Crônicas Para Ler Depois do Fim do Mundo por Mario Persona Smashwords Edition ISBN: * * * * * Publicado por: Mario Persona no Smashwords Copyright © 2013 by Mario Persona www.mariopersona.com.br contato@mariopersona.com.br Este livro pode ser reproduzido, copiado e distribuído sem fins comerciais, desde que o livro permaneça na sua forma original. Apreciamos seu apoio e respeito a esta propriedade intelectual. * * * * * Outros livros por Mario Persona: Crônicas de uma Internet de Verão Receitas de Grandes Negócios Marketing Tutti-Frutti Gestão de Mudanças em Tempos de Oportunidades Marketing de Gente Dia de Mudança Moving ON (inglês) Capa: Stephan Dirck Klaes Imagens: Darren Hester, Gabriele Bianco e “natep182” em  SXC.hu  - stock.xchng Versão impressa sob demanda em www.bookess.com * * * * * Sumário Prefácio O que fazer quando o mundo não acaba Ela, Robô Lá fora é melhor Se oriente rapaz Sou mineiro Humor líquido Máquina sinistra Minha bicicleta high-tech Alter ego virtual Upgrade Para preservar a imagem Maravilha tecnológica O peru de dona Gertrudes Pratos em extinção Um avatar no meu quintal A hora do Abreu As 110 lâmpadas A expansão do ser humano Ai, que fome! Santa Maria! Minha vida esportiva O Maverick de Hildebrando O velho sobrado A Bruxa da portinhola Máquinas, pescadores e top models Tudo azul Dinheiro eletrônico A nuvem Hábitos tecnológicos O inventor da economia Cérebro líquido Inventores Acabou o papel! Anos Dobrados Prêmio Mr. Bean de comunicação Eu sei que vou a Marte Os “Caçoadores de Mitos” Diversidade à flor da pele Flexibilidade feminina Invenção feminina Banana, menina, tem vitamina Yes, nós temos cana Depois do fim do mundo * * * * * Prefácio Espero que o título “Crônicas para ler depois do fim do mundo” não tenha levado você a pensar que eu esteja falando literalmente do fim do mundo. Não é desse fim cabal e literal do planeta terra que estou falando, pois aí seria impossível ler, seja em papel, que não resiste ao fogo, seja em e-book por não ter sobrado uma tomada sequer para recarregar. Meu assunto aqui é o fim do mundo que acontece cada vez que tudo parece começar de novo e somos obrigados a reaprender. Depois de mais de meio século de idade já vi o mundo acabar algumas vezes. E para a moçada que vive esperando uma nova era, vocês nem imaginam quantas eras novas eu precisei experimentar. E quando penso que uma é nova, já era. (Ui!) Portanto é deste mundo que acaba a cada esquina da vida que vou tratar aqui. Ao ler você pode até me achar saudosista, de tanto que falo de diferentes passados, mas não sou assim. Ao contrário, estou sempre procurando novas sarnas para me coçar e o nome disto é vontade de criar. A cada fim do mundo como o conhecemos ficamos diante de novos desafios e o jeito é reciclar antes de sermos reciclados. Neste livro de coisas velhas você vai ler de muita coisa nova, como a nova consciência de preservação ambiental ao conhecer “O peru de Dona Gertrudes” e os “Pratos em Extinção”. Em “Acabou o papel” levo você a um passeio pelo passado do papel, o qual bem ou mal passamos todos os dias. Você viajará comigo no “Maverick de Hildebrando” e verá a paisagem das mudanças acontecendo a duzentos por hora. No caso deste Maverick, duzentos passos. O impacto das novas tecnologias eu apresento em “Máquina sinistra” e a criatividade que precisamos ter para enfrentar tantas mudanças está em meu “Cérebro líquido”, o que só tenho porque “Sou mineiro”. “Santa Maria!” – você irá exclamar, quando souber que o mundo já acabou muitas vezes nos séculos passados, e talvez até queira tentar a sorte fora do país quando souber que “Melhor é lá fora”. Mas aceite meu conselho: “Se oriente rapaz” ou vai ficar falando sozinho. Caso você esteja envolvido na “Expansão do ser humano”, exercite-se comigo em “Minha vida esportiva” para perder uns quilinhos. Mas isto irá exigir que você passe “Fome, muita fome!”. Mas isto é apenas um aperitivo, pois tem muito mais assuntos aqui. Boa leitura e, e gostar, espalhe logo antes que este mundo se acabe. Mario Persona Janeiro de 2013 * * * * * O que fazer quando o mundo não acaba Muita gente esperava pelo fim do mundo que não veio na data marcada. Sim, digo muita gente, porque existe um desejo secreto em cada um de nós de não precisarmos voltar a trabalhar na segunda-feira. Ou você não reparou que o fim do mundo da profecia Maia caiu numa sexta? E agora, o que fazer já que o mundo não acabou? Bem, segunda-feira você volta a pegar no batente, seu carnê do crediário continua uma brochura e seu salário continua terminando no dia 21, bem antes do fim do mês e do mundo. Mas pense nas coisas boas que ainda podem acontecer! Quais? Bem, não sei fazer previsões, mas sei que você ainda pode recomeçar com uma nova configuração. Para tanto sugiro a leitura de “Mind Set! – Eleven Ways to Change the Way You See – and Create – the Future”, de John Naisbitt (autor de “Megatrends”), lançado no Brasil há alguns anos com o pasteurizado título de “O Líder do Futuro – 11 conceitos essenciais para ter clareza num mundo confuso e se antecipar às novas tendências”. A ideia do título original em inglês é de uma nova configuração mental para você enxergar o futuro com maior clareza e preparar-se para ele. O autor propõe uma espécie de “reset” e a instalação de 11 “mindsets”, que não vou traduzir porque se você ainda não saiu da lição do “the book is on the table” é melhor incluir um “mindset zero” do tipo “Aprender inglês”: 1. Most Things Remain Constant 2. The Future Is Embedded In The Present 3. Focus On The Score Of The Game 4. Understand How Powerful It Is Not To Have To Be Right 5. See The Future As A Picture Puzzle 6. Don't Get So Far Ahead Of The Parade That They Don't Know You Are In It 7. Resistance To Change Falls For Benefits 8. Things That We Expect To Happen Always Happen More Slowly 9. You Don't Get Results By Solving Problems, But By Exploiting Opportunities 10. Don't Add Unless You Subtract 11. Consider The Ecology Of Technology Agora vamos à minha paráfrase nem um pouco canônica, enriquecida com palpites de minha autoria. 1 - Na vida tudo é passageiro, menos o cobrador e o motorista. Apesar de muita coisa mudar, há coisas que não mudam. As pessoas continuarão a comprar, vender, trabalhar, criar filhos etc. Invente algo para as pessoas fazerem o que já costumam fazer. Só que diferente. 2 - O futuro é uma azeitona na empada presente. Conhecer história e acompanhar o presente é essencial para se entender o futuro. O segredo é saber filtrar opiniões – inclusive as minhas – e parar de engolir tudo o que a sociedade e a mídia derramam em sua mente. Apesar do ditado popular, a voz do povo nunca foi a voz de Deus. 3 - Fique de olho no placar. Empresas dizem que vão fazer isso e faturar aquilo. Não acredite. O garoto que vende balas no semáforo lucra mais que aquele CEO que a capa da revista diz ser a última bolacha do pacote. No fim do dia o garoto volta pra casa com 100% de lucro. O CEO volta devendo mais para os bancos. 4 - Fazer xixi fora do penico nem sempre é ruim. Inovadores são os que desafiam o “status quo” e ousam fazer aquilo que ninguém acredita dar certo. Não se preocupe em estar 100% nos trilhos. Nem o professor que ensinava matemática a Einstein acreditava nele. É por isso que nem eu acredito em mim. Quem sabe assim dá certo! 5 - O futuro é um quebra-cabeça. Esqueça o pensamento sequencial, lógico, racional. Pense aleatoriamente. Dois mais dois pode dar quatro, mas não precisa deixar o segundo dois assim montado no primeiro. Deixe um pouquinho mais longe e o resultado é melhor: vinte e dois. 6 - Nem o porta-bandeira fica longe do bloco. Grandes ideias fracassaram por estarem muito à frente de seu tempo. Mantenha-se numa posição em que possa ser visto pelo mercado. Não siga este conselho se estiver devendo na praça. 7 - Se a macarronada for boa a gente até gosta da sogra. A resistência à mudança desaparece quando os benefícios são visíveis. Se as pessoas que você lidera não estiverem aceitando benefícios que são claros para você, o problema pode estar na sua comunicação. 8 - Devagar com o andor que o santo é de barro. Aquilo que você espera acontecer sempre demora mais do que você espera. Sua casa ainda não é no estilo Jetsons e seu carro ainda não voa. O videofone foi inventado há quarenta anos, mas foi só com a Internet que ele começou a fazer sentido. 9 - Quem resolve problemas ganha salário; quem explora oportunidades ganha comissão. Resolver problemas é trabalhar no ontem, mas buscar oportunidades é viver o amanhã. Uau! Esta eu vou emoldurar! 10 - Um é pouco, dois é bom, três é demais. Você só pode acrescentar um novo craque no time se tirar alguém ruim. Quando eu era menino, o professor de educação física me colocava no gol para completar onze. Depois me tirava quando chegava qualquer um. Na empresa não vai ser diferente. 11 - Não se esqueça da ecologia da tecnologia. Nem tente inventar um par de sapatos modelo único para todas as mulheres. A tecnologia possibilita muitas coisas, mas elas não farão sentido se não levarem em conta os anseios da natureza humana. Pronto, espero que estes onze “mindsets” ajudem você a se preparar para o futuro. Se não ajudarem, um eu tenho certeza de que irá ajudar. O “mindset zero”. * * * * * Ela, Robô Lá em casa tem um robô. Mas não é um robô chato, como o de Perdidos no Espaço, ou ameaçador como o “Eu, Robô” de Isaac Asimov que no filme ficou amigo do Will Smith. Nem é divertido, como a dupla C3PO e R2D2 de Guerra nas Estrelas. Meu robô é comum. É um robô fêmea. Sim, fêmea, mas chamá-la de “roboa” soaria estranho, por isso eu a chamo de “Ela, Robô”. Não tinha o “He-Man”, a “She-Ra” e a “Ella Fitzgerald”? Então “Ela Robô” também pode. Gorda, grande e barulhenta, “Ela” não faz o gênero futurista de Hollywood. Inteligência? Só se for artificial. Capacidade de memória? Esqueça. “Ela” perde feio para qualquer calculadora. “Ela” só serve para uma coisa: fazer o trabalho sujo. O curioso é que quem me convenceu a ter um robô foi um hippie. Verdade, um cara muito zen, vestido de um imaculado branco-algodão e com os cabelos bem cuidados, presos com uma fita atravessada na testa. Hippie de butique. Sua vidinha de fiscal de praia só era possível porque, além de morar numa praia, sua mulher trabalhava na prefeitura da cidadezinha litorânea. Enquanto isso ele ficava em casa cuidando das crianças. A mulher também era hippie, mas não estava hippie por trabalhar numa repartição pública. Você conhece algum hippie funcionário público? O sonho dela era largar o emprego e ser hippie de tempo integral no sítio do avô em Visconde de Mauá. Criar os filhos longe da influência nefasta do progresso e da TV do vizinho, que enchia a cabeça dos pequenos com as músicas do Balão Mágico. Sim, estamos falando aqui dos anos 1980. O casal não tinha TV, mas tinha um monte de filhos. Sem TV e com um controle apenas remoto, a taxa de natalidade do casal estava acima da média do IBOPE. De nossa conversa deduzi que o hippie só sabia fazer filhos e criticar o progresso. Enquanto conversávamos, minha filhinha, ainda bebê, dormia aninhada em meu colo. Fiquei curioso quando o hippie contou que, se quisessem, já poderiam se mudar para o sítio e viver bem só com a poupança da mulher. Era ele quem vinha adiando a mudança, pelo menos até as crianças deixarem as fraldas. Só depois pretendiam se mudar para o mato e viver comendo inhame e tomando banho gelado. Sim, pois no sítio não tinha chuveiro elétrico. Lá a eletricidade só chegava quando caía raio. Mas seu problema não estava em abrir mão do chuveiro elétrico. Ou refrigerador, liquidificador, batedeira e ferro de passar. Ele podia viver sem. Até o secador, amigão dos cabelos amarrados com fita, podia ser trocado pelo vento da Serra da Mantiqueira. Só um eletrodoméstico era essencial, só um! Eu estava louco para saber, e você deve estar também. – Cara... – o hippie começou a explicar naquela velocidade que hippie explica –, a mulher trabalha fora e eu fico o dia todo em casa com as crianças, sacou? Faço o rango, dou banho, lavo a roupa... Cara, você já lavou fraldas? Fiz que sim com a cabeça e sorri um sorriso paterno para o bebê que dormia em meu colo. – Cara, já viu os adesivos que esses carinhas são capazes de produzir? Fiz que sim outra vez, mas desta vez não sorri para o bebê em meu colo. Naquele tempo fralda descartável ainda era ficção científica orçamentária, e no sorteio das tarefas domésticas o azar era meu. Conhecia adesivos de diferentes cores, consistências e poder de aderência. – Pois é cara – o hippie falava de cara em cara –, sou capaz de abrir mão de tudo; luz elétrica, refrigerador... até o Jimi Hendrix eu aceito tocar na vitrola de pilha. Mas não mudo para o sítio com criança pequena sem meu robô. Fiz cara de quem não entendeu, porque não tinha entendido mesmo. – A máquina de lavar roupas, cara! É meu robozinho, não vivo sem ela! Naquele momento o bebê em meu colo gemeu e pareceu ter aumentado de peso e volume. Foi quando decidi ter um robô. * * * * * Lá fora é melhor Está mais que provado: brasileiro é melhor lá fora. Há anos venho observando isso aqui e lá. Deve ter algo a ver com aquela história de santo de casa não fazer milagre. Nem o santo quando está em casa acredita que pode fazer, então precisa sair para acabar fazendo. E faz. Às vezes é preciso sair do país para se valorizar e ser valorizado. Hoje milhares de brasileiros lá fora mandam dólares cá para dentro. Será que é porque encontraram melhores oportunidades no além-mar? Nem sempre. Alguns se sujeitaram a fazer lá o que teriam vergonha de fazer aqui. Como o engenheiro desempregado aqui que se sujeita a lavar privadas lá, até virar empresário de sucesso lá e investir aqui. Se o profissional parece acreditar mais em si quando sai do ninho, o mesmo acontece com quem o vê de fora. É o caso do técnico que aqui não é contratado nem para treinar time de futebol de botão de várzea. É só sair para treinar um timeco qualquer no exterior e sai na primeira página. Aqui teria que esperar a vida toda para sair no obituário de um canto de página. Palestrante também é assim. Sou convidado para falar em todo o país, mas posso contar em metade dos dedos da mão esquerda o número de vezes que falei em minha própria cidade. É compreensível. Espera-se do palestrante que traga novidades. Como alguém pode trazer novidades se sempre morou logo ali na esquina? O mesmo acontece com artistas, cientistas, produtos e empresas. Só damos valor ao que o Brasil tem bem debaixo do nosso nariz quando levamos o nariz para passear no exterior. Ao escolher o melhor jogo de toalhas numa loja nos EUA, sem perceber acabei comprando toalhas fabricadas em Santa Catarina. E já vi gente se gabando do sapato italiano comprado em Roma, sem saber que foi feito em Franca, no interior de São Paulo. Somos atraídos pelo que vem de fora, pelo incomum, pelo excêntrico. Quando jovem eu via garotos de fora, feios de dar dó, que faziam o maior sucesso nos bailes de minha cidade. Só por serem de fora as meninas os achavam mais interessantes do que os nativos. E veja que naquele tempo no Brasil ainda não havia festas de Halloween. Mas nenhuma experiência de valorização se compara ao encontro de brasileiros no exterior. Na fila de embarque em Londres, o americano que viajava comigo achou muita coincidência eu encontrar uma amiga bem ali, com quem conversei animadamente até entrarmos no avião. A verdade é que eu sequer a conhecia, só conversamos porque um viu a capa do passaporte do outro. Brasileiros são assim mesmo quando se encontram lá fora, amigos desde o descobrimento. Um casal da melhor idade, sentado dois bancos atrás de mim, em um voo de Lisboa a Barcelona, ficou eufórico depois de escutar eu falar “Brasil” sem “z” para o passageiro ao meu lado. Ouvi os gritos que vinham lá de trás: – Você é brasileiro? De onde? Para onde vai? Admirei-me do entusiasmo do casal, conversando animados por sobre as cabeças dos outros passageiros enquanto aguardávamos pelo desembarque no corredor do avião. No saguão do aeroporto conversamos mais um montão, trocamos endereços e nos despedimos. Deu para ver os olhos marejados daqueles queridos brasileiros depois do abraço apertado de despedida. Meses depois passei pela cidade onde moravam e decidi procurar pelo endereço. Toquei a campainha e o homem apareceu, surpreso, acenando da porta entreaberta e dizendo que era um prazer me ver de novo. Depois, pediu licença, se despediu e fechou a porta. Percebi que ele também achava que brasileiro era melhor lá fora. * * * * * Se oriente rapaz Bem que o Gil previu. Em 1972 ele já cantava o “Oriente”. Tudo bem que então ele só pensou no Japão e nem imaginou que o negócio da China seria a própria. Afinal, ela só acordou depois de o sol nascer na terra do sol nascente. Agora somos nós que acordamos. No ano em que Gil orientava para o Oriente, fui viver no mais ocidental Ocidente, numa típica família americana – ele “made in USA”, ela na América Central. Apesar de não ser a China, o contato alienígena me ensinou que é importante aprender a língua. Agora oriento os mais jovens para que aprendam chinês – ou mandarim, se achar mais fácil. Se eu sei? Nadinha. De China sou zero à esquerda, apesar de meu primeiro radinho de infância ter sido um Mitsubishi. A Mitsubishi é japonesa? Eu avisei, sou zero à esquerda. Mas se quiser negociar e vender na China aprenda a língua. Como assim? Vender o quê? Ora, qualquer coisa que eles ainda não vendam aqui! Ok, esqueça este argumento. Vou tentar outro. Um país com mais de 20% da população mundial deve querer comprar alguma coisa. Mais de um bilhão de pessoas! Um mercado com gente que não acaba mais. Pílulas anticoncepcionais? Isso eles já têm. Quando as estatísticas apontavam que a cada segundo uma chinesa dava à luz uma criança, alguém sugeriu que encontrassem essa mulher e a fizessem parar. Não encontraram. Então impuseram o limite de uma gestação por casal. Olha aí uma oportunidade de negócio: vender sofás de três lugares para essas famílias. Mas produza alguns de quatro, porque as autoridades ainda não conseguiram resolver a questão dos gêmeos. Outra ideia? Vá para a China vender tratamento para LER, a Lesão por Esforço Repetitivo. Se existe mercado para isso? Oras, se aqui o pessoal já sofre com um alfabeto de 23 letras imagine o que é digitar num teclado com mais de seis mil caracteres! Entenda, porém, que começar um negócio lá exige paciência. O povo chinês é assim. Outro dia ouvi um locutor noticiar: “O embaixador chinês demonstrou impaciência com a demora da resolução tal e tal”. Esse locutor está por fora. Já viu chinês impaciente? Por ser brasileiro, você pode até perder a paciência de vez em quando lá na China. Só não solte os cachorros e nem diga cobras e lagartos em algum restaurante chinês. O garçom pode perguntar se vai querer frito ou cozido. Minha orientação? Aprenda a língua para proteger seu paladar. Sei disso porque me dei mal nos EUA vivendo numa família norte-americana como estudante de intercâmbio que não fez a lição de inglês em casa. Adolescente e obediente, durante um mês engoli de breakfast aquelas panquecas doces e meladas. Um mês foi o tempo que levei para aprender e dizer “I hate pancakes!”