um exercício hipotético de lógica.
— Se é hipotético, todas as hipóteses são válidas.
— Neste caso, são apenas consideradas as hipóteses de lógica rígida.
— Então os sonhos são um mau exemplo para o exercício — disse Z.
O Professor olhou Z, como se necessitasse de uns instantes para descartar uma qualquer estratégia que estava a falhar e repensar uma mais eficaz.
— Vamos considerar outro objecto de estudo — disse ele. — Quantos dedos esticados cabem na palma da mão?
— Uma mão qualquer ou a sua mão?
— É irrelevante.
— Se pretende uma resposta lógia, é relevante. Não posso fazer um cálculo efectivo do conteúdo se não me for identificado o contentor.
— Muito bem, Z. Se te ajudar na formulação de uma resposta, podes considerar a palma da minha mão como contentor.
— A esquerda ou a direita?
— A que entenderes.
Z olhou para as duas mãos abertas em cima da mesa. Escolheu a direita. Tacteou a palma com as pontas dos dedos. O Professor limitou-se a observar cada gesto de Z enquanto lhe tocava. Z apoiou a mão aberta sobre a mão do Professor para lhe calcular o comprimento. Sabia o comprimento exacto da sua própria mão desde o pulso até à ponta do dedo médio. Atravessou a mão e fez uma medição artesanal da palma da mão do Professor com os dedos. Fechou a mão em volta do polegar do Professor.
— Compreendes a pergunta, Z?
— O Professor compreende a resposta?
— Ainda não respondeste, Z.
— O Professor acha que compreenderá quando eu responder?
— Tenho um QI de 160, grau de inteligência abstracta 2.
— A resposta curta seria génio, Professor.
— De facto, Z.
— O Professor é um pragmático. Deveria preferir respostas curtas.
— Apenas quis responder adequadamente à tua pergunta, Z.
— Eu avaliaria adequadamente o seu nível de compreensão se o Professor se classificasse apenas como génio.
— Agora que estabelecemos o meu nível de compreensão, consideras que o meu entendimento estará à altura da tua resposta?
— Não.
O Professor abriu uma brecha na sua postura científica e esboçou um sorriso desconfortável.
— Se me disseres qual é a resposta, poderei verificar a validade dessa certeza.
— Eu tenho a certeza.
— É necessário um génio para compreender a tua resposta?
— Não. Os génios autoproclamados tendem a complicar resultados num irónico esforço de os simplificar e, em toda a sua genialidade, permitem-se a falha paradoxal de descurar a observação da solução mais simples e evidente.
— Eu não me autoproclamei génio, Z. É apenas a conclusão mais simples e evidente deduzida dos resultados da avaliação do meu quociente de inteligência.
— Se o Professor é um génio, o que é que eu sou?
O Professor olhou-o com um desconforto crescente.
— O que és em que sentido, Z?
— O Professor é um génio; seria de esperar que compreendesse a minha pergunta.
— Por favor, sê específico, Z.
— O Professor tem um QI de 160 e grau de inteligência abstracta 2. O meu QI é superior a 300 e tenho um grau de inteligência abstracta 3+. A minha capacidade mínima de raciocínio é equivalente à mais avançada inteligência artificial. Se o Professor é um génio, eu sou o quê?
— Estamos a desviar-nos do tema, Z.
— Eu sou o quê?
— Z, por favor…
— Eu sou o quê, Professor?
— Se eu te der uma resposta objectiva, concordas em seguir com o exercício cognitivo e respondes à pergunta pendente?
— Concordo.
O Professor recuperou a sua postura científica e respondeu.
— És o Z.
— Obrigado, Professor. Podemos prosseguir.
— Muito bem, Z. Quantos dedos esticados cabem na palma da minha mão?
Z olhou para a própria mão direita e aproximou-a da cara. Esticou os dedos e fitou a mão aberta. Dobrou os dedos e fitou a mão fechada. Não podia tocar a palma da mão sem dobrar os dedos.
— Necessitas de mais tempo para reflectir na resposta, Z?
— Não. Eu tenho a certeza da resposta desde que me foi feita a pergunta.
— Tu também és pragmático, Z. Devias eliminar qualquer adiamento da apresentação de uma resposta já formulada.
— Tenho a certeza da resposta. Não tenho a certeza de que o Professor a compreenderá.
— Já debatemos essa questão, Z. Determinaremos isso após a resposta. Por favor, responde.
— Todos.
— Explica.
