Phantasia Carlos Silva Published by Carlos Silva at Smashwords Este ebook não poderá ser reproduzido, copiado ou distribuído para fins comerciais ou não-comerciais sem autorização do autor. Se gostou deste livro, recomende, por favor, aos seus amigos que obtenham uma cópia em Smashwords.com, onde poderão descobrir outros trabalhos do mesmo autor. Obrigado. Cover image by Luis Carreto Copyright 2012 Carlos Silva Índice Prefácio Moção de Censura Boa noite, Gonçalo Asche zu asche Gosma Literária Chekhov's gun Aquele que só vês pelo canto do olho Trial Version Sobre o autor Prefácio Neste livro poderão encontrar pequenas narrativas do género ficção especulativa que até agora estavam, de uma maneira ou outra, disponíveis gratuitamente, mas espalhadas por vários meios de comunicação. As histórias aqui presentes são muito dispersas entre si, porém a capacidade humana de detectar padrões (mesmo onde nãos o há) permite agrupá-las e imaginar uma linha lógica a uni-las. O ponto de partida são textos motivados pela realidade socio-económica-cultural que se vivia na altura da sua concepção, caminhando nos seguintes para contos baseados no universo literário, finalizando com um conjunto de histórias que espero que inquietem o leitor. O título desta colecção foi inspirado numa célebre frase de Eça de Queirós, que para mim resume a essência da boa literatura: "Sobre a nudez forte da verdade - o manto diaphano da phantasia" Moção de Censura A líder de bancada do Partido Populista Social recuperou os sentidos. A última coisa que recordava era a invasão da assembleia da república por um grupo armado e a tentativa atabalhoada de fuga dos seus camaradas. Apalpou a nuca dorida. Em vez dos cabelos sedosos, os seus dedos encontraram um objecto plástico. Tentou tirá-lo, mas só fez a dor aumentar de intensidade. Parecia enraizado na parte mais profunda do seu crânio. – Senhores deputados. – Chamou a atenção um encapuçado, de pé, em cima da tribuna. – Declaro aberta a audiência. A ordem de trabalhos de hoje é: não sai daqui ninguém enquanto não começarem a resolver os problemas do país! – gritou – Desta vez, para variar, não se pode mentir. Os electroencefalógrafos que instalámos nas vossas nucas explodirão assim que faltarem à verdade. – Mas nós sempre trabalhámos em prol da nação! – Disse um deputado, antes da sua cabeça rebentar. Boa noite, Gonçalo Com o beiço a tremer, Gonçalo fitou os olhos marejados nos da mãe e depois mergulhou a cabeça entre os joelhos dela abraçando-os. – Porquê? – Porque tem de ser, querido. – Respondeu num tom doce. – Tens de ir dormir. – Não quero! A mãe ajoelhou-se, abraçou o filho, que limpava as lágrimas fungosas ao cobertor, e fez-lhe uma festa no cabelo. Tinha um lindo cabelo loiro como uma espiga de trigo, liso como seda, completamente diferente da cor parda da cabeleira de ambos os pais. Por vezes, Leonor esquecia-se que aquele rapaz não saíra do seu ventre infértil. Apertou-o com mais força contra o peito e depois afastou–o pelos ombros. Já começara também a chorar. Um grande erro. Como poderia agora manter a sua posição firme? O apito do leitor de impressões digitais anunciou a chegada do pai de Gonçalo. O som dos seus passos era arrastado, derrotado. Surgiu, por fim, à porta da sala, onde a pequena criança estava com a sua mãe, um homem que parecia carregar o peso do mundo. As olheiras encovavam ainda mais o seu rosto chupado que se virou lentamente para o filho adoptivo. Deixou-se cair sobre o sofá, largando a pasta pelo caminho que ao cair no chão abriu-se, deixando cair a obsoleta e gasta prancheta digital. Gonçalo apanhou-a e, com habilidade, ligou-a revelando a lista de moradas à qual o seu pai batera naquele dia a suplicar por um emprego. Depressa se fartou de juntar as letras e passou para um jogo de peças coloridas. Leonor retornou da cozinha, trazia um caldo quente parco em comida e sobejo em água. Pela segunda vez naquele dia sorveu secretamente as lágrimas aproveitando o som do sorver do caldo para