. – Como pode detestar se comeu todo esse tempo e nunca disse nada? – perguntou a mother de lá, em inglês curto e grosso. A conversa morreu ali por absoluta falta de vocabulário. Comi panquecas todos os dias por mais cinco meses até voltar ao Brasil. Desde então oriento quem quiser se aventurar pelo Oriente, de avião ou, como sugere o Gil, “num cargueiro do Lloyd lavando o porão”: Aprenda a língua! * * * * * Sou mineiro Sou mineiro. Não do tipo nascido nas Gerais, matuto e matreiro. Também não sou do tipo que invade as entranhas da terra ou peneira rios em busca de estranhos tesouros. Mas tenho um pouco de cada: do mineiro que matuta e do mineiro de bateia. Desde criança sou assim, explorador de veios do cérebro e minas do pensamento, sempre errante nas galerias das fantasias. Até a mãe e a professora conheciam meu olhar vidrado. Nem adiantava chamar, que suas vozes só iriam ecoar sob a crosta craniana. Eu vivia em permanente viagem ao centro da terra dos pensamentos. Era para lá que ia, é para lá que vou quando quero encontrar a pepita dourada de uma ideia brilhante. Ao contrário do mineiro de verdade, vou com a lanterna do capacete virada para a testa e vou quietinho. Como faz o mineirinho. Não sei se é personalidade ou consequência de minha imensa falta de memória, uma vaga do tamanho de um elefante. Sou esquecido demais, por isso nunca me dei bem decorando. Tem gente que bebe para esquecer. Eu decoro. Esqueci de me preocupar quando descobri que minha falta de memória era o que lapidava minha criatividade. Se não consigo lembrar, o jeito é reinventar. Mitomaníaco? Acho que não. O mitomaníaco inventa e acha que é real. Eu, ao contrário, tenho certeza. Li um artigo que explicava que não gravamos as coisas na memória como um texto grava no computador, o qual você puxa e ele vem do jeitinho que você guardou. Se fosse assim conosco, já pensou que fossa seria? Lembrar-se de alguém que partiu sentindo a mesma dor que sentiu? O que a gente faz mesmo é recriar. Um pouquinho do que aconteceu, uma pincelada do que veio depois, uma pitada de criatividade aqui, uma opinião alheia colada ali... Pronto! O quadro que você pinta agora tem mais tintas e é mais belo e real que a própria realidade de outrora. É este o segredo do sorriso de Mona Lisa. Freud explicava que era por causa de uma atração erótica de Da Vinci pela mãe, mas nem tudo Freud explica. Prefiro a explicação do filme “O Falcão Está à Solta”, com Bruce Willis. Se valer a cena do ateliê de Leonardo, Mona Lisa não era assim. No filme, a Mona Lisa do passado sorri um sorriso cariado. No quadro ela esconde sua triste realidade sob seu sorriso enigmático pintado. Toda criatividade é uma viagem ao reino do faz de conta, trazendo de lá coisas que poderão ou não se tornar reais. Quem cria curte mais a viagem do que a bagagem, daí inconsequência e arte andarem sempre de mãos dadas. Para o criativo, o valor não é medido em cifrões tangíveis, mas em sensações nem sempre mensuráveis. Dentre os efeitos colaterais da criatividade está a alienação, considerada boa por alguns, mas por outros não. Há pessoas que têm pavio curto. O que tenho de curto é o fio da tomada da realidade. É só entrar na mina dos meus pensamentos que o fio estica e se desliga da tomada da superfície. Isso é bom? Isso é ótimo. Mas nem sempre. É perigoso viajar desligado. Tem gente que dorme dirigindo, eu dirigindo viajo. Bastam alguns quilômetros de asfalto para meu carro começar a ranger sob toneladas de ideias extraídas da rocha cinzenta encravada nas profundas das minas do pensamento. Viajo pensando e penso viajando. Às vezes consigo anotar ideias sem sentido em um papel qualquer, ou tento ditar para um gravador digital o resultado mental que não quero esquecer. Mas, quando a viagem é interessante demais e o elevador dos pensamentos desce a profundidades em que homem algum jamais chegou, perco o interesse pelo real e acabo entretido pelo imaginário. Foi num estado assim, entorpecido pela narcose que bamboleia mineiros e mergulhadores, que parei num pedágio na estrada. Foi tudo muito rápido e nem sei se o cobrador percebeu quando abri o vidro e apontei o controle remoto do portão de minha garagem em direção ao seu nariz, mas a cancela não abriu. Voltei depressa à superfície disfarçando que procurava pela carteira. * * * * * Humor líquido Todas as noites repito um mesmo ritual de ervas e sangue da terra. Nada macabro ou vampiresco. Meu ritual resume-se a um prato de salada e um cálice de vinho, que Plínio chamava de “sangue da terra” e Eurípides dizia servir “para acalmar as fadigas”. É minha recarga de bateria no fim do dia. Mas não culpe o álcool se achar que escrevo por mal traçadas linhas. Nunca passa de um cálice, e sempre vinho, jamais bebida destilada. O vinho é vivo, envelhece; é como um gênio da garrafa, que atende os desejos do meu paladar quando liberto. Galileu Galilei dizia que o vinho é feito de “humor líquido e luz”. Não há nada melhor para acompanhar uma salada fresca, leve e contente, e tem a vantagem de conter antioxidantes. Não me pergunte o que é e porque de repente todo mundo ficou contra os oxidantes, mas acho que o vinho serve para desenferrujar. Li que combatem os radicais livres. Eu também odeio radicalismos. Morte aos radicais! Antioxidante virou moda. Uma hora é o vinho que é bom, outra hora é o café, dependendo do jabá pago pelos fabricantes aos jornais, ou do lobby nos laboratórios de pesquisa. Ontem na TV disseram que adoçantes artificiais engordam. Quase pude ver o doce sorriso dos usineiros. Mas antioxidante deve funcionar mesmo, pois faz tempo que não vejo uma ruiva. E a lista não para no vinho ou café. Têm o chá verde, que saiu do esquecimento do armário, e seu irmão mais novo, o chá branco, que comprei e de branco não tem nada. Mesmo assim procuro tomar, principalmente depois que descobri que meu plano de saúde agora é “Pré-Idoso”. Uma tremenda mancada da área de comunicação da empresa, que devia dar nomes mais motivacionais aos planos. Para mim “Super Sênior” ficaria de bom tamanho. Faz tempo que os laboratórios farmacêuticos perceberam a importância do nome. Por exemplo, descobri que o Ômega-3 que agora eu tomo eu já tomava na infância, quando minha mãe me fazia engolir as intragáveis colheradas de “Óleo de Fígado de Bacalhau” ou “Emulsão Scott”. Eu tomava a contragosto, só porque ela dizia que eu ficaria forte como o homem do rótulo, que carregava um bacalhau nas costas. Mas se chamasse Ômega-3 eu teria tomado com prazer. Que garoto não tomaria um troço com nome de espaçonave? Voltando ao remédio que acompanha minha salada, não entendo de vinho, por isso posso beber o tinto sem ficar vermelho. Mas os entendidos mandam o branco para acompanhar saladas. O que fazer? O jeito é não convidar entendidos para o jantar. Alguns são chatos demais. Quer ver? Uns amigos fizeram um jantar e convidaram um connoisseur, que é como os entendidos gostam de ser chamados. Começou torcendo o nariz quando viu o rótulo da garrafa. – Nacional... – pensou em voz alta, pegando o cálice pela base e enfiando o nariz torcido nele. Todos pensaram que ele queria beber de canudinho usando as narinas, mas era só para cheirar. Depois deixou o vinho tonto de tanto rodopiar o cálice erguido contra a luz. Não fez cara boa. Tomou um gole e... parou. Não engoliu enquanto o vinho não cumprimentou cada uma de suas dez mil papilas gustativas. Aquilo não era vinho, era político em velório em véspera de eleição. Após um discreto bochecho, engoliu e começou a produzir uns estalidos estranhos, enquanto o laboratório de análises clínicas de seu cérebro destrinchava o sabor. Aí veio a melhor parte. Se você convidar um connoisseur para jantar, aproveite esta parte dos adjetivos. Esqueça a uva. Ele vai dizer que o vinho tem um bouquet misto de pimentão e ameixa. Vai falar do corpo, insinuar que é adamado, aveludado ou untuoso. Se disser que é chato, sápido ou foxado, não se preocupe. Não é contagioso. Enquanto a comida esfriava, o connoisseur viajava no vinho e os comensais babavam na maionese. De repente saiu de seu transe e deu o veredito. Curto e grosso. Mais grosso do que curto, em se tratando de um convidado que devia ser mais delicado. – Deixa a desejar. Os importados são melhores. – sentenciou com olhar de desdém. O anfitrião não se fez de rogado. Correu para a cozinha e logo apareceu com uma garrafa de vinho francês, dos caros. Só o rótulo já iluminou os olhos do connoisseur. Enquanto os outros decidiam meter o garfo na comida fria antes que ficasse gelada, o connoisseur recomeçou seu ritual de degustação. Nariz no cálice, rodopiada, bochecho, estalidos e adjetivos, tudo igual. Então veio um sorriso do mais puro êxtase: – Grand vin! Magnifique! – arriscou em francês, para combinar com o rótulo. O anfitrião ficou tinto de tanto rir. – Que magnífico o quê, cara? Peguei uma garrafa vazia e enchi de vinho de garrafão. – Então deu sorte. É uma boa safra. – concluiu o connoisseur sem perder a fleuma. * * * * * Máquina sinistra Nasci na era das máquinas. Quem lê vai achar que sou moderno, mas é de máquina de escrever que estou falando. Pertenço a uma geração que só conseguia emprego decente se soubesse datilografar., de preferência usando os dez dedos e sem olhar. O sujeito podia até ser analfabeto, mas se tivesse datilografia era contratado. A máquina de escrever reinava absoluta nos escritórios e sua batucada só eventualmente era descompassada pelo girar da manivela de alguma máquina de calcular. Sim, as máquinas de calcular tinham manivela, como nos carros antigos. Acho que servia para dar partida em seu cérebro mecânico. Eu era adolescente quando aprendi datilografia em um colégio norte-americano. Era estudante de intercâmbio e aprendi a datilografar só em inglês, por isso até hoje preciso olhar para as teclas na hora dos acentos. Também faltei na aula dos números, daí minha maior familiaridade com as letras. Já crescido, fiz vários trabalhos de tradução usando uma máquina de escrever portátil, o equivalente dos atuais notebooks. Se era rápida? Muito. Não parava quieta na escrivaninha. Levíssima, a maquininha deslizava de um lado para o outro enquanto meus dedos trotavam perseguindo suas teclas. Como não existia a tecla do arrependimento, que hoje chamamos de “Delete”, às vezes eu tinha de datilografar o documento inteiro de novo só para entregá-lo sem rasuras. Também era comum eu achar que o texto estava bom do jeito medíocre que saiu na primeira tentativa, só para evitar escrever tudo de novo e tropeçar na última palavra. Muitos dos grandes romances daquela época teriam outro desfecho se fossem escritos em um computador com processador de textos. A geração mais nova pode achar que no tempo da máquina de escrever a vida era complicada. Não era. Complicada mesmo ficou depois, quando apareceu aquele objeto estranho nas mesas de algumas empresas: o computador pessoal. Quando dizem que os computadores causaram uma revolução, eu concordo. Éramos nós contra eles. Qualquer pessoa da minha idade sabe o que é sentir pavor diante da novidade. Minha geração só descobriu que a convivência seria possível quando começou a tratar o computador como se fosse mulher. Era só não tentar entender como funcionava que tudo dava certo, com a vantagem de se poder clicar “Mute” no ícone do alto-falante e um botão para ligar e desligar a máquina quando necessário. A chegada do computador na empresa era sempre cercada de descrédito, piadas e risadas nervosas, como as pessoas costumam fazer em velórios e momentos de profundo estresse e medo. Em algumas empresas ocorriam manifestações, revoltas ou bolsões de resistência. Sim, porque o que não faltava eram as teorias conspiratórias. Uma era que os jogos que vinham de brinde serviam para distrair os usuários enquanto os computadores tomavam seus empregos. Seriam a versão moderna dos espelhinhos e contas que os colonizadores davam aos índios para distraí-los e tomar suas terras. Como se não bastasse a dificuldade de ser tudo em inglês, os computadores despertavam também suspeitas das mais sinistras. Alguns acreditavam existir um poder oculto por detrás do cursor, prova inequívoca de um batimento cardíaco, e uma câmara secreta para onde eram levados presos os documentos que desapareciam misteriosamente quando faltava luz. Tudo isso preocupou um amigo quando comprou um dos primeiros computadores que desembarcaram aqui. Era um Apple que custava quase o preço de um carro. Meu amigo examinou com cuidado o que vinha na caixa e ligou apavorado: – Não estou gostando nada disso... tem um disquete aqui que não parece ser coisa boa... tenho medo de usar... – O que diz a etiqueta? – Demo! * * * * * Minha bicicleta high-tech Quando vi pela primeira vez aquele tudo-em-um do iPhone, fiquei com um pé atrás. Será que me acostumo com esse negócio de cineminha e telefone no mesmo aparelho? Se existe uma coisa que detesto é telefone tocando no meio do filme. Você já correu atender um telefone que tocou no filme da TV? Eu também. Outra coisa me preocupa. Quando todo mundo tiver um iPhone, vai ficar todo mundo igual, como aconteceu com o iPod e seu fonezinho branco. Massificou. Com o iPhone ninguém mais será diferente. Além disso, o que fazer com aquele monte de apetrechos que hoje carrego? Sim, minha coleção só aumenta! Tenho um celular básico, Palm, câmera fotográfica, filmadora, gravador de mp3, pen drive... Você precisa ver a inveja que causa espalhar tudo isso sobre a mesa numa reunião. Com um iPhone eu não causaria o mesmo impacto. Tudo bem que não estou mais na idade de querer impressionar, mas e a garotada? Como um garoto vai se diferenciar se todos os garotos forem iguais? No meu tempo eu teria odiado se fizessem isso com as bicicletas. Naquela época as magrelas vinham peladas e a diversão era enchê-las de penduricalhos. A minha era uma Phillips, do tempo da 2ª Guerra, mas não era preta como a maioria das bicicletas da época. Meu pai mandou pintá-la de vermelho para minha irmã. Ela se cansou de pedalar e eu herdei a dita. Bicicleta vermelha, de mulher e sem aquela barra horizontal masculina – dá pra imaginar? Era sair de casa e atrair a gozação da garotada. Por isso passei a gastar a mesada em acessórios para deixar a bicicleta tão diferente que os meninos se esquecessem de que era de mulher. Comecei com a campainha que fazia "trrrim-trrrim". Depois foram os canudinhos de plástico coloridos, cortados em pedacinhos e pacientemente colocados nos 72 raios das rodas. Faziam "shek-shek". O garfo dianteiro ganhou um pedaço de radiografia que lambia os raios e fazia "Prrrréééé", igual ao da motocicleta Java do vizinho. Pelo menos eu achava. "Prrrréééé", "shek-shek", "trrrim-trrrim", "biii-biii!". Não falei do "biii-biii"? Pois é, foi minha próxima aquisição: uma buzina verde movida a pilha que fazia inveja à campainha do outro lado do guidão, junto ao retrovisor. Depois veio o farol com dínamo, todo cromado, que parecia a nave do Flash Gordon. Minha bicicleta ficava cada vez mais high-tech. Minha volúpia por acessórios não parou aí. Manoplas de borracha com fitinhas coloridas e uma caixinha de ferramentas pendurada atrás do selim vieram em seguida. A cada novo acessório os garotos cercavam minha bicicleta na escola para comentar e invejar. Meu conceito subia. Quase me esqueci da capa do selim com o símbolo do Palmeiras. Não que eu fosse torcedor, apenas comprei porque combinava com a buzina. A capa era a última palavra em cafonice, com apliques de purpurina e pingentes de cordão de seda. Os palmeirenses pensavam que eu era fã e os corintianos achavam o contrário. Que fã iria pedalar com o símbolo do clube naquele lugar? Naquele tempo não havia duas bicicletas iguais, pois o mau gosto dos meninos era bem eclético. Na época, comprar algo com tudo instalado, como o iPhone, seria como comprar um álbum com as figurinhas já coladas. Cadê a graça? Cadê a surpresa? Como se gabar de ter a figurinha do Amarildo, da Seleção de 62, que ninguém tinha? Agora imagine tudo num aparelhinho só: música, fotos, filmes, celular, câmera, Web, e-mails, mapas... É claro que estou falando da garotada, que quer ser diferente. Para alguém como eu, que não pedala e nem coleciona figurinhas, um iPhone pode até interessar. Vou poder ver um filme, enquanto filmo outro, ouço bossa-nova, ligo para os amigos, navego na Web, leio meus e-mails e dirijo procurando o endereço no mapa on-line. Não contei que estava dirigindo? Melhor não... Mas ainda estou em dúvida se devo ou não comprar um iPhone. É que para mim não ficou claro uma coisa: se o meu iPhone tocar no meio do filme que estou assistindo no próprio iPhone, quem deve atender? Eu ou o ator? * * * * * Alter ego virtual A família inteira correu para o computador, quando uma voz nada familiar invadiu o mezanino da casa onde morávamos. Estávamos em 1997 e eu acabara de fazer minha primeira conexão de voz usando um programinha paleolítico que veio num disquete de revista. Naquele tempo os programas de Internet eram baixados das bancas. A conexão estava por um fio e qualquer solavanco era capaz de derrubá-la. Quando caía, era preciso ficar discando para o provedor de Internet até conseguir linha e ouvir o teré-té-té do modem, cuja embalagem dizia ser “High Speed”. – Hello? – arrisquei, sem saber com que língua o outro teclava. – Hi, how are you? – respondeu a voz alienígena dando início a um papo furado que iria durar mais de uma hora. Dez anos depois interagir online com pessoas de outros lugares tinha virado lugar comum. Então alguém inventou uma mescla de game "Wolfenstein 3D" com shopping, clube de campo e danceteria e batizou aquilo de "Second Life". O serviço prometia a possibilidade de você ser uma pessoa diferente em outro mundo, enquanto interagia com pessoas que não eram o que diziam ser neste mundo. Em 2007 decidi experimentar a tal da segunda vida. Digitei www.secondlife.com e tentei