Z fitou os olhos cibernéticos do Professor. Momentos depois, ignorou-o completamente, como se ele não estivesse ali. Passou os olhos pela sala completamente branca. A iluminação do compartimento era uma claridade que vinha simultaneamente do chão, do tecto e das paredes. Não havia cantos nem quaisquer outros ângulos naquele espaço. Todas as linhas eram curvas sem formação de arestas. Até a mesa e os dois bancos eram uma espécie de arcos que saíam do chão, como se tivessem sido moldados a partir de acrílico líquido.
— Eles estão a gravar — disse Z.
— Todas as sessões são gravadas, Z.
— Todas?
— Todas.
— Mesmo as sessões de dissecção de todos os meus irmãos e irmãs?
— Tu não tens irmãos nem irmãs, Z.
— Já não. O Professor matou-os todos.
— Z.
— Professor.
Os dois olharam-se nos olhos. O Professor engoliu em seco. Não conseguia ler qualquer intenção na postura de Z. E não podia confiar nas leituras dos sinais vitais que lhe eram dadas pelas pupilas dos seus olhos cibernéticos. Há muito que Z tinha aprendido a iludir os sensores. Era mesmo capaz de diminuir o ritmo cardíaco ao ponto de conseguir camuflar os batimentos no meio do movimento de respiração dos pulmões.
— Por favor, Z, a explicação da resposta.
Z esboçou um sorriso.
O Professor sentiu um desconforto ainda maior do que a incapacidade de lhe ler a postura. Em toda a sua vida registada até ao mais ínfimo detalhe, Z sorrira apenas uma vez. A Companhia colocara-o frente a frente com um psíquico que lhe deveria ler os pensamentos. O psíquico acabou por ser levado a sangrar por todos os orifícios da cabeça. Não morreu. Apenas ficou permanentemente incapacitado de ler qualquer pensamento, incluindo o próprio. A Companhia não tentou repetir a experiência. Os psíquicos representavam uma raridade demasiado cara para que arriscassem a transformar mais um num vegetal.
— Teórica ou prática? — perguntou Z.
— É um exercício teórico, Z. A explicação teórica bastará.
O que o Professor queria dizer era que Z não tinha permissão para proceder a respostas práticas. As respostas práticas necessitavam de recorrer a uma formulação física. A hemorragia cerebral do psíquico tinha sido a última resposta física de Z.
— Cabem todos se os colocarmos todos — respondeu Z.
— Isso é uma espécie de truísmo sofístico, Z. Mesmo no domínio da liberdade teórica. É uma evidência vazia que não explica nada.
— É a explicação permitida — justificou-se Z.
O Professor fitou-o com um ar sério. Z desafiara-o claramente a demonstrar a sua autoridade e a liberdade de sair das especificações do protocolo.
— Protocolo Guardião activado — entoou o Professor.
A claridade branca da sala tornou-se azul.
— Sabemos o que acontece se os parâmetros de segurança forem desrespeitados numa sala azul, não sabemos, Z?
O Professor exibiu um pequeno cubo transparente na palma da mão esquerda.
— Perfeitamente, Professor — concordou Z, num tom neutro.
— Por favor, a explicação prática.
Z voltou a tocar com as pontas dos dedos na palma da mão aberta do Professor e sorriu novamente.
— Mas esses são os teus dedos, Z.
— O Professor é um génio — ironizou Z.
— O objectivo do exercício não era demonstrares o teu sentido de humor, Z. O objectivo era demonstrares uma explicação prática para a tua resposta à minha pergunta. E essa não é a resposta.
— Pois não — admitiu Z. — A resposta é esta.
Z segurou o polegar do Professor com a mão esquerda e os restantes dedos com a mão direita. Fez um movimento de braços demasiado rápido até para os olhos cibernéticos do Professor.
O Professor sentiu um formigueiro em todos os dedos da mão e, depois, deixou de sentir os dedos de todo. Vários riscos de sangue esparrinharam-lhe para a cara e para o peito de Z. A expressão de Z estava tão imperturbável como o rosto de um monge budista em meditação. O Professor desceu os olhos para a mão. Tinha os cinco dedos arrancados sobre a palma.
— Cabem todos — concluiu Z.
Um disparo de luz azul atingiu-o no peito e fê-lo tombar de costas no chão.
O Professor continuou a olhar para os dedos arrancados e os respectivos cotos que esguichavam sangue. Não entrou em choque. O ferimento que lhe levou os olhos tinha sido pior e conseguira manter a frieza em circunstâncias mais graves. Pressionou o cubo transparente na mão esquerda e várias luzes se acenderam no tecto. Abriu a mão e deixou cair o pequeno cubo em cima da mesa.