abafar a acção. Odiava ter de ver o seu marido, um fabricante de órgãos ex-vivo, a vaguear pela cidade o dia inteiro, a comparecer a inúmeras entrevistas sem conseguir um lugar numa das empresas de biotecnologia do país. Ela já vira idosos a correr, com pernas feitas pelo homem que amava. A qualidade nunca estivera em causa, mas sim a sorte e oportunidade. Os ombros descaídos de Manuel denunciavam a atitude que ganhara quando foi dispensado para dar lugar a um amigo do filho do director da GenOrgan. Leonor sentia saudades do brilho dos olhos, do sorriso rasgado, do beijo ao chegar a casa. O sol de Julho começou a transmutar-se para tons carmins, anunciando o final do dia. – Mãe, por que é que está escuro? – Porque está a ficar de noite, amor. – Não! – Protestou abanando a cabeça, como fazia quando não o entendiam. – Liga a luz! – A mãe e o pai já te explicaram. Temos de poupar energia. – Porque é que ele ainda não está a dormir? – Murmurou Manuel. – Estava a tentar convencê-lo, sabes que é sempre melhor fazer as coisas a bem – pegou no braço do filho. – Vá, vamos para o quarto! Vou contar até três. Um… A criança levantou-se e foi a correr para o quarto, não querendo esperar pelos seguintes algarismos que quase sempre acabavam numa palmada ou castigo. O pai de Gonçalo encolheu os ombros e continuou a sorver o caldo, analisando o horizonte, tentando abstrair-se da aridez da casa. Haviam vendido quase toda a mobília e electrodomésticos quando a crise económica se abateu. Tiveram azar, como sempre tinham em tudo na vida. No momento em que a bolha financeira rebentou, Leonor havia-se despedido da empresa de software para aceitar o lugar de professor que o Instituto Superior Técnico lhe oferecia, mas que, quando se viram sem dinheiro, retiraram. Depois seguiu-se a avalanche. O Gonçalo precisou de uma mão nova, o carro precisou de uma bateria nova, obras no prédio, o despedimento de Manuel… O pai mergulhou a cabeça nas mãos e deixou-se embalar pelo escuro que penetrava na casa. Se não fosse pela sua mulher, há muito que tinha posto termo à vida. Leonor deitou o filho na cama e beijou-o na testa. Era tão lindo, tão perfeito. Desde que entrara na sala e o vira a brincar com os outros iguais a si que decidiu que o iria adoptar. Não se arrependera, apesar de todas as dificuldades que a decisão trouxera. Era uma mãe feliz. – Tem mesmo de ser? Eu não quero dormir… – Choramingou Gonçalo. – Temos de poupar energia, filho. Se a mãe e o pai pudessem, também iam dormir. – Quanto tempo vou dormir? – Um ano…dois talvez…Até as coisas melhorarem. Vais ver que passa num instante, não vais dar por nada. Dito isto, Leonor pressionou o pequeno painel na cabeceira da cama, revelando uma consola de controlo. Digitou alguns números, marcando uma data e uma hora. Validou as instrucções com a sua impressão digital. – Obrigado por seres a minha mãe. Até já. A mãe, lutando contra a sua vontade, tentando afogar as emoções no turbilhão que sentia no peito, apenas disse “Desculpa” e carregou no botão, desligando o androide. Asche zu asche Viviam-se tempos em que a energia eléctrica era um bem mais oneroso que a dignidade humana. Essa era razão suficiente pela qual Hermínia empurrava uma trave oitos horas todos os dias, confinada num cubículo quente e húmido. “Ainda bem que assim é”, pensava a operária, dando graças por trabalhar numa fábrica onde o ar exterior era depurado com filtros decentes, em vez dos trapos que usava em casa. O seu trabalho era adequado à sua formação. Rodar uma trave, ligada a um torno central, para moer o lixo orgânico produzido continuamente. A papa liquefeita era então dada como alimento a um caldo de leveduras que iriam ser compactadas e vendidas para consumo humano. Perdida nestes pensamentos, Hermínia deixou a mó encravar. Pegou num pau e empurrou a caveira humana de novo para o caldo. Continuou a rodar, ignorando a relação de parentesco que teria com o almoço naquele dia. Gosma Literária – Estava à espera de algo diferente, Professor