criar meu Avatar – era assim que chamavam o bonequinho mal acabado que devia ser a segunda via de mim. Logo descobri que eu não poderia ser eu mesmo. Podia ser “Mario”, mas não “Persona”, já que era obrigado a escolher o sobrenome de uma lista que não tinha o meu. Tinha "Pessoa", então decidi ser “Mario Pessoa”. Num mundo virtual em inglês eu virei português! Mesmo assim fui barrado. Alguém tinha escolhido ser eu antes de mim. Voltei para as opções de sobrenome e encontrei um muito estranho: “Falta”. Na falta da opção de usar meu próprio nome e sobrenome, digitei “Achei” no campo do nome e escolhi “Falta” por sobrenome. Beleza, no "Second Life" eu sou o “Achei Falta”. Nem preciso dizer que o nome estava disponível. Clica aqui, clica ali, e no campo da data de nascimento, o exemplo dado era “1980”. Será que nascidos em 1955 eram velhos demais para brincarem? Fiz de conta que não entendi e escolhi um Avatar nada parecido comigo, por absoluta falta de modelos velhos e barrigudos. Eram todos jovens e sarados. Cliquei que tinha lido o contrato que não li, e baixei 30Mb de programa... só para receber um aviso de que minha placa de vídeo era incompatível! Para quem nasceu em 1955 e tem uma placa de vídeo igual à minha, pelo jeito a opção é assistir desenho animado em parede de caverna. Depois dos sem-terra e sem-teto, descobri que havia os sem-second-life. Eu era um deles. Achei que não valia a pena investir numa segunda placa só para ter uma segunda vida, então comecei a pesquisar sobre como seria viver naquele mundo do faz-de-conta. Seus mais de cinco milhões de habitantes na época podiam comprar, vender, dançar e viver lá como nunca viviam aqui. Seria uma opção para os frustrados? Os mais empolgados podiam até pagar aqui, em dinheiro real, por terrenos virtuais comprados lá, onde não existe IPTU. Considerando que consegui criar meu Avatar, mas não consegui entrar naquele mundo virtual, uma coisa me preocupa: Onde andará meu segundo eu? E mais: Como posso ser eu se não posso estar onde estou? Será que virei uma alma penada num limbo virtual? Enquanto escrevo vem a notícia de que o "Second Life" demitiu 30% de sua equipe. Talvez fosse a chance de eu me encontrar comigo aqui fora, mas descobri que só demitiram personagens reais, nenhum virtual. Anos depois o “Achei Falta” deve estar sentindo muita falta de mim. Ou não. Para matar a fome de interatividade virtual vou quebrando o galho com o Skype, tataraneto daquele programinha que fez a família inteira ficar grudada no micro numa noite qualquer de 1997. Naquela experiência eletrizante, eu e meu interlocutor não passávamos de nicknames, mas o papo rolou legal. A coisa só perdeu a graça quando fiz a pergunta que deveria ter feito logo de início, antes de passar mais de uma hora conversando em inglês: – Where are you from? – São José dos Campos – respondeu ele. * * * * * Upgrade Finalmente vou fazer um upgrade de meu micro. Bem, não é realmente um upgrade para algo mais moderno, mas para o que já foi moderno. Como sou pai de um profissional de TI, minhas atualizações geralmente ocorrem quando meu filho também faz upgrade. Acabo comprando o equipamento que ele adquiriu meia hora atrás. Profissionais de TI como meu filho adoram comprar o que alguém ainda vai pensar em fabricar. São pessoas à frente de sua época, e eu faço negócio mesmo assim porque não me importo de estar um pouquinho atrás. Afinal de contas, minha atividade não exige tanta potência de hardware. Para quem é escritor, o gargalo está na velocidade de digitação, não na velocidade da máquina. Além disso, não é de hoje que utilizo equipamentos abandonados, aposentados ou reciclados. Meu primeiro micro foi um TK-85 que nem era meu. Peguei emprestado de meu sobrinho para debutar nas novas tecnologias. Tudo bem que naquela época o TK-85 já era peça de museu, mas eu precisava começar de algum lugar. Comecei por ali. As revistas de informática, também velhas e emprestadas, traziam capas com batalhas espaciais cinematográficas. Mas, após passar horas digitando aquele monte de linhas de código para o jogo prometido na capa, tudo o que eu via na tela era um asterisco perseguindo um acento circunflexo com tiros de pontos de exclamação. Enxergar naquilo uma cena de Guerra nas Estrelas, só mesmo com um monitor de alta imaginação. Por não ter como salvar, o jogo ia literalmente para o espaço quando o micro era desligado. Devolvi o TK-85 e peguei emprestado um TK-2000 com gravador de fita cassete. Fiquei extasiado com aquela impressionante tecnologia de gravar dados em fitas. Meu êxtase durou pouco tempo. Tem gente que ouve zumbido nos ouvidos, mas eu até hoje ouço aquele “té-ré-té-té” que tocava no gravador na hora de carregar o programinha. Isso quando não aparecia uma pavorosa mensagem de “Erro de I/O”. O que significava I/O? Sei lá, devia ser algo como “Incompetência do Operador”. De qualquer forma era emocionante ver a família inteira reunida em torno do gravador torcendo. Quando o computador conseguia finalmente ler o programa, era uma explosão de gritos e aplausos. Já saíamos jogando em clima de gol, depois de esperar pelo menos dois tempos de 45 minutos com direito a um intervalo para limpeza do cabeçote do gravador com um cotonete. Devolvi o TK-2000 quando chegou a conta dos cotonetes. Cansado daquilo tudo, comprei um computador MSX usado que tinha até disk drive. Para dar uma aparência profissional ao conjunto, improvisei um monitor de fósforo verde com uma velha TV preto e branco e um papel celofane verde colado sobre a tela. Para ficar perfeito, molhei o vidro com água e sabão na hora de esticar o papel. Gostei tanto da coisa que não parei mais. Sobre minha mesa desfilaram equipamentos que hoje dariam para encher um museu – Apple II, XT, 386, 486, 586, Pentium e nem sei mais o quê. Depois de tantas madrugadas passadas em claro tentando configurar algum penduricalho no micro, acabei fã de quem inventou o plug-and-play. Se você já tentou instalar um scanner de mão preto e branco sabe o que eu quero dizer. Para ter sucesso era preciso desmontar o micro, encaixar uma placa enorme, configurar mil jumpers (onde será que caiu aquela pecinha?), e ainda quebrar a cabeça com os conflitos de IRQ. O que significa IRQ? Você acreditaria se eu disser que são as iniciais de “Incompetência Real de um Quadrúpede”? Aos trancos e barrancos fui aprendendo que a tecnologia é uma grande aliada de quem trabalha e quer manter sua carreira em permanente upgrade. Hoje utilizo tudo o que posso para trabalhar de uma forma que seria impossível no passado. Quando viajo, levo comigo um pequeno arsenal que, junto com a Internet, transforma qualquer quarto de hotel em um escritório funcional. Mas não basta ter tecnologia, é preciso saber usá-la corretamente para não se envolver em incidentes comprometedores, como o que aconteceu com um palestrante em um evento empresarial. A empresa que me contratou contou da situação constrangedora que ele criou. Com a maior pose de homem sério, o palestrante subiu ao palco munido apenas de seu pendrive, onde devia estar sua apresentação em Power-Point. Sim, ela estava lá, mas ele não levou em conta três coisas extremamente importantes. Primeiro, que não se deveria guardar tantos arquivos em seu pendrive, pois demorou um tempão indo de um lado para outro tentando encontrar sua apresentação. Segundo, que jamais deveria ficar de costas para o telão com o projetor ligado enquanto procurava o arquivo correto isso. Terceiro, que o gerenciador de arquivos nunca deveria estar em modo “Miniaturas”, pois quando projetadas num telão, as miniaturas ficam realmente grandes. Quarto, que deveria ter um pendrive para seus arquivos privados e outro só para suas palestras públicas. Foi por ignorar tudo isso, e principalmente por não perceber que o técnico já havia jogado para o telão a imagem do computador, que a plateia teve a oportunidade de conhecer a coleção de fotos eróticas que aquele distinto palestrante guardava em seu pendrive. * * * * * Para preservar a imagem Pergunte a uma mulher sua idade e ela irá odiá-lo. Não importa a idade. Se for jovem demais, a pergunta vai soar como se ela não tivesse idade suficiente para atravessar a rua sozinha ou ficar acordada depois das dez. Se for, digamos, mais madura, vai ser obrigada a mentir. Sim, mulheres mentem a idade para preservar a imagem. E não é só a idade. Li em algum lugar que um grande problema enfrentado pelos sites de e-commerce de roupas femininas é o volume de trocas por tamanhos maiores. Não que a demora na entrega faça a cliente engordar, mas a razão é que muitas mulheres mentem na hora de digitar suas medidas. Estão preocupadas com sua imagem e com o que o site de e-commerce irá pensar. Já para os homens, a idade parece não afetar a imagem. Não sei se a explicação que ouvi de uma mulher é correta, mas ela afirmava que os homens não perdem o charme ainda que revelem sua idade real. Ou será que ela disse “ainda que revelem sua idade em reais?”. Já não tenho certeza... Mas pode ser, já que, para o homem, preservar a imagem é preservar sua força e virilidade, que eventualmente podem ser substituídas por poder e sucesso financeiro quando o cabelo se vai e a barriga só vem. De qualquer modo, ninguém pode negar que as mulheres são mais preocupadas que os homens com o envelhecimento e a aparência. A moda parece cobrar isso delas a cada tendência que desfila nas passarelas em cabides cada vez mais precoces e esquálidos. Uma hora é a saia que sobe, e toca as mulheres cuidarem das pernas. Outra hora é o decote que desce, e elas passam a ser avaliadas em mililitros. Aí vem a moda da barriga de fora, e então não é o volume que conta, mas a falta dele. A conversa feminina também é diferente da masculina quando o assunto é aparência. É perfeitamente natural você encontrar uma mulher elogiando a roupa de outra, perguntando onde comprou aquela bolsa, ou até acariciando o tecido do vestido da amiga para sentir a maciez. Ninguém se espantará se ela der uma mexidinha no cabelo da outra para testar o volume ou uma cheiradinha em seu pescoço para conferir o perfume. Se você for homem, tente fazer isso com um amigo para ver o que acontece. Quando caminham pela calçada homens e mulheres também têm comportamentos diferentes. Ambos olham para os carros, mas não pela mesma razão. Os homens param quando veem um modelo novo, importado ou bem equipado. Já as mulheres olham enquanto caminham e não ligam para modelos ou acessórios. Olham apenas para os vidros laterais. A calçada é sua passarela e os vidros dos carros estacionados formam uma sucessão de espelhos que podem até fazer emagrecer, dependendo do ângulo e da inclinação. Nos banheiros públicos o comportamento também difere radicalmente. Enquanto as mulheres não têm qualquer dificuldade para fazer amizades, conversar e até trocar confidências, homens adoram encontrar um banheiro vazio e silencioso. Para não deixar dúvidas quanto à sua imagem, eles evitam qualquer conversa, contato visual ou atitude que chame a atenção. Querem entrar incógnitos, permanecer despercebidos e saírem anônimos. Foi por isso que me senti a pessoa mais feliz do mundo quando consegui dar uma escapada da mesa do restaurante e encontrei o banheiro vazio, só para mim. Comigo à mesa estavam os organizadores do evento no qual eu faria uma palestra após o almoço, além de autoridades, políticos e empresários da cidade. No banheiro eu estava só, porém cercado de tecnologia. Percebi isso assim que a luz se acendeu automaticamente quando entrei, seguida do ruído do exaustor. A torneira da pia também abria sozinha com a aproximação da mão, e a toalha de papel descia do mesmo jeito. Até a descarga da privada era acionada assim. Sentado ali, no silêncio daquele banheiro, me esqueci do tempo. E do timer que controlava a lâmpada no teto, que se apagou segundos depois de eu me sentar na privada. Imerso na escuridão do banheiro sem janelas, abri a portinhola e caminhei até o ponto que eu achava ser o centro do banheiro, meio agachado, e segurando as calças na altura dos joelhos com uma mão. Com a outra passei a acenar para o sensor de movimento que eu calculava estar no teto, bem sobre a porta de entrada. Quando a luz acendeu, me dei conta da besteira que estava fazendo. Afinal, tinha uma imagem a zelar. Voltei correndo, de ré, para a privada, fechei a portinhola e, quando a luz apagou continuei no escuro mesmo. Não pretendia colocar em risco minha imagem. Afinal, o que alguém que entrasse iria pensar de um palestrante agachado no centro do banheiro, com as calças nos joelhos e dando tchauzinho para o teto? * * * * * Maravilha tecnológica O voo é tranquilo e logo pousaremos em Chapecó. Tento imaginar se lá fora eu congelaria antes de inchar. É que poucos milímetros de alumínio me separaram de uma temperatura de 50 graus negativos, e a falta de pressão a onze mil metros de altura me faria inchar como um balão. Olho para minha barriga e chego a duvidar que seja possível ficar maior. Só sobrevivo naquele ambiente hostil, voando a 800 quilômetros por hora, por causa da tecnologia. Quando meus pais se casaram, viajaram de lua-de-mel para o Rio em um Douglas DC3 com 23 passageiros. O Boeing no qual viajo leva seis vezes mais gente, pesa cinco vezes mais e voa três vezes mais rápido. Uma maravilha tecnológica. Lá na cabine o piloto tem um joystick no lugar do manche. Espero que ele se lembre de que está em um avião real e ninguém ali está querendo passar de fase. De qualquer modo posso descansar, pois a tecnologia nos deu também o piloto automático, de precisão absoluta. Aliás, em um voo que fiz de Roma a Londres, o percurso inteiro foi feito pelo piloto automático. Como eu sei? O piloto italiano ficou conversando com os passageiros pelo interfone a viagem inteira. Você acha que um italiano falando daquele jeito teria mãos para pilotar? O avião evoluiu tanto que eu poderia até trabalhar durante a viagem. Isto se conseguisse abrir meu notebook no espaço que a companhia deixou entre as poltronas. Às vezes penso que a redução das refeições de bordo tenha algo a ver com esse espaço. Ficou tão apertado, que na mesinha só cabe um biscoito cream-cracker. Em pé. Observo tudo. O botão para chamar a comissária, o furinho da saída do ar condicionado, a luz de leitura, o fecho da mesinha, e até decorei a propaganda no paninho do encosto para a cabeça da poltrona da frente. Que arrependimento! Eu devia ter comprado aquela revista. Chegamos a Chapecó e as comissárias passam a dar os avisos de apertar cintos, desligar aparelhos eletrônicos e coisa e tal. Olho pela janelinha e só vejo nuvens. Que coisa incrível a tecnologia! O piloto sabe que Chapecó está logo ali e vai acertar a pista com uma precisão milimétrica. Invadimos a nuvem entrando em um mundo branco e cego de neblina, enquanto acompanho a sequência de sons que já decorei depois de tantos voos. Ruído de flaps, o trem de pouso descendo, a turbina acelerando e reduzindo, como se calculasse a distância exata para alcançar a pista. Agora só falta sentir o toque das rodas no cimento. Mas o piloto arremete no último instante. Por uma brecha na neblina vejo que onde deveria existir uma pista só há copas de árvores. Quase pousamos antes da pista. O piloto avisa que precisou arremeter por causa da pouca visibilidade. Tento imaginar a cena na cabine: uma comissária abanando o piloto e o copiloto enquanto outra traz um copo de água com açúcar para cada um. Recomeçam os avisos de apertar cintos e lá vamos nós para uma segunda tentativa. Pela brecha de nuvens consigo ver o suficiente para perceber que aquilo é o fim da pista, não o começo. Nova arremetida. Se eu não soubesse que o aeroporto de Chapecó se encontra firmemente ancorado no topo de uma montanha, poderia jurar que a pista está se movimentando, tentando nos evitar. Ofegante, o piloto avisa que sobrevoaremos Chapecó até a visibilidade melhorar, caso contrário pousaremos em Florianópolis. Ele diz que temos combustível suficiente para quarenta minutos rodando ali e para a viagem até Florianópolis. Como sei que no caminho não há postos com frentistas em altitude de cruzeiro, pergunto ao rapaz ao lado: – E se o aeroporto de Florianópolis estiver fechado? Ele não responde, está lendo um jornal. A princípio penso que o rapaz seja mal educado, mas logo percebo que o jornal está de cabeça para baixo. Mesmo assim ele tem os olhos grudados nele e as unhas cravadas no papel. Quarenta minutos mais tarde o tempo melhora e lá vem a voz do comandante outra vez: – Senhores passageiros, estamos prontos para pousar. Dentro de alguns minutos estaremos todos no aeroporto de Chapecó. Depois de um ou dois segundos de silêncio, ele completou: – Assim espero. * * * * * O peru de dona Gertrudes Não consigo dormir. E quem consegue? Culpa do efeito borboleta. Aquele que diz que o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode causar um tornado no Texas. Se os terroristas ouvirem isso vão querer se mudar para cá e criar borboletas. Mas faz sentido, principalmente se você pensar que os gases liberados na atmosfera pelo seu carro podem derreter o gelo do Ártico por causa do tal efeito estufa. E é por isso que não consigo dormir. Estou me sentindo estufado e temo causar uma catástrofe em algum ponto do planeta. Está tudo interligado, tudo interconectado. Vivo num imenso condomínio mundial. Se seguro o elevador, meu vizinho de cima pode perder o emprego. Se compro tênis no camelô, estimulo o trabalho escravo no oriente. Se compro diamantes, patrocino o genocídio na África Central. Sou mais um responsável por todos e todos por um, num planeta com mais de seis bilhões de mosqueteiros. Sofro ao saber que alguém na Rússia vai ficar sem hambúrguer porque alguém no Brasil se esqueceu de vacinar a vaca. Preocupo-me quando um frango espirra no Vietnã e uma andorinha sozinha vai fazer verão na Romênia levando o vírus. Será que é o excesso de informação que faz isso comigo? Deve ser. Antigamente eu só sabia do que acontecia com meus primos e minha tia. Meu mundo cresceu com a abundância de informação e eu também. No meu caso é o efeito estufa, como já disse. Esse excesso de informação que me bombardeia diuturnamente tem lá o seu lado bom para um cronista como eu. Dependo de fragmentos do cotidiano para escrever e meu e-mail traz todos os dias um caminhão de matéria prima. É claro que junto vem muito lixo, mas também recebo casos que posso reciclar, como o de dona Gertrudes – o nome eu inventei – que pode ser real, lenda ou trote, não sei. O que sei é que, se existir, ela é tão ou mais preocupada