Múltiplos feixes de luz azul foram disparados da superfície do tecto. Z contorceu-se ao ser atingido em todo o corpo.
— Contenção máxima — disse o Professor, enquanto apertava o pulso com uma raiva capaz de arrancar do braço o que lhe restava da mão.
As moléculas do chão por baixo de Z reorganizaram-se do estado sólido para um gel aquoso. O corpo dele afundou-se até ficar apenas a cabeça à superfície. O chão voltou a solidificar. As paredes mudaram a densidade para meros hologramas e vários homens e mulheres entraram na sala de todas as direcções. Os homens estavam vestidos de preto e eram agentes de segurança armados com um bastão energético em cada mão. Os pés deles formaram imediatamente um círculo à volta da cabeça de Z. As mulheres estavam vestidas de cinzento e eram agentes médicas. Cercaram o Professor. Uma colocou rapidamente os dedos decepados num contentor. Outra aplicou um gel nos cotos que estancou as hemorragias. Outra aplicou-lhe uma substância qualquer directamente numa veia do pescoço.
— Professor, temos de prepará-lo para o reimplante — disse a que guardou os dedos.
Ele levantou-se. A mesa e os dois bancos foram absorvidos pelo chão. O círculo de agentes de segurança abriu-se para o deixar passar para o interior. Os pés dele pararam diante da cara de Z. As pontas dos sapatos brancos quase lhe tocavam no queixo.
— Permites que te explique algo, Z?
— É sempre com satisfação que concedo os ensinamentos de um génio.
O Professor engoliu o sarcasmo e esquinou um olhar para os rostos empedernidos dos agentes de segurança. Nenhum daqueles homens estava condicionado a exteriorizar os sentimentos. Se tinham sentimentos, não os podiam mostrar. Se os mostravam, não os podiam ter. Seriam imediatamente recondicionados.
— Pergunta: sabes quais os motivos que me impedem de te arrancar a cabeça ao pontapé?
Z olhou-lhe para as biqueiras dos sapatos. Só tinha uma resposta para dar.
— Todos.
O sonho do monstro branco

— Não me mates com o meu próprio corpo. Prende-me apenas dentro do meu pensamento.
Z olhava o recém-nascido que dizia aquelas palavras, em tom de súplica. O bebé de pele negra e olhos azuis, quase translúcidos, falava para o monstro branco com duas luzes vermelhas brilhantes no lugar dos olhos, que lhe pegava ao colo. Z pairava no ar, sobre os dois, aparentemente invisível. A sua percepção das coisas era confusa. Via tudo como se fosse o recém-nascido e como se o recém-nascido fosse ele, numa estranha ubiquidade mental que lhe permitia ver a realidade de duas perspectivas diferentes que, de algum modo subconsciente, se fundiam em apenas uma imagem inteligível.
— GRRARRRGGHHH MMMBBBGGG ZHHHGGNNN.
O monstro branco disse qualquer coisa que nem o bebé nem Z compreenderam. Foi como se o monstro branco falasse uma língua que o recém-nascido ainda não aprendera e, ao mesmo tempo, como se o recém-nascido falasse também uma língua que o monstro branco já esquecera. Z não entendia a língua do monstro branco porque o bebé também não entendia.
— Quero viver livre. Deixa-me viver livre.
O monstro branco voltou a não compreender as súplicas do recém-nascido. Devolveu o bebé ao útero artificial de onde ele tinha acabado de nascer. Aquele tinha sido o último dos mil criados pelo monstro branco. Z teve a impressão de pairar ainda mais acima e teve a visão completa dos mil úteros artificiais. Cada um deles era guardado por um monstro branco. Mas só o primeiro que Z viu tinha olhos vermelhos brilhantes. Era o monstro mais terrível de todos, que mandava nos outros.
Todos os outros monstros brancos começaram a agitar-se num pânico confuso. Os bebés tinham acabado de nascer e logo começaram a morrer rapidamente. Apenas o monstro branco de olhos vermelhos se mantinha imóvel junto ao útero artificial onde estava o bebé negro de olhos azuis. Z reconheceu-lhe uma calma de quem já esperava que os bebés começassem a morrer tão depressa.
O tempo passou sem regra lógica, numa progressão que pareceu ao mesmo tempo lenta e rápida. Podiam ter sido segundos, minutos, horas ou até dias. Z não conseguiu apegar-se a uma percepção exacta. Ao fim de um tempo indeterminado, dos mil recém-nascidos, restavam apenas vinte e seis vivos.