Gonzaga. – Disse Marco Freitas, acariciando a pequena máquina que tinha à sua frente. – Não se deixe enganar pelo aspecto, esta maravilha da ciência vai mudar o modo como a leitura é vista no Mundo! Melhor ainda, vai impulsionar a sua carreira de escritor para níveis nunca antes vistos. – Pode mostrar-me como funciona? O professor anuiu e pegou num exemplar da Mensagem de Fernando Pessoa e colocou no prato de alimentação da máquina. Ao recolher do prato, centenas de luzinhas começaram a piscar e ruídos mecânicos a fazerem-se ouvir. No pequeno monitor, um gráfico tomava forma. Por fim, o bulício parou e uma válvula do lado direito abriu-se e deixou escorrer uma gosma azulada semitransparente escorreu lentamente para um pequeno prato. Cheirava a mar e a manhãs de nevoeiro. – No interior da máquina, o livro é folheado e lido e, graças a um complexo algoritmo matemático, o sentido e estética das palavras é percebido. Com essa informação, consigo determinar que substâncias devem ser misturadas de modo a transmitir todo o leque de sensações que o livro transmite ao leitor. Marco abanou a cabeça em confusão e encarou de novo o investigador. – Está a afirmar que, ao comer essa gosma irei sentir o mesmo que sentiria ao ler o livro? – Exactamente! Dentro de alguns anos, ler livros será uma coisa do passado. Bastará meter a gosma na boca e toda uma miríade de sensações invadirá o cérebro do ex-leitor. – Fantástico! – Coçou o queixo. – No entanto, pelo que percebi, vai precisar de escritores à mesma. – É verdade, mas não serão necessários bons escritores, apenas pessoas que pareçam bons escritores. O conteúdo não será de todo importante. Basta por exemplo combinar umas antíteses, umas metáforas sem sentido, umas inversões da sintaxe comum e umas ideias feitas que ressoem no desejo das pessoas que a gosma literária terá um sabor adocicado e saciante. O único defeito desta estratégia é, quando o leitor tentar degustar com mais cuidado a gosma, notar que ela tem um sabor demasiado artificial e muito pouca consistência. O investigador inseriu uma colectânea de contos de quatrocentos e cinquenta e três autores completamente desconhecidos e máquina converteu em gosma. Era um líquido baço, sem consistência, por vezes pontilhado de pequenas gostas que pareciam saborosíssimas, no entanto rapidamente se diluíam no resto e desapareciam. – Estou a ver… Talvez se possa contornar esse facto com utilização abundante de anáforas. O cérebro humano adora repetição de padrões. – Você vai ser um óptimo produtor de gosma literária! De facto, as anáforas causam uma sensação de cócegas no céu-da-boca e fundo da garganta que distrai a maior parte dos ex-leitores da falta de consistência. – Compreendo. Basta-me apenas alguns truques baratos de estética para obter um bom resultado. – Não, não, de todo! Tem também de apostar nas temáticas que ofereçam o melhor sabor. Por exemplo, leves angústias pessoais fúteis dão um leve sabor avinagrado muito apreciado por leitores que se consideram intelectuais. Mas tem de ter cuidado com a dose! O outro dia, transformei em gosma um livro de Musil e tive dificuldade em comê-la até ao fim. Sugiro que prove um desses romances femininos que nascem como cogumelos nas livrarias. São dulcíssimos, sem dúvida alguma, mas a tentativa desesperada das autoras de introduzir tons ácidos, acaba por criar um falso sabor a vinagre balsâmico. Marco Freitas já sonhava com mil e uma histórias que poderia criar com a premissa básica do amor. Um suceder de aproximações e afastamentos sem fim nem nexo que produziria gosma literária que agradaria qualquer palato feminino – Podia tentar enveredar por esse caminho… – disse pensativo – O das histórias de amor. – Jamais! Não tente retratar amor por meio da literatura. É extremamente frustrante conseguir captar a verdadeira essência, vai desperdiçar imenso tempo e imensa gosma para o lixo antes de conseguir um bom produto final. Aposte antes noutro tipo de narrativas que pareçam – Fez um especial enfâse em “pareçam. – amor, mas sejam apenas sentimentos de posse, fascínio ou desejo sexual. Aliás, aposte no sexo. Sexo é sempre bom. Toda a gente gosta de uma gosma literária pejada de sexo. – Introduziu um exemplar de Teleny e saiu uma gosma vermelha cristalina de cheiro pungente. Cheirou-a deliciado e deglutiu–a num só trago.