do que eu. Por isso decidi escrever minha versão reciclada da história de autor desconhecido que circula na Internet, para dar a ela um sentido mais educacional. Politicamente correta, socialmente correta, ecologicamente correta, seja-lá-o-que-for correta, assim é dona Gertrudes. Só para você ter uma ideia, em sua cozinha há quatro cestinhos de lixo para materiais recicláveis, um de cada cor: Vermelho para plásticos, amarelo para metais, azul para papel e verde para vidro. E na garagem tem mais: preto para madeira, laranja para resíduos perigosos, branco para materiais hospitalares, marrom para orgânicos e cinza para não recicláveis. Você acredita que a mulher tem até um cesto de lixo roxo? É para as velhas radiografias, que ela acha que são radioativas. Quando não está caminhando ou usando sua bicicleta ou o transporte público, seu carro queima álcool, cinco vezes menos poluente que a gasolina. Sua impressora até aprendeu a ler, de tanto ela imprimir do outro lado, e quando vai ao supermercado, leva sua própria sacola para reduzir o consumo de sacos plásticos. A menina do caixa, boba, acha graça. Refrigerante em garrafa PET? Nem pensar. Só suco de fruta. As lâmpadas da casa ela já trocou pelas econômicas, só toma banho frio e rapidinho, e ai do filho que deixar algum eletrodoméstico ligado na tomada com aquela luzinha em estado de espera. Será que preciso dizer que ela escova os dentes com a torneira da pia fechada e usa a água suja da máquina de lavar roupa para lavar o quintal? Carne de vaca não come mais, por causa dos 25% do efeito estufa causados pelo escapamento do animal. Sua dieta de alimentos orgânicos e integrais só abre a porteira para peixes e aves. E quando a mulher viaja para o campo, leva um saco de sementes de árvores e arbustos para espalhar. Mais verde do que dona Gertrudes, só o seu Garcez, o marido, que sofre um pouco do fígado. Até parou de fumar para ver se resolve. Toda essa preocupação deu aos filhos a ideia de aprontarem com o peru da ceia de Ano Novo. Justo com o peru, que Dona Gertrudes criou só com alimentação natural, massageou usando técnicas de Do-In e tentou, sem sucesso, fazer a ave aprender Yoga. Até homeopatia ela usou quando o peru andou esquisito. Dizem – mas não acreditei – que antes da execução ela usou acupuntura para anestesiar o peru e amaciar a carne. Em minha opinião o que ela usou mesmo foi a velha cachaça, como se fazia antigamente, despejada em um funil goela abaixo. Depois, temperou naturalmente com sal não refinado, vinagre de maçã e ervas orgânicas, e colocou a ave no forno. Foi só virar as costas e os filhos tiraram o peru do forno, esvaziaram a ave de seu recheio e enfiaram no lugar um franguinho, o menor que encontraram no supermercado. Tapado o orifício com farofa para disfarçar, devolveram o peru ao forno. À noite, cercada pela família, a orgulhosa dona Gertrudes meteu a faca na ave e foi destrinchando, enquanto se gabava de suas preocupações ecológicas e sociais no preparo. Ao descobrir o franguinho assado no interior da ave, gritou de comoção e horror antes de desmaiar: – Meu Deus! Assei uma perua grávida! * * * * * Pratos em extinção Abro o jornal e a manchete me atinge bem no meio do estômago: “POPULARIZAÇÃO DO SUSHI AMEAÇA O ATUM DE EXTINÇÃO”. Não que eu seja fã de sushi, mas adoro atum e por isso fiquei preocupado. Se o sushi, que leva um nadinha de atum, é o vilão da extinção, o que pensar de mim, um inveterado predador da espécie? Você não imagina o quanto gosto de atum, especialmente quando vem naquela latinha moderna, que nem precisa de abridor. Basta puxar a argolinha e o atum salta no prato, suplicando por um banho de azeite, um pãozinho italiano e uma cerveja gelada. Ele é versátil. Vai com salada, vai com macarronada, vai de patê, vai até só, ao natural e sem nada. Hoje me arrependo de ter comido tanto atum. Sinto-me culpado por ter colocado a espécie em risco. Quem me via no supermercado, enchendo o carrinho de latinhas, pensava que eu era um funcionário tirando a mercadoria vencida da gôndola. De agora em diante, todas as vezes que puxar a argolinha da tampa, irei me sentir como se tivesse acabado de acionar uma granada de pesca predatória. Mas, se sou culpado da extinção do atum, nada tenho a ver com a extinção da baleia. O caso dela me intriga. Você já comeu baleia ou conhece alguém que tenha comido? Mesmo assim ela corre risco de extinção. Nunca vi uma latinha de baleia no supermercado. Se perguntasse ao gerente, aposto como ele iria dizer que o supermercado não trabalha com baleias porque ninguém compra e a mercadoria fica encalhada. Deve ser verdade, já ouvi falar de baleia encalhada. O que me intriga nessa questão de extinção são os critérios da natureza. O que, exatamente, torna uma espécie mais extinguível que outra? Enquanto espécies como atuns e baleias desaparecem, outras, que gostaríamos de ver ao lado dos dinossauros, continuam aí, fortes e saudáveis, driblando a extinção. Estou falando daquelas que têm a foto nas latinhas de aerossol: moscas, formigas, pernilongos e baratas. Quantas baratas você já matou até hoje? Mais do que os atuns que comeu, com certeza. Por acaso elas correm algum risco de extinção? Nenhum. Você pode matar quantas quiser e elas continuam fortes e saudáveis. Corte a cabeça de uma barata e ela só morrerá cinco dias mais tarde, de desidratação. O cérebro da bichinha tem backup nas costas. Será que a solução seria enlatá-las? Eu já estava preocupado com a possibilidade de não poder comer atum quando tomei outro susto. Camarão! Isso mesmo, meu segundo prato predileto. Será que já está extinto? Deve estar. Pelo menos foi a impressão que tive, quando pedi um “Peixe na Telha com Camarão” que vi no cardápio de um restaurante de beira de estrada. Quando terminei protestei, indignado, para o garçom: – Que péssimo, só encontrei um camarão! Reclamei, porém inseguro, já que no cardápio “camarão” estava mesmo no singular. Sem tirar os olhos dos pratos que recolhia da mesa para a bandeja, o garçom respondeu com uma insensibilidade preocupante, como se a extinção do crustáceo fosse algo perfeitamente normal: – Achou um? Sorte sua. Tem cliente que não acha nenhum. * * * * * Um avatar no meu quintal Juntando os comentários na Web sobre o ativismo ecológico de James Cameron na Amazônia, a mensagem de quem reclama é uma só: O cara não tem nada que se intrometer no meio-ambiente daqui. Será? A verdade é que as questões ambientais não têm fronteiras. Como na Pandora do filme Avatar, vivemos num mesmo planeta onde tudo afeta a todos. Uma erupção no vulcão Eyjafjallajökull na longínqua Islândia vai parar no seu pulmão, quer você consiga pronunciar o nome do vulcão ou não. Sem tirar de James Cameron o direito de defender índios e flechar hidrelétricas, eu só diria a ele: "Menos, James, menos...". Por quê? Porque ele está com o rabo preso em uma sociedade de consumo que polui para sobreviver. É admirável sua disposição para defender nativos de pele vermelha ou azul, mas também admiro quem defende as hidrelétricas como opção de energia limpa e barata. É claro que colocar uma rolha no Rio Xingu gera impacto socioambiental, mas não existe opção rápida para pessoas ávidas para assistir Avatar em 3D numa nova TV, como eu e você. Pouco a pouco vamos aprendendo a ordenhar o vento e o sol, mas ainda é debalde para a atual demanda de energia. Por um bom tempo continuaremos dependendo da hidrelétrica, do átomo e dos combustíveis fósseis para quase tudo, inclusive para fazer filmes. Sabia que Hollywood é a segunda indústria mais poluente de sua região? Pois é, e o governador da Califórnia está empenhado em reverter isso. É o mínimo que pode fazer quem já foi o exterminador do futuro. Somos tão dependentes da indústria petroquímica, que até para protestar contra o combustível fóssil dependemos do dito sujo. Os motores dos navios do Greenpeace não são movidos a boas intenções, e aqueles caras não fazem rapel no costado dos superpetroleiros com cordas de sisal biodegradáveis, nem seus botes de ataque são pedalinhos. O calor do protesto pode aquecer a opinião pública global, mas as soluções costumam vir de quem fala menos e faz mais. Mesmo assim, quem fala deve continuar falando, consciente de que estamos todos de rabo preso no atual modelo de desenvolvimento. Inclusive você, que usa a Internet. De acordo com o Daily Telegraph, a cada duas buscas no Google você gera tanto CO2 quanto para ferver seu chá. Ativistas radicais sugerem deixar o mato crescer, esquecer as hidrelétricas e não mexer com o índio. A questão é que o índio não é tonto. Hoje ele também quer transporte, luz, Internet e celular. Querer viver índio com cabeça de consumo é repetir a tragédia asteca. Pode funcionar para uma tribo de meia dúzia, mas não funciona para uma tribo de meia dúzia de bilhão. A visão romântica de meus anos de ativista ecológico na faculdade, com cada um morando numa casinha branca no mato e assando seu próprio pão, é pura ilusão. Terminei a faculdade, fui morar no mato e fiz até uma canção para embalar meu sonho. Mas não é preciso ser muito inteligente para entender que mil pães assados num único forno gastam menos energia do que mil fornos assando cada um o seu pão. É por isso que cidades empilhadas e apinhadas ainda são mais eficientes do que condomínios horizontais, com casas esparsamente polvilhadas em extensos gramados. Apartamentos gastam menos energia, encanamento, fiação, superfície impermeabilizada, transporte etc. Quanto mais gente você empilhar, menos energia vai gastar. Mas não se torture se morar numa mansão. James Cameron mora em uma construída e mantida à custa de muito combustível fóssil em um oásis artificial irrigado por bombas no deserto. Como eu já disse, todos nós temos o rabo preso, mas se for para o bem do planeta, até vale o James adotar o Avatar mais adequado ao seu papel de salvador da Pandora amazônica. Até eu tenho o rabo preso nos atuais meios de transporte altamente poluentes, pois para fazer palestras de meio-ambiente e outros assuntos, viajo de carro ou avião. Não posso viajar nos cavalos de seis pernas de Pandora, ou voando em seus dragões alados. E ainda que pudesse, não seria diferente dos habitantes de lá. Afinal, no filme eles também só conseguem viajar quando estão com o rabo preso. * * * * * A hora do Abreu O tropel de trezentos cavalos ecoou pelo vale quando o pedal do acelerador sentiu o toque da espora do dono. O motor do SUV respondeu rápido e os enormes pneus obedeceram à tração nas quatro rodas, fazendo o veículo escoicear em meio a uma saraivada de pedras e barro. Pelo retrovisor já não era possível enxergar a trilha, oculta por uma cortina de fumaça. Abreu precisava vencer logo aquele trecho antes de chegar ao asfalto. Tinha um compromisso consigo mesmo e com a sociedade. Não podia faltar. Como sempre fazia, abriu o vidro e atirou para o mato as garrafas PET de água mineral, agora vazias, e o saco plástico com os restos de frutas e sanduíches naturais. Ele se preocupava com a saúde, mas só aos sábados, quando queria estar bem disposto para vencer as trilhas. No domingo saía da trilha e do sério, e caprichava no churrasco. No caminho parou no açougue do amigo para abastecer de carne o seu freezer. Tinha ligado para reservar a melhor picanha, diretamente de uma fazenda no Amazonas. Enquanto colocava os pacotes em tríplices sacolas plásticas para evitar que se rasgassem, Abreu calculou se as cervejas que tinha em casa no congelador ao lado do freezer seriam suficientes. Achou que sim. Só precisava mesmo da carne e de dois sacos de carvão. Em casa, os pneus deixaram um rastro de barro na calçada, na entrada e no piso da garagem, mas a faxineira cuidaria de passar um esguicho em tudo na segunda-feira. Antes disso Abreu já teria levado o carro para lavar. O pessoal do posto não reclamava de lavar na segunda o barro seco do sábado, pois Abreu sempre deixava uma gorjeta para compensar o dobro de esforço, água e xampu que seu carro exigia. Antes de sair da garagem olhou de relance para o jet-ski ao lado da moto de 800 cilindradas. Logo ele levaria seu novo brinquedo náutico para a casa de madeira que tinha na marina, onde também ficava sua lancha de 28 pés movida por dois enormes motores diesel. Abreu olhou para o relógio e viu que ainda dava tempo de tomar uma sauna antes do banho. Foi só quando saiu do banho quente que percebeu que a casa estava fria. Com a mão enrugada regulou o ar condicionado central que mantinha sempre ligado. Caminhou para a sala e olhou outra vez para o relógio. Tinha chegado a hora. Abreu acionou o interruptor e as trinta e oito lâmpadas incandescentes parcialmente embutidas no teto se apagaram. Em seguida desligou um a um cada abajur dos oito cantos de sua enorme sala. Por uma hora Abreu ficaria em estado de espera, igual aos doze leds coloridos dos aparelhos eletrônicos na estante. Sentindo uma paz interior como há muito não sentia, Abreu foi até a janela e fechou as cortinas para evitar que as luzes da casa do vizinho estragassem a aura preservacionista que preenchia cada recôndito de sua alma. Se o vizinho não queria participar da "Hora do Planeta", com todos apagando as luzes por sessenta minutos, o problema era dele. Cansado e com sono, Abreu desabou no sofá e sonhou que era Al Gore. * * * * * As 110 lâmpadas Não, não eram 102 dálmatas, muito embora aquele teto lembrasse a pele do cão. Eram cento e dez pontos negros no teto branco segurando cento e dez lâmpadas econômicas que não faziam economia alguma. Eu estava na pequena agência dos correios da pequena estância hidromineral onde passava minhas férias quando pequeno. Fiz uma parada rápida ali a caminho de um cliente na cidade seguinte, para matar a saudade e postar um Sedex. Aquele exagero de pontos de luz em um ambiente pouco maior que minha sala chamou minha atenção, provavelmente por ser arquiteto de formação e curioso por vocação. O curso de arquitetura me ensinou a observar os detalhes e a pensar em 3D, coisas que me ajudam até hoje. Disto depende o pensamento estratégico em qualquer atividade que eu exerça e ainda posso ouvir meu professor dizendo: "Prédios não têm fachada, não têm frente nem fundos, todos os lados precisam ser pensados". A sabedoria do professor vale para qualquer negócio. A arquitetura ensinou-me também a tomar o ser humano como ponto de partida e destino de todo projeto. Só faltou uma coisa no curso de arquitetura, algo que todos os cursos ficam devendo a seus alunos: ensinar a vender. Por não ter aprendido marketing, saí da faculdade com uma visão hermética, purista e elitista: só eu seria capaz de saber o que era melhor para meu cliente e pouco me importava se ele entendia ou não o valor e a razão da minha profissão. Caí no mercado com uma visão equivocada do que é ser arquiteto. Mas se eu, que estava dentro da profissão, tinha uma visão equivocada, o que esperar de quem está fora? Pergunte a qualquer pessoa o que um arquiteto faz e, deixando de fora os que ficarão mudos, você terá um rosário de definições, algumas nem um pouco politicamente corretas. A maioria vai concluir que arquiteto é um luxo desnecessário. “Arquiteto? Pra quê? Basta levar o esboço feito pela patroa em papel de pão e aquele despachante da esquina passa a limpo e ainda obtém a aprovação da planta. Nada que uma caixa de cerveja não resolva”. Mas, na real, o que é arquitetura e o que faz o arquiteto? Fiz uma busca no Google e fiquei petrificado como a definição de Goethe: "Arquitetura é música petrificada". Le Corbusier definiu a arquitetura como "o magistral, magnífico e correto jogo de volumes trazidos à luz". Lá atrás, há dois mil anos, Marco Vitrúvio Polião, arquiteto romano, escreveu: "A arquitetura é uma ciência, surgindo de muitas outras, e adornada com muitos e variados ensinamentos: pela ajuda dos quais um julgamento é formado daqueles trabalhos que são o resultado das outras artes." Hein? Bem, com definições assim o que você esperava que o leigo pensasse do arquiteto? O que pouca gente percebe é que há milhares de anos o arquiteto tem deixado sua marca na história humana. Ora, quem você acha que projetava as cidades, edifícios e ambientes dos épicos que você vê no cinema? Exceto pela parte em que o arquiteto era enterrado vivo com o faraó, a profissão era das melhores e mais respeitadas da antiguidade. E hoje? Falta ao arquiteto saber vender seu peixe; conseguir traduzir para o cliente o valor intrínseco da profissão, descortinar o benefício, o que o cliente vai ganhar com isso. Caso contrário será impossível evitar a ideia equivocada que muitos têm da profissão. O homem atrás de mim na fila da agência de correios era um deles. Depois de contar as lâmpadas para matar o tempo, comentei com ele: – Será que aqui funcionava uma loja de lustres e aproveitaram os pontos de luz? Ou, talvez, o dono do imóvel seja um fabricante falido de bocais? Ou quem sabe um acionista da indústria de lâmpadas econômicas? – Nada disso – redarguiu o homem na fila. – Isso aí só pode ser coisa de arquiteto. * * * * * A expansão do ser humano Há mais de quarenta anos o homem chegava à Lua. Foi um momento de conquista e glória para a humanidade. Finalmente tínhamos alcançado as alturas. Agora tudo indica que o ser humano está empenhado em alcançar as larguras. Percebi isto na entrevista de uma empresária do segmento de confecções de roupas íntimas. Caíam as vendas de calcinhas tamanho "P" e aumentavam a olhos vistos as de tamanhos como "G", "GG" e até "GGG". Provavelmente o mesmo acontece com as cuecas e suponho que a indústria acabará adotando etiquetas com tamanhos exponenciais como "G20". Apesar das políticas de controle de natalidade, a população da Terra continua sob a ameaça de uma explosão demográfica, agora no sentido literal. Essa expansão do ser humano para as laterais já cria problemas de espaço. As salas de embarque nos aeroportos oferecem bancos em dobro para obesos, mas os aviões ainda insistem nas poltronas tamanho "P - Infantil". Se você for tamanho G+ vai precisar comprar duas poltronas e pedir um extensor do cinto de segurança. Já posso ouvir a mudança que logo farão no aviso da comissária: "Para seu maior conforto, mantenha o cinto afivelado e o apoio do braço entre as poltronas levantado". Em um de meus voos fiquei feliz ao descobrir que viajaria na poltrona do corredor e com uma vaga entre mim e o passageiro da janela. Ele pareceu ler meus pensamentos, pois também olhou para a poltrona vazia entre nós e sorriu. Mas nossa alegria durou pouco. Um eclipse na luz da cabine revelava o embarque tardio