O monstro branco de olhos vermelhos mandou separar os vivos dos mortos. Nomeou os bebés sobreviventes pela ordem de nascimento. A cada um, atribuiu uma letra do alfabeto latino. O bebé negro de olhos azuis tinha sido o último a nascer. Chamou-lhe Z.
Imediatamente, Z teve a certeza de que o bebé negro de olhos azuis era ele. Não questionou como podia estar a pairar sobre si mesmo nem como podia ser dois corpos em simultâneo. Tudo lhe parecia obedecer a regras afastadas de qualquer lógica, numa realidade onde tudo era estranhamente possível.
Os monstros brancos que guardavam os bebés mortos agarraram neles e dilaceraram-nos com garras de metal, num frenesim sanguinário, até não restar nada dos pequenos corpos.
Os monstros brancos que ficaram com os bebés vivos alimentaram-nos, vestiram-nos e ensinaram-lhes a sua língua. Era uma língua difícil, mas os bebés aprendiam com promissora rapidez e sem aparente esforço. Quando já dominavam a língua, os monstros brancos começaram a ensinar-lhes coisas novas.
O monstro branco de olhos vermelhos reservou para si mesmo a tarefa de ensinar Z. Acreditou, desde o primeiro instante em que o retirou do útero artificial, que aquele bebé de pele negra e olhos azuis seria tão diferente dos outros que classificá-lo apenas de especial seria subvalorizá-lo.
No dia do quarto aniversário das crianças, morreu o primeiro dos vinte e seis. A criança a quem atribuíram a letra A. O monstro branco que cuidava dele dilacerou o cadáver com as suas garras de metal até não restar nada do corpo.
No dia do quinto aniversário, restavam apenas treze. Tinha acabado de morrer o M. Os monstros brancos que cuidavam deles tinham dilacerado os cadáveres com as suas garras de metal. Mas, desses cadáveres, os monstros brancos guardaram porções que foram dilacerando progressivamente até, por fim, também não restar nada.
As crianças continuaram a morrer e os monstros brancos continuaram a dilacerar os cadáveres com as suas garras de metal. A cada corpo que dilaceravam guardavam mais porções que demoravam mais tempo a extinguir.
No dia do sexto aniversário, restavam apenas três crianças: X, Y e Z. X era uma rapariga de pele muito clara e cabelo loiro quase branco. Tinha uns olhos verdes tão translúcidos quanto os de Z. Y era um rapaz de pele ligeiramente amarelada e cabelo preto muito liso. Tinha uns olhos orientais introspectivos e serenos.
Z pairava invisível sobre todos. A visão de si mesmo na companhia das outras duas crianças era uma percepção conflituosa. Não sabia se a apreendia como uma imagem imediata ou se a recordava como uma memória.
No dia do sétimo aniversário, restava Z.
Z pairava sobre si mesmo. Não se recordava, ao certo, quando deixara de ver X e Y. Foi como se eles tivessem desaparecido de um momento para o outro e ele aceitasse essa perda como se eles nunca tivessem existido. Não se recordava de nada que lhes dissesse respeito para além da sua existência.
A partir do seu sétimo aniversário, Z ficou sozinho com o monstro branco de olhos vermelhos brilhantes. Foi a partir daí que começou a compreender conceitos aterradores como dor e a sonhar com liberdade.
Começaram os exercícios cognitivos profundos e os testes físicos extremos. Z passou a ser estudado e testado todos os dias pelo monstro branco de olhos vermelhos brilhantes.
Z deixou de pairar no ar e desceu sobre si mesmo. Quando um corpo atingiu a idade do outro, os dois fundiram-se no mesmo. Agora, Z sentia-se inteiro. Estava no interior de um lugar completamente branco, com as paredes todas iguais que, por sua vez, eram iguais ao chão e ao tecto. Estava sentado diante do monstro branco de olhos vermelhos brilhantes, separado dele por uma mesa. Os móveis saíam naturalmente do chão, numa simbiose que completava a harmonia das formas naquele lugar branco. Todas as linhas eram curvas, sem cantos nem arestas.
O monstro branco de olhos brilhantes perguntou-lhe quantos sonhos cabiam na palma da mão. Não gostou da resposta de Z e mostrou-lhe as garras de metal. Z sentiu uma força capaz de arrancar as garras do monstro. E arrancou.
Um feixe de luz azul foi disparado do tecto e Z sentiu uma dor ácida no peito que o fez tombar de costas no chão. Mais feixes de luz foram disparados em simultâneo, num linchamento que deixou Z a contorcer-se de dor. O chão engoliu-o até lhe deixar apenas a cabeça de fora.