– Este livro dá um sabor picante e a especiarias fantástico. Mesmo que a descrição do acto seja péssima e os sabores complexos não surjam de todo, tem sempre garantido uma sensação de frémito nos órgãos sexuais que compensa tudo o resto. – Tem razão, esta máquina vai mudar a literatura para sempre. – Meu amigo, a literatura não é para aqui chamada. – Admoestou severamente. – Qualquer tentativa de a inserir nesta máquina dá uma gosma indigesta, que tem como principal efeito colocar os ex-leitores a cismar sobre o Mundo. Não, esta máquina só serve para textos dos do calibre dos seus! Marco sorriu largamente, pensado nas imensas oportunidades de negócio que aquela invenção lhe trazia. Por uma certa quantia de dinheiro, poderia até ensinar as pessoas a fazer as suas próprias gosmas literárias. Toda a gente gosta de vangloriar os objectos culinários que são capazes de preparar. O instagram© e milhares de posts no facebook são prova disso mesmo. Quanto dinheiro estaria o povo disposto a pagar pelo estatuto de fazer gosmas literárias, mesmo que nunca chegassem aos supermercados? Revirou os olhos de prazer orgástico ao pensar na sua conta bancária a encher. – Professor Gonzaga, estou convencido. Quanto quer pela máquina? Chekhov's gun Todos temos aquele conhecido especial de quem gostaríamos de ser amigos. Algures no passado cruzámo-nos com essa pessoa magnetizante cujas atitudes, personalidade e acções invejamos não serem as nossas. Esse conhecido surge, muitas das vezes, num momento de viragem da nossa vida e marca-nos profundamente e de um modo tão intenso que pensamos que a amizade irá durar para sempre. Depois, começamos a afastar–nos desse conhecido, indolor e gradualmente, até a ligação se desvanecer numa reminiscência de empatia. Tudo o que fica são as memórias e encontros fugazes marcados pelo acaso onde nos recordamos porque o admiramos e admitimos que já não há sintonia dos dois espíritos. É curioso como se mantém contacto com alguém de outro país, mas não se é capaz com alguém da mesma cidade. Deve ser uma questão de destino. O meu conhecido especial desapareceu da minha vida no último dia de aulas do secundário e só o voltei a ver hoje quando cheguei a casa e sentei-me ao computador para consultar os emails. Só tinha uma mensagem, a dele. Era um vídeo. Abri-o e expandi de modo a ocupar todo o monitor. Sorri por ainda o reconhecer, mesmo apesar da barba que lhe cobria o rosto, os olhos cansados e o corte de cabelo desalinhado. Ele contorcia-se na cadeira, mas não dizia nada, mexendo algo nas mãos que não conseguia ver por estar fora do ângulo da câmara. O meu conhecido especial engoliu em seco e disse a mensagem que tinha para mim. – Olá Claúdia, tudo bem? Espero que sim. – O sorriso dele era nervoso, tão depressa se formando como se desfazendo. – Desculpa não te ter dito nada estes anos que passaram. Talvez tenha sido melhor assim. Preciso de falar com alguém distante e próximo ao mesmo tempo. Percebes? – Fez uma pausa, como se esperasse uma resposta da amiga. – Preciso de dizer em voz alta. Preciso de mostrar que não estou louco. Nem que seja a mim próprio, confiando que alguém está aí desse lado a ver isto. Por onde começar? Não é grande história. Acabei o curso de fotografia. Trabalho agora em regime freelancer e estou a tentar construir um portefólio de jeito. Aventurei-me pelo urbex, em busca de imagens que o completassem. Em vez disso, encontrei isto. – Disse ele, revelando o objecto que segurava entre as mãos: um revólver. Dele pendia uma etiqueta que o meu amigo especial fez questão de mostrar na câmara. Dizia “Chekhov's gun” – Sabes o que isto quer dizer, não sabes? Eu não quero