de um casal avantajado. A dupla avançava pelo corredor deixando claro para onde caminha com dificuldade a humanidade, se não parar de comer. Lembrei-me com saudades dos tempos em que as coisas eram mais difíceis e você precisava descascar as batatas se quisesse comê-las fritas. As pessoas eram menores e mais magras, ter carro era luxo e refrigerante era bebida de festa. Hoje os adolescentes são maiores que os pais. Muito maiores. Verdadeiros gigantes que não só crescem para o alto, mas também para os lados. Principalmente para os lados. Dos pés, então, nem se fala. Eles compram tênis e ainda podem escolher o acessório: remo ou vela. Enquanto o governo não trocar o "Fome Zero" pelo "Obesidade Zero" e estampar nas embalagens de alimentos calóricos uma galeria de horrores como a das embalagens de cigarros, a população do planeta vai ter de combater o "Efeito Estufado" à sua maneira. E é o que estão fazendo os funcionários de um hospital no Rio. De iniciativa própria eles adotaram um programa nutricional para reduzir a taxa de quase 50% de obesidade da equipe. Depois de um ano, os mil e quatrocentos funcionários tinham se livrado de três toneladas de gordura. Três toneladas! Para você ter uma ideia, se toda essa gordura fosse extraída por lipoaspiração daria para produzir duas toneladas de biodiesel. Também daria para fabricar centenas de barras de sabão ou potes de margarina, para quem não se importar de passar o colega no pão. Nem o pessoal da Rio+20 pensou nesta possibilidade. A notícia que chega de Nova Iorque é de uma iniciativa para atacar os refrigerantes como quem ataca o terrorismo. A demora na implementação das leis deve ser por estarem discutindo se a pena para quem tomar Coca-Cola deve ser a mesma de quem tomar Pepsi. O sal também virou vilão e em alguns lugares o saleiro já foi banido da mesa dos restaurantes. Mas sal engorda? Sim, porque causa a retenção de líquidos no corpo. Então a solução, ao menos para o excesso de sal, é evitar salgados e comer doces, certo? Errado. Outro dia comparei a quantidade de sódio que havia numa porção de batatas fritas servidas no avião com o sódio da mesma porção de biscoitos de chocolate recheados que aceitei da aeromoça em um momento de fraqueza. O biscoito doce tinha mais sódio que a batata salgada. Meus pensamentos foram interrompidos quando o casal wide-body parou no corredor do avião para conferir seus lugares: a mulher iria para a poltroninha do meio, ao meu lado, e o homem ficaria do outro lado do corredor. Quando percebi, levantei-me de um salto. – Viajam juntos? Não é justo que fiquem separados. O senhor pode ficar com meu lugar ao lado de sua senhora e eu fico com o seu, do outro lado do corredor. Faço questão! – insisti. Os dois ficaram encantados. Pela pequena fresta que sobrou entre eles e o encosto da poltrona pude ver o outro passageiro, com a bochecha grudada na janelinha, me fuzilando com o olhar. * * * * * Ai, que fome! Deixe-me adivinhar: em sua lista de promessas para o novo ano está perder peso, certo? Na minha também. Agora, cada vez que me sento para uma refeição, quase posso ouvir meu prato dizer: "Tudo o que você comer poderá ser usado contra você". Igual aos filmes policiais. Há algumas décadas eu até que consegui perder uns quilinhos. Apertei o cinto de 93 para 87 quilos reduzindo a atividade do maxilar e aumentando a das pernas. Numa nova e corajosa investida eu consegui chegar nos 85 quilos e fiz novos furos no cinto. É fácil perder alguns quilos. Nos últimos anos perdi vários deles. O problema é que depois achei todos e mais alguns. Emagreço quando dou palestras, por manter a boca ocupada. Como não fico 24 horas palestrando, decidi criar minha própria dieta: saladas, frutas e fomes. Isso mesmo, no plural, porque a fome é muita. Eu já tinha me esquecido da sensação de fome. Qual foi a última vez que você teve uma fome daquelas de quando era criança? No tempo em que maiô ainda era de lã, daqueles que pareciam coador de café ao sair da água, eu treinava natação. No fim do treino eu devorava um pão com mortadela na cantina do clube. Quando dava sorte vinham dois palitos, um em cada metade, que eu segurava com os dedos enrugados, lambia e mastigava para não desperdiçar nenhum gostinho, tamanha era a fome. Outro dia vi uma foto da época e lembrei-me dos palitos. Eu era assim, fininho. Não tinha esse negócio de snack de batata frita. Naquele tempo, quem quisesse comer batata frita precisava pedir à mãe na véspera. Ela ia comprar a batata, descascar, esquentar o óleo, fritar, secar e... mandar você plantar batata se quisesse comer antes do almoço. Batata frita nunca era comida sozinha – sempre vinha na garupa do bife montado pelo ovo. Hoje não. Basta rasgar a embalagem e a batata está ali, dourada, crocante, deliciosa! E cheia de gordura, aromatizante, corante, sal e glutamato monossódico, para o seu corpo se transformar numa verdadeira represa de retenção de líquidos. Se continuar assim, as balanças de nova geração virão graduadas em arroba. Até as revistas estão se adaptando aos tempos rotundos. Outro dia vi uma revista dessas de gente chique que joga golfe. Meu olho de arquiteto percebeu logo que as fotos das socialites e emergentes tinham sido esticadas na vertical para as pessoas parecerem mais magras. O que o manipulador do Photoshop não percebeu foi que as bolinhas de golfe ficaram ovais. As empresas começam a abrir os olhos para o problema da obesidade e você já encontra cardápios light nos refeitórios. O problema é que eles ficam ao lado daquele suco de maracujá que é um melado, de tanto açúcar. A campanha pela saúde no trabalho só tende a crescer, porque a banha precisa diminuir. Gordura demais amolece o trabalhador, derruba a produtividade e aumenta a probabilidade do funcionário empurrar tudo com a barriga. Literalmente. Qualidade na vida e no trabalho é um tema para o qual tenho sido convidado para falar com uma frequência cada vez maior. Daí minha urgência em perder dez quilos e ganhar dez anos. Dou-me por feliz por não fumar, não ter fígado flex e nem ser viciado em doces. Portanto é só diminuir a quantidade do que entra pela boca e aumentar o que sai pelos poros. Para isso faço caminhada – de vez muito em quando – ouvindo meu iPobre, uma versão barata do iPod. Assim como já tem empresa aérea cobrando mais para quem pesa o dobro, daqui a pouco vai ser preciso incluir no currículo peso e medidas de busto e quadris. A falta de forma – ou o excesso dela – aumenta o custo do trabalhador, mais vulnerável às doenças causadas pela obesidade. Pode soar discriminatório, mas o critério vai seguir o exemplo do que já é feito com o fumo. Os governos do mundo perceberam que os ganhos com os impostos do tabaco não compensam as perdas com previdência de uma população fumante. A campanha contra o fumo nas empresas vai ganhando características aterradoras. Visitei uma que começou criando uma sala para fumantes, para depois criar quiosques e distribuí-los o mais longe possível de cada prédio. O passo seguinte foi eliminar as coberturas dos quiosques e fazer uma parceria com a chuva. Agora a empresa está reduzindo o número dessas áreas de fumantes para obrigá-los a caminhar dezenas de metros até a área mais próxima. Como a empresa é grande e espalhada, se correr, dá tempo de o trabalhador acender, tragar uma vez, e voltar antes de terminar o horário de almoço. De olho nesse novo padrão de consumo, em breve os fabricantes devem lançar cigarros menores, ou mesmo picotados, para você fumar só um pedacinho. E a indústria da reciclagem vai querer o seu quinhão, lançando maços de bitucas ou baganas remanufaturadas. * * * * * Santa Maria! – Santa Maria! – foi o que eu e Cristóvão Colombo exclamamos quando pisamos no convés daquela caravela. O barco que Fernando e Isabel, reis da Espanha, deram ao explorador genovês para cruzar o Atlântico era minúsculo e nem de longe lembrava aqueles do filme “Piratas do Caribe”. Daí a surpresa. Antes que me julgue velho, saiba que eu e Colombo não dissemos isso na mesma época. Nem foi no mesmo barco que estive, mas numa réplica que visitei nos Estados Unidos cinco séculos depois do genovês. Gosto de deixar isso claro, pois após certa idade a simples menção de um fato histórico faz as pessoas pensarem que você participou dele. Quando alguém me pergunta se vi o Titanic fico na dúvida se está falando do filme. Quando Colombo zarpou para a Índia na direção oposta, todo mundo achou que seu barco despencaria no abismo que havia onde acabava a Terra plana. Para mim ele sabia que a Terra já tinha ficado redonda, mas há quem diga que Colombo era do tipo que viajava sem parar para pedir informações, por isso errou o caminho. Apesar de ter ido até o Triângulo das Bermudas, não era em confecções que ele estava interessado, mas em especiarias. Era cada vez mais difícil encontrar pimenta e outros temperos nos supermercados da Espanha e ninguém aguentava comer paella com gosto de nada. Além disso, há boatos de que Colombo pretendia trazer um navio de pimenta e montar uma fábrica de linguiça na Calábria, mas isso nunca foi confirmado. Cristóvão Colombo só é considerado o descobridor da América porque teve uma boa assessoria de imprensa. Quando seu navio chegou os índios já moravam aqui há séculos, mas pelo jeito ninguém prestava atenção em descobridores que vieram a pé. Tenho um palpite de que até mesmo outros italianos tenham atravessado o Atlântico antes de Colombo, sem navio, só falando, falando... Felizmente Colombo nunca soube exatamente o que descobriu, portanto não deu seu nome ao Novo Mundo. Foi graças a outro italiano, Américo Vespúcio, que nosso continente acabou se chamando América e isso evitou uma enorme confusão geográfica. Se tivessem deixado Cristóvão Colombo batizar o continente, hoje o Brasil ficaria na Colômbia. Graças a esses, que navegaram “por mares nunca dantes navegados, passaram ainda além da Taprobana, em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana”, a América é hoje o continente que conhecemos. Se não fosse pela coragem desses homens, Camões não teria escrito estes versos, eu não teria sido obrigado a decorá-los no ginásio e meu professor não teria me aprovado. Mesmo assim continuo sem saber onde fica Taprobana. Por pouco não fomos descobertos 80 anos antes pelos chineses, com navios quatro vezes maiores que os meros 25 metros do “Santa Maria”. Eles já navegavam por aí quando os europeus ainda tentavam descobrir com quantos paus se fazia uma canoa. O Colombo dos chineses chamava-se Zheng He e teria aportado aqui antes dos europeus se o novo imperador não instituísse uma política mais pé-no-chão. Sorte nossa. Por quê? Oras, já pensou se os chineses tivessem fincado bandeira aqui antes de Cristóvão Colombo? Nossa vida não seria a mesma. Estaríamos hoje usando roupas chinesas, sapatos chineses, computadores chineses... * * * * * Minha vida esportiva Não me lembro do que possa ter despertado em mim a vontade de praticar esportes. Será que foi o presente que alguém me deu no aniversário, um par de raquetes de pingue-pongue, com rede e bolinha? Talvez. Como não tinha mesa, aquilo só serviu para me deixar com vontade de jogar. Mas antes de jogar pingue-pongue virtual eu já tinha ingressado a contragosto no mundo das artes marciais, por insistência de minha mãe. Ela achava que pagar aulas de judô para eu apanhar de meninos maiores ajudaria na formação de meu caráter, e me inscreveu na mesma academia do coleguinha do grupo escolar que eu odiava e mais tarde seria bandido. Desisti do judô antes mesmo de pedir à minha mãe para costurar um zíper na blusa de meu quimono, a qual insistia em ficar aberta. Alguém sempre me derrubava antes de eu terminar de dar o nó na faixa branca. Mas não foi esse o motivo, e sim descobrir que os meninos de faixa mais colorida que a minha acabavam brigando na rua no velho estilo irlandês, com socos e pontapés. Os meninos do campinho perto de casa também tiveram grande influência em minha vida esportiva, ou na falta dela. Até hoje sou grato por terem me convidado para jogar no time de futebol do bairro, tão logo ganhei de meu pai uma bola de capotão, toda de couro. Prestativos e cansados de jogar com bola de plástico ou de meia, os meninos iam até minha casa para avisar que o jogo iria começar e sempre me escalavam para jogar no gol. Atrás do goleiro. Como eu era do tipo que vivia mergulhado nos pensamentos, aos onze anos decidi tentar natação. Aquilo rendeu as três únicas medalhas que ganhei honestamente. Além disso, nadar fez bem para minha autoestima. Para quem aos dois anos de idade se afogou no lava-pés da piscina de um hotel, o simples fato de não precisar ser ressuscitado cada vez que saía da água já era uma prova de superação. A quarta medalha veio em um torneio de xadrez organizado por um primo com dificuldade para completar a grade de participantes. Como eu não sabia jogar, ele deu duas aulas com as quais aprendi que, no xadrez, o peão vai a pé porque não confia no cavalo, que vive dando guinadas. Estava pronto para competir. Meu primeiro adversário faltou, o segundo não veio, o terceiro ficou doente e o quarto... Bem, o quarto veio e ganhei dele. Era um velhinho senil, íntimo da rainha, com quem conversava o jogo inteiro. Em voz alta, dizia a ela tudo o que pretendia fazer e o que eu faria em seguida. Fui seguindo suas instruções e venci, depois de escutar ele confidenciando à rainha como achava que eu poderia levá-lo a um xeque-mate. Minha sorte levou-me a disputar o terceiro lugar, quando finalmente fui derrotado. Como meu primo tinha comprado uma medalha a mais, fiquei em quarto lugar. Nem ouro, nem prata, nem bronze. Acho que era de lata. Mas minha falta de jeito para esportes continuava nas quadras. No colegial meu professor foi rápido em detectar a posição em que eu seria mais útil para o time de basquete. Deve ter sido sua sensibilidade para identificar vocações que me levaria anos mais tarde a trabalhar num banco. Se não fosse pelo incentivo e pela insistência de meus professores eu teria ficado longe dos esportes. Na faculdade teve até um que se recusou a aceitar o atestado médico que arranjei com uma colega para escapar das aulas de educação física. Ele não abriu mão de minha presença na quadra e ainda deu bronca em minha colega, filha de um conhecido ginecologista. * * * * * O Maverick de Hildebrando Se você tiver a minha idade vai se lembrar dos primeiros carros a álcool. A ideia era tão nova que nem tecnologia existia para dar a partida naquela nova era do automóvel. Aliás, naquele tempo e com aquele álcool o problema era dar a partida. Quem tinha vizinho com carro a álcool podia aposentar o despertador. Dava para acordar com o som da partida, tomar banho, café, ler o jornal e ainda oferecer uma carona ao vizinho. Na época poucos veículos saíam de fábrica com motor alcoolizado, mesmo porque para saírem de fábrica alguém precisava dar a partida. O mais comum era encontrar carros velhos que já bebiam gasolina demais, adaptados para beber outra coisa. Era o caso do Maverick do Hildebrando. Depois de passar por uma adaptação das piores, ninguém imaginava que seria possível piorar ainda mais aquele motor. Mas o Hildebrando conseguiu, depois de viajar trezentos quilômetros na base da pinga. O motorista até que chegou bem, mas o Maverick entrou em um coma alcoólico. Era o início da década de 1980, quando os postos só abriam de dia e fechavam nos finais de semana para racionar gasolina. Hildebrando precisou viajar de volta para casa e a única boa ideia que teve foi visitar os botecos que encontrou pelo caminho. Aquela foi a gota d'água para o motor. Água que passarinho não bebe. Pensa que foi difícil para o Hildebrando conseguir um comprador para seu Maverick detonado? Não foi. Apareceu um que não sabia dirigir e morava num sítio a uma descida de distância da cidade. Bastou o Hildebrando descer até o sítio com o rapaz no banco ao lado para convencê-lo. Qualquer um que não entendesse do assunto teria ficado maravilhado com aquele motor tão silencioso. Mais de vinte anos se passaram e hoje até eu optei pelo álcool. Quero dizer, carro a álcool. Comprei um com motor Flex e ainda estou intrigado. Como ele pode saber o que entrou no tanque? Se eu vivesse em outros tempos diria que é bruxaria, mas hoje sei que é tecnologia. Ainda bem que esta tecnologia só chegou agora, porque se chegasse na época do Maverick do Hildebrando, quem é que ia conseguir plantar cana para abastecer a frota nacional e ainda exportar? Hoje, tecnologia de plantio o país tem, e carro que pega e funciona também. O meu, pelo menos, funciona como um relógio. Sem despertador. Mas nem todo mundo está feliz. Quem cria boi, por exemplo, vê com tristeza a invasão da cana. Não deveria. Já tem gente pesquisando aproveitar o que sobra do boi para produzir biodiesel. Bem, neste caso da tecnologia do aproveitamento do boi devo admitir que o carro do Hildebrando já estava à frente de sua época. Uma vez, passando pela região do sítio do comprador do Maverick, encontrei-o parado na estrada poeirenta com um pneu furado e sem macaco. Emprestei o meu e até ajudei a trocar o pneu, observado por mais de meia dúzia de olhinhos da filharada do rapaz, sem contar os que estavam no colo e barriga da mãe. Como ele já tinha aprendido a dirigir, parti sem me preocupar em saber se ele conseguiria dar a partida ou não. Na volta, vi por trás o Maverick indo lá na frente devagar, quase parando. Estranhei. Foi só na ultrapassagem que vi a razão da lentidão. O Maverick, com mais de meia dúzia de narizinhos colados no vidro, voltava para o sítio puxado por uma parelha de bois. * * * * * O velho sobrado O cliente era um viúvo sexagenário pedindo uma reforma. Não de si mesmo, mas de seu velho sobrado. O homem contratou o escritório de arquitetura no qual eu trabalhava como estagiário e deu carta branca para ampliar o que precisasse ser ampliado, mudar o que precisasse ser mudado e derrubar o que precisasse ser derrubado. Na sala da casa, a primeira coisa que chamou minha atenção foi uma parede de elementos vazados de cerâmica amarela. Horrível. Na mesma hora decidi que a marreta devia começar por ali. Era bom encontrar um cliente pronto para virar a página e olhar para frente. Eu mesmo sou assim. Gosto de história, mas não de viver nela. Quando alguém diz que antigamente era tudo mais fácil, tenho vontade de perguntar se já lavou fraldas. Sim, pois trocar fraldas hoje é refresco. Basta jogar fora a usada e pegar uma nova no pacote. Telefonar, então, nem se fala. Antigamente as ligações interurbanas