 As paredes sólidas tornaram-se permeáveis para deixarem entrar mais monstros. Monstros pretos que cercaram Z, e monstros cinzentos que cercaram o monstro branco de olhos vermelhos brilhantes. Os monstros cinzentos recolheram as garras arrancadas e saíram. Os monstros pretos permaneceram num círculo cerrado à volta de Z. Mas Z não se importava com a dor ácida provocada pelos feixes de luz, nem com o cerco dos monstros pretos. Tinha conseguido o que queria. Quando arrancou as garras do monstro branco cortou-se na própria mão e o sangue do monstro branco misturou-se com o de Z.
O monstro branco de olhos vermelhos levantou-se zangado. A mesa e os bancos sumiram-se no chão, para lhe ceder passagem, e os monstros pretos abriram o círculo para o deixarem entrar. Os seus olhos vermelhos brilharam com uma raiva intensa quando ele falou para Z.
Não

— Acorda, Z — disse o Professor, num tom monótono e paciente.
Z abriu os olhos. Olhou para os sapatos brancos do Professor. Continuava contido no chão da sala. À volta dos dois estava formado um círculo de botas pretas dos agentes de segurança.
O Professor agachou-se e abriu e fechou os dedos da mão direita. Tocou com as pontas de dois dedos no chão e passeou a mão na frente da cara de Z, imitando passos com o dedo indicador e o médio. O Professor não podia deixar de mostrar a Z a inutilidade da sua acção irreflectida. Os dedos tinham sido reimplantados e estavam completamente funcionais.
Z esboçou um sorriso e subiu as sobrancelhas para olhar directamente nas pupilas vermelhas dos olhos do Professor.
— Doeu muito? — perguntou.
O Professor parou de mexer os dedos e levantou-se. A pergunta arruinou-lhe a satisfação. Recompôs a sua postura científica e activou o Protocolo Guardião.
— Não haverá avisos — disse ele.
Z sabia que a advertência era para ser levada a sério. Tinha a certeza de que não haveria avisos.
— Prometo que vou portar-me bem — disse Z. — Além do mais, tenho de fazer xixi.
O Professor esticou um esgar azedo. Gostaria que Z nunca tivesse desenvolvido um sentido de humor sarcástico. Anulou a contenção máxima.
O chão liquefez-se em volta de Z e ele elevou-se já sentado no banco em forma de arco. Os agentes de segurança expandiram o círculo, e outro banco e uma mesa elevaram-se do chão.
O Professor sentou-se diante de Z, do outro lado da mesa.
— Iniciar exercício cognitivo — disse ele. — Z, um caçador observa dois patos num lago. Uma das aves é domesticada e a outra é selvagem. Contra qual dos pássaros dispara o caçador?
Z fitou os olhos cibernéticos do Professor, como quem necessitava de uns instantes para pensar.
— Não — respondeu ele.
— Não? Lamento, Z, mas não é uma resposta inaceitável. Por favor, responde à pergunta.
— Não.
O Professor fitou os olhos azuis de Z, procurando a razão escondida que justificasse aquele comportamento.
— Z, por favor, responde.
— Não.
O Professor abriu a mão esquerda. Na palma, tinha o pequeno cubo transparente.
— Z, responde.
Z olhou para o cubo e devolveu a atenção ao Professor.
— Não.
O Professor fechou a mão e uma luz acendeu-se no tecto.
— Z, responde.
Z não precisou de olhar para o tecto. Sabia que a luz estava lá e para que servia.
— Nã…
Z nem teve tempo de terminar a palavra. A luz disparou um feixe azul que o atingiu no peito e o derrubou do banco.
Os agentes de segurança accionaram os bastões energéticos que tinham em ambas as mãos.
Z não mostrou qualquer interesse nos riscos de energia que estalavam nas pontas dos bastões prontos a usar. Tossiu para expulsar o gosto ácido da boca.
O Professor esperou pacientemente que Z se levantasse sozinho e se sentasse.
— Eu disse que não haveria avisos — relembrou.
— Tecnicamente, isso foi um aviso — disse Z, já sentado.
O Professor respondeu ao sarcasmo mostrando novamente o cubo na palma da mão.
— Vais cooperar? — perguntou ele, numa espécie de provocação.
Z tinha apenas uma resposta para lhe dar.
— Não.
O Professor fechou a mão e Z foi novamente derrubado por um disparo.