usá-la. Não quero. Não sou uma pessoa violenta. Tu sabes disso. Não seria capaz de magoar ninguém, nem que fosse para salvar a minha vida. Lembras-te daquele passarinho caído do ninho que encontrámos uma vez? Nem de um gesto de misericórdia sou capaz. Mas tu sabes… Se ela aparece, tem de ser usada. Não consigo pensar noutra coisa. Não consigo sonhar noutra coisa. Estou a ficar obcecado com isto. Quando é que é a próxima cena? E se eu não a quiser usar quando chegar a altura? Não sou capaz…Não sou capaz, nem que fosse para me salvar. O meu conhecido especial chorava e fungava, sorvendo cada ponto final com um bocado de ranho. As mãos tremiam-lhe, fazendo o cano da arma balançar freneticamente na minha direcção. Sem aviso, encostou o cano debaixo do queixo e disse: – Não vou ser capaz. Não vou… Ela tem de ser usada…Não sou capaz… Um jacto de sangue e massa pastosa cobriu a parede atrás dele e a cabeça caiu sobre o teclado. Abafei o meu grito com as mãos e deixei-me escorregar, atónita, pela cadeira até me sentar no chão. Não queria crer no que acabara de ver. Que história era aquela? Não fazia sentido nenhum. Chorei a noite toda, incapaz de tomar uma acção em concreto. Chorei quando me telefonaram de madrugada a informar que o meu conhecido especial se tinha suicidado. Talvez por não conseguir emprego há quase um ano. Eu chorei em resposta. Ninguém precisava de saber que ele havia morrido por causa de uma metáfora. Só mais tarde, quando as lágrimas secaram, é que o terror ganhou espaço para crescer. Se ele estava morto, quem teria enviado o vídeo? Aquele que só vês pelo canto do olho Todos os dias eu ia a casa de Roberto e ficava lá todo o dia a vê-lo fazer nada, sorvendo discretamente a bebida que me era servida. As visitas começaram assim que Roberto perdeu o emprego na gráfica e prolongaram-se ao longo de todo o verão. Ao início, o dono do T0 ainda começou por se inscrever nos sites de emprego e enviar currículos para apreciação, mas o desânimo foi-se somando à medida que as dívidas seguiam a mesma tendência. Aquando das primeiras visitas, Roberto costumava preparar refeições que emanavam exóticos aromas que quase me faziam abandonar a minha bebida para as provar, mas depressa foram substituídas por pedidos telefónicos de comida rápida ensopada em óleo. Inexoravelmente, a inércia foi preenchendo cada movimento, a lentidão o pensamento. É das leis mais básicas do universo: nada se faz sem um preço. Toda a acção tem uma certa quantidade de atrito associada. É também sabido que “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” e a mente humana não é dos materiais mais fortes. Roberto está agora deitado num himalaia de almofadas, uma vez que os móveis pagaram as contas da electricidade que mantém a velha ventoinha a rodar. O suor pinga-lhe das axilas desnudas e faz uma poça no tecido abaixo dele. Da boca, baforadas de fumo de um cachimbo de água que chupa indolentemente. À distância de um braço, um computador exibia a lista de compras que esperava pacientemente o desmedido esforço de clicar o botão de confirmação da encomenda. Ao lado, uma dezena de moscas fazem voos rasantes a um cilindro de fezes que flutua em urina quase a transbordar do penico. Um pouco por toda a casa, pacotes de produtos consumidos quase não deixam sítio para me sentar. Não me importa. Fico em pé, a bebericar, enquanto o Roberto fita o tecto com os olhos inchados de sono. Pouco resta a alguém que até o cansaço o fatiga. A procrastinação assume a sua forma mais requintada e deliciosa, onde se inventam tarefas improfícuas para adiar as mais prementes. Tudo isto eu degusto com prazer nas minhas visitas. Apenas precisei de ser convidado a primeira vez para ganhar acesso permanente à casa e à vida do Roberto. Não me orgulho grandemente. Esta amostra de homem não é sequer uma presa suculenta, parte da força de viver já tinha esvaído quando cheguei. Ao menos, dá–me forças suficientes para procurar caça grossa. Aspiro os últimos resquícios de ânimo do Roberto