precisavam ser solicitadas à telefonista com bastante antecedência. Quem estivesse para morrer precisava ligar uma semana antes para avisar os parentes, ou corria o risco de, ao invés do enterro, eles só chegarem para a missa de sétimo dia. Fazer compras como antigamente seria impraticável. Imagine amontoar toda essa gente, que hoje compra em supermercados, no balcão de um armazém esperando o balconista perguntar à dona Maria o que ela queria. Cada resposta dava início ao ritual de encostar a escada na prateleira, subir até a latinha de ervilhas, descer e embrulhar numa folha jornal. Só para ouvir a dona Maria dizer que decidiu levar duas. O único problema com as mudanças é que na minha idade está ficando difícil acompanhá-las. Outro dia fui obrigado a fingir interesse nos objetos de um museu numa cidade do interior. Não queria que os visitantes mais jovens percebessem que eu estava em dúvida se a máquina de telex, o mimeógrafo e o telefone preto de disco eram parte do acervo ou equipamentos de uso normal da administração do lugar. Eu já usava calça comprida quando aquelas coisas eram novidade! Se você for pai e tiver a minha idade, evite levar seu filho ao museu para não fazer papel de bobo. Você vai explicar, todo animado, que teve uma vitrola igual àquela e mais de trinta LPs e o garoto não vai dar a mínima. Trinta LPs? Doze músicas cada? Ele vai fazer as contas e preferir ouvir uma das mil e quinhentas que traz em seu iPod pendurado no pescoço, a ficar escutando sua conversa saudosista. A distância entre as gerações era muito menor na minha juventude. Por exemplo, na sala daquele sobrado, o toca-discos do cliente sexagenário era para mim um objeto de desejo, embora eu tivesse apenas vinte anos. E os discos também, pois o coroa até que era avançado em seu gosto musical. Eu era jovem e ele velho, mas não estávamos tão longe assim. Eu estava quase achando que o resultado daquela reforma seria um marco de inovação em meu currículo, quando o homem apontou para a horrorosa divisória de elementos vazados e avisou: – Pode derrubar o sobrado inteiro se quiser, mas não toque nesta parede. Ela me faz lembrar de como minha falecida esposa tinha bom gosto. * * * * * A Bruxa da portinhola Quando garoto, morei na Rua da Boa Morte. Descobri depois que muitas cidades têm uma Rua da Boa Morte que leva ao cemitério, mas a minha tinha uma vantagem: levava direto à Vila Paraíso. Supersticiosos, os outros meninos tinham medo do nome da rua, mas eu achava aquilo uma grande bobagem. Medo mesmo eu tinha da Bruxa que morava na portinhola verde-musgo na parede da cozinha, sobre a geladeira. Ela tinha o poder de encher nossa casa de trevas e apagar a TV. Nem o Zorro, da TV Tupi, era páreo para ela. Quando a Bruxa aparecia, o Zorro sumia. A Bruxa da portinhola era sádica. Não contente em apagar a luz e espantar meus heróis da TV, às vezes ela mandava um jato de água gelada bem no meio do meu banho quente. Trevas, frio e sabão nos olhos – era a hora do pânico para um menino pelado, gelado e ensaboado como eu. Meu pai, mais valente que o Rim-Tim-Tim, mais sagaz que o Bat Masterson e mais certeiro que o Zorro, era o único capaz de enfrentar a Bruxa no escuro. Por isso, quando os heróis sumiam, ele aparecia. À luz de uma vela, ele abria a portinhola, enfiava a mão lá dentro e fuzilava a Bruxa. Pelo menos era o que eu acreditava, porque sempre ouvia dizer que aquilo era resolvido na base do “fuzil”. Mas aquele “fuzil” não era igual ao dos soldados do Tiro de Guerra da Vila Paraíso. Era pequeno, de papelão, com duas capinhas de metal nas extremidades. Seriam as balas? Como ainda não existia a campanha do desarmamento, podia ser comprado em qualquer lugar. Eu achava que o “fuzil” dava um tiro só, porque sempre via meu pai enfiar a mão lá com um fuzil novinho e ele sair todo chamuscado. Será que era cheio de pólvora como as bombinhas que eu comprava no Bazar Americano? O cheiro era parecido. Com as bombinhas meu pai me deixava brincar, com o “fuzil” não. Dizia que dava choque. Eu mal tinha aprendido a falar fusível quando comecei minha metamorfose da adolescência e passei a entender muitas coisas. Meu pai não fuzilava a bruxa coisa nenhuma, o presente que eu ganhava no Natal era ele quem comprava, e coelho algum seria capaz de botar um ovo de chocolate, muito menos enorme daquele jeito. Não recordo o que espantou o coelho e fez o Papai Noel enfiar a viola no saco, mas quem aposentou o “fuzil” foi o disjuntor. Na certa quem o inventou queria algo que não dependesse de pontaria e que pudesse ser encontrado até com sabão nos olhos. Hoje tenho idade suficiente para entender que a função do disjuntor é proteger a fiação e os eletrodomésticos das sobrecargas de corrente. Ao contrário do fusível, não precisa ser trocado cada vez que é disparado. Portanto, existe uma explicação técnica, lógica e racional para seu funcionamento. Nada de sobrenatural. Mas, quando estou pelado, gelado e ensaboado, não me pergunte o que faz o disjuntor disparar. Em minha cozinha também tem uma portinhola verde-musgo. * * * * * Máquinas, pescadores e top models Era uma terça-feira. O serralheiro chegou, abriu sua enorme caixa de ferramentas e foi logo justificando a quantidade de equipamentos que usaria para fazer uma instalação em minha casa: – Sabe como é, 'doutor', quando o assunto é ferramenta eu não faço economia. Estas maquininhas me ajudam a ter mais tempo para descansar. Fiz de conta que estava impressionado com a furadeira e o esmeril que ele exibia com orgulho. – Além disso, quanto menos força eu fizer com as mãos, melhor para a sensibilidade dos meus dedos. – continuou ele. – Você é músico? – perguntei impressionado. – Não, eu gosto mesmo é de pescar. Se a mão ficar grossa não consigo sentir na vara o peixe respirando perto do anzol. Enquanto eu tentava imaginar como é um peixe respirando perto do anzol, o serralheiro seguiu falando da pescaria programada para o sábado. Ele pescava religiosamente todos os sábados, em diferentes pesqueiros. O homem estava certo. Graças às máquinas, hoje temos mais tempo para descansar ou pescar. Afinal, não é pensando no final de semana que você dá duro de segunda a sexta? Tudo bem, esqueça a manhã da segunda e a tarde da sexta. Muito antes da máquina de fazer café, outras máquinas mudaram radicalmente nossa maneira de trabalhar. Mas isso não teria acontecido sem a ajuda das mulheres. Antes mesmo da invenção da locomotiva, a indústria têxtil foi a locomotiva da revolução industrial. Quando tecidos, roupas e calçados eram feitos à mão, o custo era tão alto que só uma rainha podia ter noventa vestidos, cento e vinte saias e duzentos e oitenta pares de calçados. Hoje qualquer mulher tem. Levava tanto tempo para produzir o tecido e costurar uma roupa, que quando a moda verão ficava pronta já era inverno. Por isso naquela época não havia desfiles de moda, só de soldados vestidos de farda. Sempre a mesma. Foi graças às máquinas que a indústria da moda cresceu e criou uma das profissões mais badaladas: a de modelo. E quer saber? Não faz muito tempo que três das cinco top-models mais bem pagas do mundo eram brasileiras. As máquinas colocaram o Brasil nas passarelas. Depois das máquinas que mudaram o modo de vestir e desfilar, vieram as máquinas que mudaram o modo de viajar. Pela primeira vez as pessoas podiam pegar um trem e ir mais longe do que a carroça permitia, desde que ficasse nos trilhos. A vantagem da mobilidade individual e sem trilhos da carroça foi logo resolvida com a chegada do automóvel. A nova carroça motorizada tinha também a vantagem de ter o escapamento atrás do motorista, não na cara dele. Enquanto eu pensava em como as máquinas facilitavam nossa vida, voltei para ver o serralheiro. Aquele era um homem inteligente, que sabia usar a tecnologia para sobrar mais tempo para o lazer. Eu só não imaginava o quanto... Encontrei-o pronto para partir. – Pelo jeito amanhã você termina, não é? – Xi, 'doutor', amanhã é quarta-feira, não vai dar – respondeu, coçando a cabeça. – Outro compromisso? – Sim, é nas quartas-feiras que eu costumo experimentar os pesqueiros para ver qual está melhor para pescar no sábado. * * * * * Tudo azul Quando a gerente da empresa que me contratou para um treinamento perguntou se eu fornecia o material, expliquei que sim, mas em formato digital. Se ela preferisse eu poderia entregar também impresso, porém ela não preferiu. Explicou que a empresa estava mudando sua cultura em relação ao uso do papel, e os treinamentos deixaram de ser acompanhados de apostilas e pastas. Ficou tudo digital, menos o cafezinho. Achei a decisão inteligente. Afinal, alguma vez você abriu aquela pasta enorme que ganhou no último congresso? Eu também não. Enquanto a velha geração imprime até bate-papo do Facebook, a nova nasceu habituada ao digital e cumpre seu papel sem derrubar árvores. Além disso, a geração Google é viciada no acesso instantâneo à informação, clicando nela, e não folheando. Percebeu que as enciclopédias desapareceram das prateleiras das livrarias? Mas tem muita empresa por aí que não entendeu que para sair do vermelho é preciso antes sair do azul. Falo do azul da caneta no papel e da informação escrita, armazenada, processada e acessada como faziam os monges medievais. Conheci uma distribuidora de laticínios que era assim. Seus vendedores tiravam pedidos em blocos de papel, que eram xerocados e enviados todos os dias via fax para as suas três filiais regionais. Em cada filial alguém digitava os dados em uma planilha, a qual era impressa e enviada para a matriz, também por fax. Lá os pedidos eram reunidos e outra vez digitados, agora em um arquivo no formato aceito pelo sistema do fornecedor. Depois um disquete viajava de carro até o fornecedor e no dia seguinte o processo se repetia. Antes que me pergunte, sim, quando conheci a empresa a Internet já existia há alguns anos. Mas ela não estava sozinha. Conheci outra que ainda escrevia manualmente seus dados em planilhas de papel. Sabe aquelas planilhas com tracinhos para separar as letras? Exatamente. É que no passado elas eram enviadas a um birô para serem lançadas num mainframe que cuspia longas listagens em formulário contínuo. A empresa já tinha entrado na era do computador pessoal, mas ninguém pensou em atualizar o processo. Por isso os dados continuavam sendo passados a limpo com tinta azul, antes de serem digitados nos computadores pessoais da empresa. Se foi distração ou má administração, não sei dizer. O que sei é que na maioria dos casos as pessoas sofrem de uma resistência ferrenha à mudança, principalmente quando esta envolve aproveitar todo o potencial da tecnologia da informação no processamento e comunicação de dados. Eu até entendo aquele executivo grisalho, que acha chique sacar uma caneta tinteiro do bolso do paletó, porque eu mesmo até hoje leio melhor as horas no relógio de ponteiros do que no digital. Mas um dia fui obrigado a tirar meus dados da idade da pedra lascada ou eu acabaria me lascando profissionalmente. E olha que sou da geração que aprendeu a escrever à tinta com caneta de pena! Não de carregar, como as moderninhas, e nem de ganso, como a do Pero Vaz de Caminha. Depois de aprender a escrever a lápis, a primeira aula do segundo ano do grupo escolar foi para aprendermos a usar uma caneta de pena metálica. Todas as carteiras tinham um furo largo no canto, onde era encaixada uma latinha do tamanho de um copinho de café cheia da tinta azul. Era naquele tinteiro que devíamos mergulhar nossas penas. Sair do grafite para a tinta era uma verdadeira revolução tecnológica para um menino naquela idade. Mas não pense que todo mundo sabia usar a nova tecnologia. Não sabia, do mesmo modo como muita empresa ainda hoje não sabe usar todo o potencial do computador e da rede. O menino ao meu lado, por exemplo, era muito parecido com alguns empresários de hoje, que têm um computador no escritório para servir de abajur. Antes mesmo que a professora explicasse direitinho como usar a pena e a tinta, olhei para o lado e vi meu coleguinha com os lábios de uma cor azul que não era de frio. Enquanto ele sorria para mim um sorriso de dentes e gengivas da mesma cor, vi que tinha bebido o copinho. * * * * * Dinheiro eletrônico Não posso reclamar da tecnologia da informação, mas tem gente que insiste em achar que a vida era melhor sem ela. Melhor? De jeito nenhum. Você se lembra do tempo em que era impossível conseguir dinheiro num final de semana ou feriado? Ou você emprestava de alguém, ou esperava a segunda-feira para sacar no banco. Hoje você saca o dinheiro que quiser de um caixa eletrônico ali na esquina ou até toma emprestado dele. Nem Júlio Verne podia prever que a gente tomaria dinheiro emprestado de uma máquina ou que discutiria com ela. Isso mesmo, ou será que você nunca viu alguém discutindo com um caixa eletrônico? É só ficar na fila de um daqueles que engolem o cartão. Só tome o cuidado de olhar para as nuvens, para o relógio ou para o chão, nunca para o sujeito que perdeu o cartão, porque sua primeira reação será procurar alguém na fila para desabafar. Quando não encontra, ele passa a brigar, xingar e discutir com a máquina mesmo. Quando os caixas eletrônicos surgiram, as lojas já eram pioneiras nas transações eletrônicas com suas máquinas de vender doces, salgados e bebidas. Mas não acho que os bancos tenham se inspirado nelas. Meu palpite é que os caixas eletrônicos foram inspirados no velho realejo, aquele do papagaio que entregava um papelzinho com sua sorte. A diferença é que o papelzinho que sai de meu caixa eletrônico costuma dizer: “Azar o seu”. Antes dos caixas eletrônicos as máquinas só serviam para você verificar o saldo dentro das agências. Não eram totalmente automáticas, pois o banco precisava manter um funcionário plantado ao lado de cada máquina para ajudar pessoas que pareciam estar diante da guilhotina. Quanto mais velho o cliente, maior o terror. Às vezes era preciso abaná-los e servir um copo de água com açúcar. Hoje o funcionário faz isso na entrada das portas giratórias, que são as terroristas da vez. Algumas daquelas máquinas que só davam o saldo falavam com você com voz do robô de “Perdidos no Espaço”. O funcionário de uma agência me contou que viu uma senhora que, ao escutar a máquina dizer “informe sua senha”, abaixou-se e recitou a senha em voz alta no buraquinho de enfiar o cartão. Os primeiros caixas eletrônicos tinham ainda os dedos grudentos na hora de contar as notas. Na década de oitenta eu fui um dos que tiraram a sorte grande em um caixa eletrônico no aeroporto. Coloquei meu cartão para tirar, digamos, cem dinheiros da época, e a máquina pagou duzentos. Nada mal para uma única aposta. Eu era funcionário do próprio banco e meu trabalho era justamente alugar pontos para instalar aquelas maravilhas tecnológicas. Na mesma hora peguei o telefone ao lado e perguntei à central como fazer para enfiar o dinheiro de volta no buraquinho. Disseram que não tinha como devolver. Ainda estavam aperfeiçoando e aquilo ia para perdas e danos. Desde aquele dia tenho jogado todas as semanas em diferentes caixas eletrônicos, mas nunca mais tive a mesma sorte. Depois do caixa eletrônico veio o banco na Internet, e aí sim a vida ficou muito mais fácil para mim e principalmente para o banqueiro, que reduziu sua folha de pagamento. Antes eu ia praticamente todos os dias a uma agência bancária para pagar, receber, depositar, transferir dinheiro e pegar extratos. Hoje faço quase tudo pela Internet. Mas ainda não é possível sacar dinheiro em espécie em casa, usando apenas o computador. De vez em quando alguém tenta fazer isso com uma boa impressora colorida, mas o difícil é convencer a polícia de que está empenhado na evolução tecnológica. Enquanto o dinheiro não salta da conta bancária que vejo na tela do computador, o jeito é brincar com as possibilidades. Foi o que fez um amigo enquanto mostrava à sua mãe a maravilha que é poder ir ao banco sem sair da cadeira. Vinda de uma geração em que o caixa do banco dava o recibo do depósito preenchido à mão, com caneta tinteiro e mata-borrão, a mulher ficou extasiada. Mas o rapaz tinha reservado a surpresa maior para o final, quando disse à mãe que ia fazer um saque de cinquenta reais ali mesmo, no computador. Pediu a ela para apertar o botão que abria o tocador de CD e qual não foi a surpresa da mulher quando a gaveta se abriu e apareceu uma nota de cinquenta, novinha em folha. Que o rapaz obviamente tinha colocado ali antes de a mãe chegar. * * * * * A nuvem Meu e-mail estava mais lento que o normal. Entendi a razão da lentidão quando percebi que o amigo que viajava pela América do Sul tinha enviado um anexo gigantesco. "Seria a Cordilheira dos Andes?" – pensei. Não, não era uma montanha de rocha, mas das fotos que ele tirou por lá. Mal sabia eu que no dia seguinte receberia outra montanha, depois outra... até uma cordilheira fotográfica entupir meu computador. Sugeri que ele utilizasse um dos muitos serviços de armazenamento de fotos na nuvem e depois enviasse apenas o link. É sempre mais fácil deletar um link do que uma montanha de fotos. Acho que ele não gostou da ideia de fotos na nuvem por temer que elas acabassem sendo mandadas para o espaço. Nem todo mundo está familiarizado com o virtual. Eu e ele somos de uma época quando as únicas coisas virtuais que conhecíamos eram as assombrações. A Internet só não nos pegou de calças curtas porque na época já estávamos quase vestindo o pijama da aposentadoria. Tentar mudar mentes assim não é fácil. Todavia, quer a gente goste, quer não, a nuvem vai cobrir o céu de nossos dados, sejam eles fotos, vídeos ou documentos. E por mais nebulosa que a ideia possa parecer, grande parte do processamento das empresas já está a meio caminho do espaço. Na nuvem, quero dizer. Se você ainda envia telegramas, faz seu imposto de renda na máquina de escrever e frequenta a fila do banco para pagar contas, deve estar estranhando este meu papo. "De que nuvem esse cara está falando?!" Oras, é fácil descobrir. Faça uma busca por "nuvem" em qualquer um dos buscadores que funcionam na nuvem. Enquanto para algumas empresas usar a nuvem é voar em céu de brigadeiro, para outras a ideia de exportar seus dados para fora de sua 'sede própria' está fora de cogitação. Mesmo assim, é para lá que estão indo muitos processos. O talão de notas fiscais de minha empresa acabou se mudando para a nuvem, e está feliz por ter se livrado do carbono e daquele horrível pedaço de radiografia de quando quebrei o pé. Talvez a maior dificuldade de alguns