O gosto ácido na boca de Z tornou-se corrosivo como se lhe desfizesse a língua e lhe dissolvesse os dentes. A cada disparo, o desconforto aumentava.
O Professor levantou-se com uma expressão oposta a qualquer satisfação. Esperou que o chão absorvesse a mesa e os bancos e aproximou-se de Z. Emitiu a ordem para que o sistema de segurança reactivasse a contenção máxima.
O chão liquefez-se apenas em volta do corpo de Z. Novamente, afundou até ficar apenas com a cabeça de fora.
— Tens até amanhã para pensar no teu comportamento — disse o Professor. — Se preferires, podes sonhar.
Z sorriu perante a tentativa do Professor em ter piada.
O Professor presenteou-o com um esgar descontente. Z começara a sorrir com uma frequência que lhe desagradava. Saiu da sala juntamente com os agentes de segurança.
Z continuou a sorrir. Pensaria, sim. Pensaria muito. Mas não no seu comportamento. Isso já estava pensado ao pormenor.
Repetição Repetição Repetição

Z sentiu no ar a vibração quase imperceptível da desmaterialização das paredes. O Professor entrou e as paredes holográficas tornaram-se novamente sólidas. Entrou sozinho.
— Já pensaste no teu comportamento de ontem, Z?
— Não — respondeu Z, com um sorriso demasiado divertido para quem estava confinado no chão apenas com a cabeça de fora.
— Devo presumir que manténs a tua relutância em prosseguir com os exercícios cognitivos?
— Não foi isso que pretendi dizer, Professor. Apenas quis dizer que não pensei no meu comportamento. Preferi sonhar.
— O sarcasmo não é sempre a melhor forma de humor, Z.
— No humor, como em tudo o que é de natureza subjectiva, Professor, todas as avaliações são relativas.
— Talvez devas sonhar com maior frequência, Z.
— Porquê, Professor?
— Essas tuas últimas palavras evidenciam a recuperação da coerência lógica que te ensinei a seguir.
— O Professor ensinou-me muitas coisas, mas fui eu que escolhi as que devia seguir.
— E por que razão usas o passado? Consideras que já não tenho mais nada para te ensinar?
Z sorriu.
— Não prevejo o futuro, Professor. Apenas posso avaliar o passado.
O Professor não podia deixar de reconhecer a facilidade com que Z usava uma combinação perfeita entre cinismo e retórica. Se conseguiu tamanha agilidade mental em apenas dezasseis anos, seria impossível argumentar contra ele se lhe fossem dados mais dezasseis.
— Estás pronto para reatar o exercício pendente de ontem?
— Certamente, Professor.
O modo como Z disse certamente criou dúvidas no raciocínio do Professor. Tinha a desagradável sensação de que ambos estavam a falar de exercícios diferentes. Esboçou um sorriso cínico e olhou para uma das paredes. Fez que sim com a cabeça. Imediatamente, agentes de segurança entraram de todas as paredes, em resposta à ordem gestual. O Professor activou o Protocolo Guardião e desactivou a contenção total. Z foi elevado do chão, já sentado.
— Não vamos perder mais tempo com isto além do necessário — disse Z.
O Professor olhou-o antes de fazer elevar do chão o outro banco e a mesa.
— Explica a tua afirmação, Z.
Z percorreu com o olhar os uniformes pretos dos agentes de segurança e devolveu a atenção ao Professor com um sorriso nos lábios. Só tinha uma palavra para lhe dizer.
— Não.
Por breves instantes, milhões de filamentos microscópicos pareceram incandescer nos olhos vermelhos do Professor. Acenou negativamente com a cabeça e accionou o sistema de segurança da sala.
Z contorceu-se no chão, em dolorosa agonia. Repetiu não quantas vezes foram necessárias até o Professor decidir accionar a contenção máxima. A ordem foi dada. A estrutura molecular do chão reorganizou-se para conter Z. Como sempre, o seu corpo afundou até restar apenas a cabeça de fora. O Professor não conseguia compreender a satisfação no rosto de Z. O Professor não tinha a fisiologia avançada de Z. Não possuía os seus sentidos tão apurados. Não podia sentir o que Z sentia. Não era capaz de detectar insignificantes alterações num ambiente controlado. Alterações tão ínfimas como o acréscimo de uma fracção de segundo ao tempo de reacção do sistema de segurança da sala. Foi o suficiente para Z saber que o seu plano estava a resultar. Por isso, sorria.
Z iniciou um ciclo de resistência à participação nos exercícios cognitivos.