e ele revira os olhos. Quase consigo ouvir-lhe os pensamentos: “Para quê viver? Que canseira…” Trial Version Sorri para agradecer a reunião de toda a minha família e amigos no meu leito de morte. A minha mulher agarrava-me a mão e eu via-a, apesar dos sulcos cavados pelas décadas passadas, linda como no primeiro dia. Os meus filhos também estavam presentes, apesar das agendas preenchidas. O gesto enterneceu-me, significa que os eduquei bem. O suficiente para terem sucesso a nível profissional, sem terem de atropelar todos os valores que fazem de alguém uma boa pessoa. Não me resta muito tempo, a doença que me consome o corpo é de sintomas tardios mas de evolução exponencial. Um qualquer defeito genético que funciona como uma bomba relógio que, após detonação, me foi roubando as forças até chegar ao presente estado de quase inanimação que precede a morte. Não existe cura, mas se a houvesse, talvez a recusasse. Vivi a vida em toda a sua glória e plenitude. A minha memória de tudo o que se passou para trás é um tanto ou quanto difusa, como se não as tivesse vivido realmente, mas sim apresentada há minutos atrás. No entanto, a sensação que tenho é que tive uma infância feliz no campo com os meus pais. As imagens que a minha mente invoca são pradarias e cascatas, uma espécie de Éden versão minhota. Vim para a cidade, conheci o amor da minha vida, num golpe de sorte preparado pelo destino para cumprir a sua vontade. Sinto-me tão feliz ao lado dela! Sei que vivemos muito, que vimos muito, que fizemos muito, mesmo que não recorde exactamente o quê. A minha respiração torna-se mais profunda, arranhada e pesada. A enfermeira dá indicação às pessoas que se despeçam e saiam da sala. Um a um, os meus amigos depositam-me um beijo na testa, selando a longa relação que desenvolvemos e saem. Ah! Que boas sensações aquelas caras me despertam. Cada uma eram dezenas de aventuras e momentos que, embora desafiantes, haviam tido sempre um desfecho feliz. Ficou apenas a minha mulher e dois filhos. Eu fecho os olhos e ela aperta-me a mão com ainda mais força. Faleço como quem adormece. Está tudo branco. Tento mexer-me, mas não tenho corpo para obedecer à vontade. Olho em volta e vejo igual paisagem branca, como se não tivesse mudado a direcção do olhar. O branco começou a desvanecer-se e revelou um aquário com um laboratório lá dentro. Só depois me apercebi que quem estava dentro do aquário era eu. O nível líquido azulado foi descendo, à medida que os sorvedouros se abriam a meus pés. Um homem vestido com um impecável fato branco aproximou-se, sorrindo tão abertamente que mais um pouco faria os cantos da boca se rasgarem. Abriu o cilindro transparente onde eu estava e perguntou-me: – Que achou da demonstração do nosso produto? Eu acenei positivamente, o tubo que tinha enfiado na garganta não permitiam grandes conversas. As memórias voltaram todas de repente, como que se a barragem que as cingia tivesse sido destruída. Não eram lá grande coisa. Recordações sensaboronas e deprimentes do que se passara na sua vida até aquele momento. Sabia porque estava ali e, mais importante ainda, sabia o seu saldo bancário. Introduzi o código de autorização de débito no terminal bancário que o homem do fato branco trazia debaixo do braço e encostou-se à máquina, esperando a submersão no líquido azul. O homem de fato branco fechou de novo a campânula e acenou-lhe um adeus alegre. – Faça um bom proveito da sua Vida Feliz, com a garantia da Cyber Lifes. Sobre o Autor Carlos Eduardo Silva nasceu no auspicioso ano de 1989 em Lisboa e, desde aí, o Mundo continuou a mudar. A sua mente hiperactiva nunca lhe deu descanso e o dia em que isso acontecer assusta-o de morte. Actualmente estuda para ser um homem de ciência, mas quando ninguém está a olhar escreve as histórias que andam pela sua cabeça. Algumas obras e novidades do autor podem ser encontradas no seu blog Abracadabra. www.carlossilva.webs.com ou no site da Smashwords www.smashwords.com/profile/view/carlossilva.