empresários esteja em distinguir o que é real e o que não passa de vapor ou ilusão neste novo mundo virtual. Se meu pai ainda estivesse por aqui, iria querer repetir sua história predileta do perigo que é não saber distinguir o real do ilusório. Era o causo do caipira, que atravessava cambaleante o pasto de sua propriedade, ao voltar da quermesse na cidade. Embriagado, via tudo dobrado: duas árvores, duas vacas, duas porteiras... sempre uma falsa, outra verdadeira. Na dúvida, achou melhor considerar todas elas reais, feliz por ver sua fazenda duplicada. Até perceber um duplo touro bravio raspando a terra com o casco, antes de partir em sua direção. Movido pela alta octanagem da mistura de álcool e adrenalina, o homem disparou em direção às duas únicas árvores existentes no pasto – uma falsa, outra verdadeira. Sua incapacidade de distinguir o falso do verdadeiro lhe custou caro. Ele tinha acabado de subir na árvore falsa quando o touro verdadeiro o pegou. * * * * * Hábitos tecnológicos Todos nós temos hábitos, alguns adquiridos na infância e abandonados para o bem da convivência em sociedade. É normal um bebê soltar pum em público, mas depois de crescido ele aprende que isso não convém, principalmente em um local fechado e apinhado como um avião. Mas em todo voo tem sempre alguém que se esquece de desligar o celular, além do hábito pueril. Mas não é de hábitos fisiológicos que pretendo falar, e nem daqueles que se transformam em tique nervoso. Há, por exemplo, fumantes que costumam bater o dedo na caneta na tentativa de livrá-la das cinzas. E também os fumantes habituados a colocar a caneta presa na orelha, que acabam se queimando. Outros hábitos são eventuais. Depois de dirigir por horas, tentei olhar no retrovisor quando quis ver quem vinha atrás. Mas aí eu estava caminhando. Experimente alugar um carro em Londres para ver de quê o hábito é capaz. Na primeira esquina eu entrei numa avenida de quatro pistas, ampla o suficiente para dar meia volta antes de ser atingido pelos carros que vinham na contramão. Garotas que usaram o cabelo caindo nos olhos durante anos continuam jogando a cabeça para o lado mesmo depois de se livrarem da franja. E sofrem com a gozação dos que perguntam se aquilo é para fazer o cérebro pegar no tranco. Quando adolescente passei a sacudir o pulso, movimento necessário para os relógios automáticos que surgiram para substituir os de corda. Nem preciso dizer que continuei sacudindo o pulso por um bom tempo depois de passar a usar relógios a pilha. Meus primeiros teclados de computador sofreram muito até eu perder o hábito de datilografar e adquirir o de digitar. Mas, por ter aprendido em pesadas máquinas de escrever, não consigo abandonar o hábito de descansar todos os dedos nas teclas, o que é impossível no minúsculo smartphone ou em qualquer teclado touch-screen inventado para quem "cata milho". Quando aposentei a chave do portão da garagem de meu prédio, que exigia que eu abrisse o vidro do carro para alcançar a fechadura na parede, e passei a usar o controle remoto, levou um tempo até eu deixar de fazer as três coisas: abrir o vidro, pegar a chave e só depois o controle. É claro que o controle remoto também criou um hábito. Distraído, cheguei a apontá-lo para o nariz de um cobrador de cabine de pedágio, esperando que a cancela se abrisse. Mas o hábito tecnológico mais recente tem a ver com o iPhone que uso há mais de um ano. A insensatez deste hábito eu só descobri há poucos dias, quando meu filho contou do problema que os inventores dos celulares touch-screen precisaram resolver. A mesma tela acionada com o toque do dedo não poderia ser acionada pelo toque da orelha durante a ligação. Se isso ocorresse, a luz da tela permaneceria acesa revelando a cera de um ouvido ou saindo pelo outro, caso o usuário não tivesse nada na cabeça. A grande sacada foi fazer com que a tela se apagasse enquanto estivesse na orelha, e voltasse a acender quando afastada dali, para você poder encerrar a ligação ou usar outras funções. A explicação de meu filho fez com que eu me sentisse um perfeito idiota por causa do hábito que venho praticando há mais de um ano ao encerrar cada ligação. Como hábitos são difíceis de serem abandonados, se você ligar para mim pode ter certeza de que meu iPhone será sacudido ao final da ligação. Eu sempre acreditei que a luz da tela só voltava à vida quando sacudida. * * * * * O inventor da economia Você toca um interruptor na parede de sua casa e uma luz fluorescente ilumina a garagem. Um controle remoto permite a você destravar a porta do carro, e com outro você aciona o motor de corrente alternada que abre a porta da garagem. Enquanto você dirige, o motor de seu carro faz funcionar um alternador que transforma energia mecânica em elétrica para recarregar a bateria. Do alto-falante do rádio do carro a voz do locutor traz as últimas notícias. Trafegando sob a rede elétrica, você nem repara nos transformadores pendurados nos postes, enquanto pensa no novo notebook wireless que comprou, o qual funciona graças às portas lógicas de comunicação de dados. Talvez você não saiba, mas toda essa tecnologia tem um pouco de um homem que merecia o título de "Inventor da Economia". Sem ele sua lâmpada não seria econômica, você teria de abrir a porta da garagem no braço e fazer o carro pegar no tranco. E pode esquecer o rádio e o controle remoto. Se você hoje economiza seus músculos, é graças aos muitos dispositivos elétricos derivados das ideias de nosso "Inventor da Economia". Sabe de quem estou falando? Thomas Edison? Não, a lâmpada fluorescente de sua garagem é seis vezes mais eficiente que a inventada por Edison. Guglielmo Marconi? Também não. Ele era adolescente quando nosso "Inventor da Economia" já brincava de fazer rádio. Alexander Graham Bell? Você está falando do homem que "inventou" de novo o telefone que já tinha sido inventado por Antonio Meucci? Não é ele. E por falar nisso, o telefone não funcionaria sem o alto-falante que nosso "Inventor da Economia" idealizou. A resposta correta é Nikola Tesla, um homem tão avançado para sua época que até brincavam que ele tinha vindo de outro planeta. Ele nunca negou. Graças a esse inventor extraordinário, nascido onde é hoje a Croácia, nossa vida ficou muito mais fácil. Tesla estudou na Áustria, formou-se na Tchecoslováquia, e viveu na Hungria e França antes de mudar-se para os Estados Unidos, onde morreu em 1943. Ou voltou ao seu planeta de origem, se preferir. O que fez a biografia dele ficar ainda mais interessante para mim foi saber que Tesla inventava de cabeça, do mesmo jeito que Ludwig van Beethoven compunha suas sinfonias depois que ficou surdo. Nikola Tesla simplesmente desenhava na mente sua invenção inteira antes de construí-la, como se sonhasse acordado. Por que me interessei por isso? Bem, guardadas as devidas proporções, é assim também que escrevo muitas de minhas crônicas: na memória. Isso permite que eu escreva em lugares onde seria impossível usar meu notebook, como durante o banho. E foi o caso do final que criei para esta crônica, um final que foi concebido inteirinho sob o chuveiro. Se neste aspecto sou um pouquinho parecido com Nikola Tesla, em outro sou completamente diferente: ele tinha memória fotográfica, eu não. Por isso você vai me odiar ao saber que o final que escrevi enquanto minha cabeça borbulhava de xampu eu simplesmente esqueci! * * * * * Cérebro líquido O médico disse que meu cérebro é 80% água. Será que é por isso que meus pensamentos fluem em um turbilhão de ideias geradas por ondas cerebrais? Pode ser. Ele disse que não preciso andar com tampões nos ouvidos, porque não existe perigo de vazar. Mesmo assim fiquei preocupado. Dizem que vai faltar água e eu fico pensando se com isso vão faltar cérebros. Ou será que é a falta de cérebros que vai fazer a água desaparecer do planeta? Pode ser, e aí vamos sentir saudade. Não que o excesso de água não seja um problema. Quando a banheira do vizinho do terceiro andar rachou, pensei até em abrir um pesque-pague no corredor de meu apartamento. Fez lembrar a outra vez, quando o reservatório do aquecedor do quarto andar explodiu e escaldou o terceiro e o meu. Precavido, resolvi eliminar a banheira e o aquecedor de meu apartamento, e voltei ao velho e bom chuveiro elétrico. Já viu o tanto de água que uma ducha gasta? Se você for à Europa, pode dar adeus a esse seu banho de caminhão-pipa instalado no teto do banheiro. Lá o chuveiro não esguicha água, aspersa neblina. Quando eu disse que ia tomar banho, vi a família da casa europeia onde estava hospedado trocar olhares de apreensão. Perguntaram-me três vezes se era isso mesmo que eu queria. Conheciam a fama do brasileiro, que gasta cinco vezes mais água do que a quantidade recomendada pela Organização Mundial de Saúde, metade só no banho. De volta ao Brasil, fiquei em um hotel desses modernos e econômicos. Tudo é mínimo, até a TV é pouco maior que a tela de meu celular. Meu passado de arquiteto achou o modelo inteligente, mas só até a hora do banho. A ducha era de tirar o couro cabeludo, por isso abri só um pouquinho para evitar que meus neurônios saíssem pelo ralo. Afinal, um dia vou precisar daquela água para umedecer meus pensamentos. O botão da descarga é outro vilão do desperdício. Uma privada antiga gasta de doze a quinze litros de água, enquanto as modernas usam seis litros ou até menos. Em outro hotel vi uma ideia que pretendo adotar na próxima reforma do banheiro. Uma caixa de descarga com dois botões: um para grandes obras e outro para pequenas iniciativas. Como água é um recurso finito, e a que vai embora é a mesma que no futuro irá reabastecer 80% de meu cérebro, hoje penso duas vezes antes de apertar o botão do adeus. Considero uma insensatez disparar as Cataratas do Iguaçu, se o que vou lançar ao mar às vezes não passa de um mini submarino. Um leve toque é suficiente para despedir o submersível. Mas nem todo mundo pensa assim. A preocupação com a pressão do botão evidentemente vai depender da quantidade de massa cinzenta de cada cidadão. Uma coisa, porém, é certa: as longas despedidas só farão aumentar a saudade. * * * * * Inventores Quando aprendi a ler não queria ser escritor, mas inventor, o que não deixa de ser a mesma coisa, só que diferente. O inventor descreve o que inventa e o escritor inventa o que descreve. O primeiro precisa provar que funciona, o segundo não. Quis ser inventor de tanto observar o hobby de meu pai, que montava toca-discos e amplificadores com peças que comprava. Eu achava que ele inventava aqueles aparelhos nos quais ouvia sua coleção de discos de 78 RPM. Os discos da época eram fabricados de um material chamado goma-laca, e se quebravam como se fossem de vidro. Eu acreditava que existiam dois tipos de inventores: os que usam muitas coisas para inventar uma, e os que usam uma coisa para inventar muitas. Era este tipo de inventor que eu queria ser. Afinal, que graça tinha inventar um automóvel quando você podia comprar tudo numa loja de autopeças e simplesmente montar um? Se você acha que montar um quebra-cabeça de quinhentas peças é difícil, imagine criar qualquer coisa usando uma peça só. E se essa peça for um amendoim, o que você seria capaz de fazer? Bem, George Washington Carver fez um monte de coisas a partir do amendoim. Nos Estados Unidos as pessoas estavam plantando amendoim para recuperar as terras esgotadas pela monocultura do algodão. George percebeu que precisava inventar o que fazer com tanto amendoim. Foi assim que mais de cem invenções saíram de seu laboratório. Adesivos, lubrificantes, tintas, café solúvel, maionese, papel, plástico, creme de barbear, borracha sintética e até verniz ele conseguiu fazer de amendoim. Sua genialidade era tanta que logo atraiu a atenção de Henry Ford, um entusiasta do biocombustível. Seu primeiro veículo de quatro rodas de 1896 rodava com álcool de cereais, e em 1908 Henry Ford já tinha um “Modelo T” funcionando da mesma maneira. Mas o baixo custo do petróleo na época acabou apagando o fogo do biocombustível. Mesmo assim, em 1941 George Washington Carver ajudou a Ford Motor Company a desenvolver um automóvel com a carroceria 30% mais leve e durável que o aço, e produzida com painéis de plástico de soja. O combustível e os lubrificantes do carro também eram feitos a partir de grãos. A revista Time daquele ano chamou o afrodescendente George Washington Carver de “Leonardo Negro”, numa alusão a Leonardo da Vinci. George viveu na época errada. Se vivesse hoje no Brasil estaria lado a lado com o pessoal que anda inventando mil e uma coisas a partir da cana. George teria aperfeiçoado a batida de amendoim e, se cana berrasse, aproveitaria até o berro. O número de produtos que inventaram depois da garapa não para de crescer. Cada vez que alguém espreme o bagaço acaba saindo mais um, e depois vem outro e transforma até o bagaço em energia ou em alguma outra utilidade. Infelizmente eu logo descobri que não me encaixaria em nenhuma daquelas duas classes de inventores, mas em uma terceira. Eu não seria o inventor que usa muitas coisas para inventar uma, como Henry Ford, nem aquele que usa uma coisa para inventar muitas, como George Washington Carver. Minha habilidade estava em usar muitas coisas para inventar um número maior ainda. Pelo menos foi o que consegui fazer quando tentei carregar sozinho a pilha de discos de 78 RPM de meu pai. * * * * * Acabou o papel! “Acabou o papeeel!” Quando um grito assim ecoa pela casa todos sabem que a coisa é séria. Isso se existir mais alguém por perto, caso contrário a situação passa de séria para extremamente grave. Como imprimir sem papel? Não há como. Uma coisa é certa: só damos conta da falta que o papel faz quando ele faz falta. E nem imaginamos o caminho que ele percorreu até chegar à impressora, ou o tanto de tecnologia envolvida no processo para evitar que ele fure, rasgue ou deixe a tinta sujar nossos dedos. Parece que foram os chineses que inventaram a tecnologia de fabricação do papel, mas naquele tempo o papel ainda não vinha em rolos, só em folhas soltas. Também foram os chineses que tiveram a ideia de imprimir em papel, pois até então as impressões eram feitas em placas de argila. Não me pergunte como. Também foi um chinês quem levou o uso do papel ao extremo. Em um comentário datado do sexto século, Yan Zhitui conta em detalhes o que ele fez com as folhas de um livro que não lhe agradou. Além dessa inovação ele bem que merecia ser lembrado também como o “Pai da Reciclagem”. Depois dos chineses o papel foi usado também por japoneses e árabes, mas não o mesmo papel. Cada usou o seu, inventando um tipo diferente de papel e uma nova técnica para fabricá-lo. Mil anos depois de sua invenção o papel se popularizava na Europa, onde também surgia a tecnologia de fabricação contínua. Agora vem uma pergunta difícil. Quem você acha que inventou o papel moeda? Isso mesmo, os chineses. Como não queriam esperar pela invenção do cartão de crédito para poderem viajar com pouca bagagem, decidiram criar a primeira cédula, cujo valor equivalia a três quilos e meio de moedas. Por tabela eles acabaram inventando também a inflação. Outro dia eu disse a alguém que o papel era feito do tronco das árvores e o sujeito riu. Ele até acreditaria se eu dissesse que vinha das folhas, mas do tronco? Impossível! Como algo tão áspero, sólido e pesado poderia se transformar em uma folha leve, suave e flexível? Com tecnologia, oras! Do tronco da árvore é extraída a celulose que é transformada em papel. Nunca viu celulose? Viu sim. Já abriu uma fralda descartável para ver o que tem dentro? Aquela outra coisa é celulose. É também com celulose moída e borrifada que Hollywood faz nevar nos filmes sem o artista ficar resfriado. Na próxima festa de Natal da empresa experimente rasgar uma fralda em frente ao ventilador para criar um clima europeu. Seu chefe vai ficar impressionado e você vai se sentir na Sibéria. Por ignorarmos o quanto de história e tecnologia existe por trás da fabricação do papel, nós o gastamos como se crescesse em árvores, como costumamos falar do dinheiro. O engraçado é que existe uma árvore chamada “árvore-do-dinheiro”. A Dillenia indica chegou ao Brasil vinda da Índia, trazida por ordem de D. João VI, que costumava encaixar moedas sob as pequenas calotas que formam a casca do seu fruto. Daí o nome popular. Ou você pensou que ela dava dinheiro? Não dá, e nem aconselho que tente usar suas folhas como papel. Na Índia elas são usadas como lixa para madeira. Vai arruinar sua impressora. * * * * * Anos Dobrados Há quem diga que o ano só começa depois do carnaval, mas nunca me acostumei com a ideia. A razão? Bem, se o ano anterior termina em dezembro, o que temos entre o ano que termina e o que começa depois? Um limbo no calendário? Ninguém previu esse lapso quando o Calendário Gregoriano foi instituído em 1582, provavelmente porque o Brasil tinha acabado de ser descoberto e as Escolas de Samba ainda não tinham tido tempo de ensaiar. Venho pensando numa solução para o problema, que nem é meu, já que meu aniversário é só depois do Carnaval. Veja o caso de minha irmã, que nasceu um pouco antes do Carnaval. Quantos anos ela tem, se não nasceu no ano anterior, nem no próximo? Ela vai adorar quando descobrir que os aniversários que comemorou até aqui não contam. Mesmo assim o problema continua, pois todo mundo faz corpo mole nesse hiato anual. Minha sugestão é que o tempo perdido entre o ano passado e o futuro ganhe status de ano inteiro. Se Gregório XIII decretou anos idênticos, de doze meses, por que não podemos decretar anos diferentes, um com dois e outro com dez? Como isso só ocorre no Brasil, o novo calendário deve valer apenas aqui. Antes de reclamar de um ano a mais para trabalhar, pense nas vantagens. Sabe aquele regime que você sempre promete para o início do ano e depois espera doze meses para prometer de novo? Agora terá duas chances de prometer e, quem sabe, até fazer um regime de um ano inteiro. No ano menor, evidentemente. Já me sinto bem, só de pensar. É que, pelo novo calendário, daqui a alguns dias vou fazer cento e quatorze anos e me sinto como se tivesse metade da idade. A expectativa de vida do brasileiro vai dobrar e todo mundo vai querer vir morar aqui. A garotada, então, vai adorar terminar a escola na metade do tempo do calendário antigo. Os estudantes vão passar de ano duas vezes no tempo em que só passavam uma vez. Até os políticos vão melhorar. Quem tomar posse em primeiro de janeiro vai correr que nem louco para mostrar que fez alguma coisa no primeiro ano