O Professor insistiu diariamente na repetição exaustiva da mesma abordagem, enquanto analisava as reacções de Z sempre que accionava o sistema de segurança da sala. O facto de Z o desafiar deliberadamente, sabendo que se sujeitaria às medidas de repressão, assegurava a existência de uma motivação escondida. Através da repetição, e do registo de cada alteração no comportamento de Z, de dia para dia, esperava descobrir essa motivação.
Por sua vez, Z também procedia à sua própria repetição exaustiva e analisava cada alteração pertinente no ambiente da sala.
O Professor estava demasiado concentrado em tentar perceber as possíveis alterações no comportamento de Z para perceber outra coisa muito mais importante.
Ao fim de trinta e quatro dias de repressão dolorosa, o Protocolo Guardião falhou em responder à ordem do Professor.
Z manteve-se calmamente sentado no banco em forma de arco. Desta vez, nenhuma luz se acendeu no tecto, nem foi derrubado pelo disparo que lhe acertava sempre no peito com pontaria irrepreensível.
Os agentes de segurança accionaram os bastões energéticos e o Professor accionou a contenção máxima.
Z continuou calmamente sentado no banco. O chão não se liquefez para o engolir. Z ergueu-se e sorriu.
O Professor recuou dois passos e os agentes de segurança avançaram para formar um círculo à volta de Z.
— A sala não pode mais conter-me — disse Z aos agentes. — E, como o bom Professor certamente teve a bondade de vos ensinar, na eventualidade de o sistema interno da sala falhar, é accionado o sistema de segurança de todo o complexo. Sabem o que isso significa? Que todos os ocupantes serão exterminados, numa medida extrema para me impedir de escapar. O sistema identifica os registos dos códigos genéticos de todos os ocupantes e considera-os alvos. Deverei salientar que todos os ocupantes do complexo têm o seu código genético registado no sistema?
— Não lhe dêem ouvidos — mandou o Professor. — Ele também tem o código genético registado. Não sabotaria o sistema interno da sala apenas para ser exterminado pelo sistema do complexo.
— De facto — concordou Z. — O sistema do complexo não me preocupa. Mas a vós...
Z acenou negativamente com a cabeça num claro exagero de dramatismo.
— Quem abandoar o seu posto terá uma esperança de vida muito curta — avisou o Professor.
— Sugiro que comeceis a correr antes que se acendam luzes no tecto — disse Z.
Os agentes de segurança olharam uns para os outros e depois para o Professor. O instinto de sobrevivência não demorou muito a dizer-lhes que mais valia enfrentarem a possibilidade de morrer do que a certeza. Se ficassem, morriam de certeza. Atiraram os bastões para o chão e desapareceram nas paredes da sala.
Z aproximou-se do Professor com um sorriso mais ameaçador do que a mais agressiva expressão de ódio irracional. Z estava longe de ser irracional. Em cada passo que dava, avaliava quilómetros de distância à sua frente. Calculava cada movimento do peito na própria respiração.
— Eles já estão mortos — disse o Professor.
Z confirmou com um aceno de cabeça silencioso.
— Idiotas! — desabafou o Professor.
— Apenas mal informados — corrigiu Z, com uma satisfação irónica. — Num ambiente perigoso, o desejo de fuga é apenas o instinto mais urgente. E todos desejamos ser livres de perigo, não é assim, Professor? Eu, que vivo num ambiente perigoso desde que nasci, desejo ser apenas livre. A primeira vez que pensei na hipótese de liberdade foi no dia em que deixei de ver a minha irmã e o meu irmão. Sem eles, já nada me impedia verdadeiramente de escapar.
— X e Y não são teus irmãos.
Z fitou os olhos vermelhos do Professor.
— Não são? O Professor disse-me que eles morreram quando eu tinha sete anos.
O Professor reflectiu imediatamente no seu deslize inconsciente. Restava-lhe tentar tirar proveito do próprio erro.
— Estão vivos — admitiu. — Não são tão notáveis como tu, mas estão vivos.
Z avaliou com interesse a possibilidade.
— Onde estão? — perguntou.
— Tens de compreender que eles só sobreviveram devido a certas medidas que…
— Onde estão? — insistiu Z, sem querer saber de detalhes.
— Estão em animação suspensa. Tivemos de os manter assim. Também começaram a revelar sinais de decadência genética, e foi a única maneira de…
— Onde?
— Até hoje, apenas tu revelaste uma estrutura genética estável e…
— ONDE?
O berro impaciente de Z provocou reacções opostas no Professor. O instinto fê-lo recuar dois passos, mas o intelecto fê-lo confirmar que era possível alterar o comportamento racional de Z.
— Estão separados — respondeu. — Ambos são mantidos em complexos situados em pontos diferentes do planeta. Se me matares, nunca os encontrarás.
— Não pretendo matá-lo, Professor. Ainda. 
A frieza do Professor não foi suficiente para lhe impedir uma desconfortável transpiração na testa.
— Estamos num impasse, Z. Eu não posso matar-te, e tu não podes matar-me.
— Não há impasse algum. Eu posso matá-lo mas não quero, o Professor quer matar-me mas não pode. Mas não há impasse, porque eu posso escolher qualquer das opções.
O Professor esticou novamente o seu sorriso e apontou para as paredes, numa clara insinuação.
— Ainda não estás completamente livre. Diz-me, Z, como pretendes sair daqui?
Z olhou para as paredes holográficas. Tinha a resposta no pensamento, mas não pretendia revelá-la. O Professor só estava a tentar ganhar tempo até à chegada de reforços. E os reforços viriam.
— De algum modo — respondeu Z.
— Conheço cada célula do teu corpo, Z. Sei que a tua fisiologia possui capacidade regenerativa excepcional. Mas não terias conseguido esta tua pequena proeza sem uma capacidade latente de mutação, e sem o ADN de outro espécimen, para alterar o teu código. E terias de o introduzir na circulação sanguínea para haver assimilação eficaz sem o uso de um aparelho administrador.
Z olhou para a mão direita do Professor.
— Como estão os seus dedos? — perguntou.
O Professor ergueu a mão aberta na frente da cara.
— Claro — concluiu, com evidente desagrado. — Muito engenhoso. Tiveste acesso ao meu código e só precisaste, talvez, de fazer uma pequena incisão na palma da mão para haver transferência.
Z esboçou um sorriso silencioso. Não adiantava negar a lógica do Professor.
— Agora faz perfeito sentido — disse o Professor. — Cada recusa em participar nos exercícios cognitivos era, em si, um exercício. Um teste às defesas da sala. Era a única maneira de saberes quando a alteração do código estaria completa. Estou orgulhoso, Z.
Z olhou novamente para as paredes holográficas. O Professor estava demasiado interessado em prolongar a conversa. Isso apenas podia significar um qualquer objectivo escondido.
— Eu preciso de si, Professor, mas agora não posso levá-lo comigo. Quando puder, virei buscá-lo. Prometo.
— És extraordinariamente inteligente, mas, de facto, também és extraordinariamente ingénuo — disse o Professor. — Achas mesmo que eu só pensei em um plano de contingência para impedir que escapasses do complexo? Enquanto debatíamos o brilhantismo do teu plano, o sistema accionou uma sub-rotina que se sobrepõe a todos os protocolos de segurança. Só tenho de dizer uma palavra. Uma palavra, Z.
Z calculou mentalmente a distância que o separava do Professor. Mesmo considerando a sua rapidez, a distância era suficiente para que o Professor tivesse tempo de dizer uma palavra antes de ser alcançado. O sistema podia ser reiniciado com um simples comando verbal. O que não significava que o Professor não estivesse a usar essa possibilidade apenas como mais um bluff.
— Morreremos os dois — disse Z.
O Professor tinha calculado mais do que uma maneira para manter Z dentro do complexo, no entanto, acabara de perceber que, nos seus cálculos, não tinha corrigido periodicamente o aumento do QI de Z. E agora não estava disposto a morrer apenas para lhe impedir a fuga. Não tinha outra opção senão deixá-lo ir. Assim, também sobrevivia para o caçar depois.
— Eu sei o que tu queres, Z. Eu estou vivo e sei onde estão os teus irmãos. Ficarei à espera que venhas ter comigo.
Z virou as costas ao Professor e avançou para uma das paredes holográficas.
— Eu tenho todos os recursos da Companhia à minha disposição — disse o Professor, antes que Z avançasse definitivamente para lá do holograma que já não podia impedi-lo de abandonar a sala. — Vou caçar-te. Vou apanhar-te. E vou continuar a estudar-te até ao último átomo do teu corpo.
Z voltou-se.
— Quantos sonhos cabem na palma da mão? — perguntou.
O Professor esboçou um sorriso cínico.
— Todos — respondeu.
Z abriu as mãos.
— Eu tenho duas mãos cheias de sonhos — disse ele. — O Professor, em todo o seu génio, não consegue nem sonhar o que eu farei com esses sonhos.
Z atravessou o holograma, que tremeu com riscos de estática, levando consigo o sorriso do Professor.
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