de seu mandato. Pois é, pensei em tudo. Para o ano menor ficar com cara de grande, podemos impulsionar o comércio repetindo nele alguns feriados, como o Dia das Mães, dos Pais e o Natal. Só uma coisa me impede de apresentar ao governo meu projeto de um novo calendário. Já pensou se alguém decide incluir no ano menor mais um Carnaval? * * * * * Prêmio Mr. Bean de comunicação Acabei de instituir. E o prêmio vai para.... (rufar de tambores)... o criador da comunicação do referendo sobre o comércio de armas de fogo realizado no Brasil em 2005. Se só agora os Estados Unidos decidiram desarmar os desalmados, o Brasil fez isso há anos, começando com o dito referendo. Mas meu faro de comunicador revelou que tinha o dedo do Mr. Bean naquilo tudo. Só podia ser. Sempre desconfiei. Por quê? Ora, Mr. Bean faz tudo ao contrário daquilo que reza o bom senso. Ele é britânico, não é? Ele é do país de “Alice Através do Espelho” de Lewis Carroll, onde tudo é invertido. Já tentou dirigir por lá? Siga pela contramão e ultrapasse pela direita que você vai se dar bem. Se quiser comprar uma calça azul, esqueça. Só vendem “azul calça”, com o adjetivo antes. Nem preciso avisar que na lanchonete deve pedir “gelada cerveja” com um “quente misto”. Lá até James Bond, se apresenta do fim para o começo: “Bond, James Bond”. E não se espante se encontrar na Grã-Bretanha um conto de fadas que termine com a princesa morrendo e o príncipe casando-se com a bruxa. A comunicação do referendo sobre o comércio de armas de fogo no Brasil foi uma verdadeira coronhada de dissonância cognitiva. Não acredita? A coisa funcionava assim: no referendo, se você quisesse comprar armas de fogo, devia assinalar “Não”. Ou dizer “Sim”, se não quisesse. É que a pergunta era: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no país?” Para a não venda das armas era preciso dizer “Sim” e para a venda era preciso dizer “Não”. Simples, não? Simples sim. Pelo sim, pelo não, conhecendo que o cérebro procura sempre caminhos mais curtos, o tiro pode ter saído pela culatra. O correto seria dizer “Sim” ou “Não” para o comércio de armas, e não “Sim” à proibição, por ser a afirmação de uma negação. O verbo “proibir” equivale a dizer “Não” e o verbo “permitir” é o mesmo que dizer “Sim”. Ou você interpreta a placa de trânsito com aquele “E” cortado como se significasse “É permitido não estacionar”? É provável que Mr. Bean tenha sugerido que disséssemos “Sim” ao “Não” e “Não” ao “Sim” depois de estudar nosso idioma e descobrir que quando queremos dizer “Sim” dizemos “Pois não”, e quando não concordamos dizemos “Pois sim”. Ou porque em alguns estados tem gente que, para dizer “Não quero”, diz “Quero não”, afirmando antes de negar. Lembro-me de ter visto, em Goiás, um garotinho atirando pedras no tronco de uma árvore e dizendo: “Acertei sim, acertei não...”. O que será que ele vai dizer quando crescer, se apaixonar e despetalar a margarida? “Bem me não quer, mal me quer sim”? Mas se você acha que acaba aí esse monumental imbróglio de comunicação, você se lembra da urna eletrônica usada no referendo? Sim ou não? Pois é, esta seria a ordem normal, mas lá a pergunta foi “Não ou Sim?”. Porque o número “1” era para “NÃO” e o número “2” para “SIM”. A ordem era o inverso de toda a comunicação que estava sendo feita na mídia, que primeiro falava da opção “SIM”, a de número “2”, para depois falar da “NÃO”, a de número “1”. Aquilo deixou os donos de bar em dúvida. Se Mr. Bean entrasse no estabelecimento e pedisse a cerveja fazendo um número “1” com o dedo, era para servir a outra? Faltou o governo esclarecer se o voto em branco valia para armas brancas ou só de fogo. Minha dúvida era sincera, pois tenho pavor de arma de fogo, esteja eu na frente ou atrás da mira. Muito tempo antes daquela campanha eu já estava sentado na sala do escrivão de uma delegacia esperando para devolver um velho revólver de meu pai e um punhado de balas. O revolver era tão velho que se não matasse no ato, certamente a vítima não escaparia do tétano. Quer saber o tempo que levei para entregar a arma? Três horas! Tinha tanta gente sendo presa naquela manhã que não tinha ninguém para me atender. Fiquei ali, na sala do escrivão, de arma em punho e diante de um punhado de balas espalhadas pela mesa, quase arrependido de ter martelado o cano para impedir a arma de funcionar. Bem, a verdade é que até gosto de situações assim, como atrasos de voos ou longas esperas para devolver armas. Elas têm em mim um efeito inverso. Devo ser britânico. Ao invés de sair atirando, saio criando o que vou escrever a respeito, o que pode ter um efeito ainda mais devastador do que uma rajada de balas. Quem me desagradou vira o alvo de minha pena. Mark Twain, falando da classe dos que escreviam na mídia, aconselhava nunca irritar “quem compra tinta em barris”. O ponteiro do relógio já mirava no meio-dia quando um delegado que passava pelo corredor me viu sozinho na sala, de arma em punho. Enquanto ele engatilhava uma expressão de dúvida e espanto, disparei à queima roupa o primeiro pensamento que me ocorreu: – Estou aqui há 3 horas tentando me entregar e ninguém apareceu para me prender. A fumaça de uma expressão que era um misto de surpresa, dúvida e ceticismo ainda não tinha se dissipado do semblante do delegado quando, imediatamente, sorri um sorriso de grande calibre, para desarmar qualquer ideia de desacato. * * * * * Eu sei que vou a Marte Na década de sessenta meus amigos formaram uma banda. Naquele tempo a gente dizia “conjunto”, porque banda mesmo só a que tocava no coreto na praça da matriz. E conjunto não era para “fazer um som” como dizemos hoje, mas para tocar “iê-iê-iê”. Acho que a expressão vinha da música: “Chilóviziú, iê, iê, iê...”, dos “Bitous”. Não ria. Era assim que a letra aparecia no caderno do grupo que se apresentava no “Nosso Clube” todos os domingos, às dez da manhã, logo que terminava a missa das nove, a qual podia terminar antes se o Palmeiras jogasse de manhã. O cônego era palmeirense e em dia de jogo ficava com um olho no altar e o outro no relógio. Naquele tempo o inglês era uma língua estrangeira que nenhum adolescente sabia falar ou entender, portanto não tinha qualquer importância o que estava escrito no caderno – nem para quem cantava, nem para quem escutava. O que valia mesmo era que o som ficasse parecido com o da vitrola que tocava os compactos simples de 45 RPM. “RPM” significava “rotações por minuto” e “vitrola” era o CD player que usávamos então. Alguns a conheciam por “sonata” ou “toca-discos”. Um “compacto simples” tinha apenas duas músicas, uma de cada lado, o “duplo” vinha com um total de quatro. Long-Play novo, apelidado de LP, só no Natal ou no aniversário, porque era caro. Não existia download e você jamais seria capaz de gravar um disco em casa. Se quisesse enviar uma música a um amigo, só fazendo upload na fila do correio. Neste ponto de nossa conversa você pergunta: “E o que Marte tem a ver com isso?” Que Marte? Ah, sim! Já ia me esquecendo do título. O que você ouviu – não o que leu – é como o nome de “Eu sei que vou te amar” teria soado se Vinícius de Moraes não ligasse a mínima para seu cliente-ouvinte. Pois a forma correta desse monumento poético musicado por Tom Jobim é “Eu sei que vou amar-te”. Vinícius e Jobim eram bons conhecedores do português, portanto não erraram sem querer. Foi sem querer querendo. Acredito até que tenham cantado uma primeira versão correta e perceberam que até o planeta ficou vermelho. Aquilo nunca iria pegar. Então decidiram errar, deliberadamente, para deixar o cliente contente. No treinamento que fiz em uma companhia, criei uma dinâmica na qual cada grupo fingia ser uma empresa vendendo e eu fingia ser o cliente comprando. Uma das equipes se deu mal. Indagados de onde estaria o problema, foram categóricos: “No cliente, que não soube se expressar!”. Sugeri que eliminassem o problema, e é o que alguns têm feito até ficarem absolutamente sem clientes. Se perguntar às pessoas quem paga o salário delas, é provável que a maioria responda que é o patrão ou a empresa. Pouca gente percebe que, numa empresa, só existe uma porta de entrada para o dinheiro. Exatamente, o cliente. Há muitas saídas, mas só uma entrada. Se não entrar por ali, não entra. Alguém dirá que o dinheiro vem também dos investidores, mas não conte com este. É empréstimo. Sócios emprestam até o cliente fazer entrar dinheiro suficiente para pegarem de volta o que emprestaram e algo mais. Ou você acha que estão investindo por hobby? Olhe ao seu redor. Tudo o que vê foi pago pelo seu cliente, inclusive o que está em seu estômago. Isto vale tanto para quem trabalha numa empresa, como para profissionais liberais que trabalham por conta própria. Mesmo assim, justamente quando o cliente mais precisa de amor, quem o atende vai a Marte. Já viu aqueles quadros bonitos na recepção das empresas com a “Visão, Missão e Valores”? Morro de rir de alguns. Será que alguém entende aquele palavreado? Cabral deve ter recebido um texto assim quando partiu para as Índias e acabou indo parar na Bahia. Quer uma sugestão para Visão? Escreva lá: “Cliente”. Missão? “Cliente”. Valores? “Clientes”. Pronto. Seu quadro vai ficar menor e mais barato na hora de emoldurar. E cada marinheiro irá entender para onde está apontada a proa do navio, o objetivo da viagem e o tipo de vento que deve impulsionar suas velas. O quadro vai ficar lá sempre igual, mas a maneira como as pessoas vão ler “Cliente” irá mudar, porque o cliente muda. Ele fica cada vez mais sofisticado, mais exigente, mais enjoado. Já não está atrás de alguém que atenda apenas suas necessidades, suas expectativas ou exigências. Quer também significado. Aconteceu isto numa daquelas matinês de domingo no “Nosso Clube”. Tinha acabado de chegar à cidade o primeiro americano que a maioria de nós teve a oportunidade de ver, mas não de entender, já que não veio legendado. A dublagem era feita pelo brasileiro que ficara em sua casa nos Estados Unidos. Ter um americano ali era uma atração à parte, competindo em olhares com o conjunto no palco, que mandava ver mais uma canção dos “Bitous”: Réupi! Ai nidi sam bódi! Réupi! Nójãs enibódi! Réupi! Iú nôu ai nidi sãmuam! Réééupi! O americano ouviu por um tempo, tentou decifrar as palavras e não conseguiu. Virando-se, perguntou para o rapaz ao lado: – Is that Portuguese? * * * * * Os caçoadores de mitos” A tarde de sábado estava preguiçosa. Após rodar por trocentos canais, a bolinha da roleta remota parou no Discovery Channel: “MythBusters” – os “Caçadores de Mitos”. No programa, dois especialistas em efeitos especiais se empenhavam em criar ou destruir mitos e lendas. Com muita cola, sucata e inventividade, eles já provaram que o gordo Goldfinger jamais teria sido sugado pela janelinha do avião despressurizando após lutar com James Bond. Mas, segundo eles, foi verdade que Huguinho, Zezinho e Luizinho, os sobrinhos do Pato Donald, fizeram flutuar um barco naufragado apenas bombeando bolinhas de pingue-pongue em seu interior, como aconteceu no gibi. No episódio de minha tarde de sábado eles tentavam destruir o mito de que um carro embrulhado em papel alumínio consegue burlar o radar. Aposto como você nunca pensou em escapar do radar embrulhando seu carro em papel alumínio, pensou? Mas quando ativaram radar do teste na TV, ouvi um “PLOC” em minha mesa de centro. Um cinzeiro de vidro fino acabara de quebrar em dois. Teria sido o som? Decidi averiguar. Você pode até caçoar de mim, mas fotografei a mesa e o cinzeiro e poucos minutos depois as fotos estavam na Internet e o link numa mensagem enviada ao fórum de debates do site do programa. O que teria quebrado meu cinzeiro? A frequência do som emitido pelo radar ou a coincidência? Aguardei pela resposta. No passado eu teria que apelar para o Thesouro da Juventude, mas não encontraria a resposta ali. Talvez aprendesse que existe no Sol um elemento químico chamado “corônio”, que uma viagem a Marte é impossível porque faz muito frio no caminho, mas que podemos nos comunicar com nativos de lá, escrevendo mensagens com letras gigantes no deserto do Saara. Antes que você pergunte, sim, naquela edição a Terra já saiu redonda. Os que caçoam da Internet como fonte de pesquisa duvidam da veracidade da resposta que posso encontrar ali para a questão do cinzeiro. Mas, se eu encontrasse no Thesouro da Juventude ou em qualquer enciclopédia menos infantil, quem garante que a informação ali não seria mito? No passado a autoridade da informação esteve nas mãos do clero, que pintava e bordava com ela. Era uma época quando a Terra era plana. Depois foi a vez da universidade e da enciclopédia, que passou a publicar de cara lavada a verdade absoluta, até prova em contrário, o que costumava acontecer a cada nova edição. E hoje, enquanto caçoamos da falência e falta de atualização das enciclopédias, a quem iremos recorrer? Alguns recorrem à imprensa. De que cor? Ouvi dizer que um dos critérios do MEC na hora de avaliar uma faculdade é o movimento de retirada de livros de sua biblioteca. Se a taxa for baixa, significa que os alunos não estão pesquisando nas fontes fidedignas do saber. Será que entendi o que ouvi? Num e-mail uma estudante pedia sugestões de bibliografia para seu trabalho de graduação, com a ressalva de que o professor só aceitaria referências de livros, nada de Internet. Mas, se o papel aceita tudo, que mito faltou ter aceitado para corrermos tamanho risco de encontrá-lo na Internet? Quando saiu meu sexto livro decidi que jamais poria minha mão no fogo pelo que escrevi nele ou nos outros cinco. Um dedinho, talvez. Mas seria insensatez queimar os outros nove por ideias das quais no futuro eu mesmo poderia vir a caçoar. Todo escritor escreve só até onde sua mente alcança, provavelmente para editar, completar ou desmentir depois. Há sempre algo de novo nos esperando do lado de fora do gueto de nossos mitos momentâneos. Minha pergunta no fórum dos “Caçadores de Mitos” do Discovery Channel não ficou sem resposta. Em menos de uma semana quatro especialistas em cinzeiros quebrados já tinham se manifestado. O mais normal deles disse que foi coincidência, mas outro apostava que tinha ocorrido um problema de “orgones dissociados”. Antes que você pense tratar-se de uma banda de rock, segundo ele “orgones dissociados” é uma espécie de desarranjo da energia cósmica, um tipo de diarreia sideral. Outro concordou, acrescentando que eu deveria analisar a peça em busca de traços de ácido hídrico. Talvez eu faça isso um dia, está em algum lugar de minha lista que não sei onde deixei. O último sugeriu uma combinação de ácido hídrico com a influência dos campos eletromagnéticos. Se você pensar bem, até que faz sentido. Da próxima vez que fizer exame de ácido úrico vou pedir um de ácido hídrico para o que sobrou do cinzeiro. Mesmo assim, vou aguardar uma resposta oficial, científica e comprovada num próximo episódio dos “Caçadores de Mitos”. Porque no Discovery eu acredito, e seria melhor ainda se o programa não fosse dublado, já que tudo o que vem em inglês é verdade. Somente uma explicação oficial de Adam Savage e Jamie Hyneman, os apresentadores do programa, irá me satisfazer. Aí terei certeza absoluta da causa da quebra do cinzeiro. Neles eu confio. E como poderia ser diferente? Foram eles que criaram os efeitos especiais de filmes como Guerra nas Estrelas, Exterminador do Futuro e Matrix! Se não acreditar neles, vou acreditar em quem? * * * * * Diversidade à flor da pele Cresce a diversidade no trabalho. Faz duas ou três décadas que você vem aprendendo a conviver com a diversidade cultural e étnica gerada pela globalização. Agora a moda é diversidade de idade. Depois que o IBGE aumentou a expectativa de vida da população, velho passou a ser coisa do passado. Avise os amigos do boteco que você vai chegar mais tarde para o dominó. É claro que a previdência vai fazer a gente trabalhar mais tempo, afastando cada vez mais a cenoura da aposentadoria da frente do cavalo e gerando uma enorme disparidade de idade no ambiente de trabalho. Uma menina nascida hoje na França ou no Japão tem 50% de chances de viver 100 anos. Portanto, se a sua chefe for francesa ou japonesa, pode esquecer a promoção. Elas são duras de morrer. Isso está tirando o sono da previdência. Graças aos aditivos azuis, os velhinhos estão conseguindo levantar as estatísticas dos matrimônios com as coleguinhas das netas. Como nada dura para sempre, vem aí uma legião de viúvas na faixa dos vinte e poucos que só se se uniram ao noivo esperando que a morte os separasse para serem felizes pensionistas para sempre. Imagine o rombo na previdência! E se elas forem francesas ou japonesas? Ou reincidentes? O abismo entre as gerações se intensifica até pela velocidade das mudanças culturais. Um jovem do século 19 não estava culturalmente muito longe do avô. As roupas eram as mesmas, as músicas eram iguais e o idioma também. Hoje, até a linguagem separa as gerações. Se o adolescente chamar o chefe sexagenário de “animal” corre o risco de ser demitido. O chefe não vai entender o elogio. A aparência, então, é um capítulo à parte. Na minha adolescência ninguém usava piercing. Usávamos espinhas, mas elas dificilmente ficavam no mesmo lugar. Tatuagem, só se fosse aquela cicatriz na testa, da queda do abacateiro, ou do caco de vidro no pé. De resto era igual. Nós nos orgulhávamos e as exibíamos como os garotos de hoje exibem tatoos. Você pergunta se eu contrataria alguém tatuado? Sim, sem dúvida. Se gosto de tatuagem? Não. Acho a pele bela demais para ficar permanentemente oculta por tinta. Eu não pintaria uma pérola, e você? Mas minha opinião não conta porque sou de outra geração e nem tenho físico para a coisa. A área preferida dos garotões para tatuar são os braços, devidamente inchados com baldes de proteína. Os meus são finos como minhas canelas, portanto estou fora do padrão. Neles mal caberia uma prancha de surf de perfil, quanto mais a onda! Teria que tatuar na barriga. Ali sim, cabe um tsunami. Além disso, estou naquela idade em que hoje você tatua um ovo e amanhã ele parece omelete, tamanha a rapidez da flacidez. Porém, antes que os tatuados me odeiem e soltem os cachorros – e tem gente que tatuou até o cachorro – admito que a arte aplicada tenha sua beleza. Às vezes vejo verdadeiras galerias desfilando por aí em torsos que precisam ficar nus em pleno inverno para garantir que seu investimento e dor serão apreciados. Mesmo assim só olho de soslaio, pois nunca sei se posso ficar olhando ou corro o risco de acabar tatuado com um hematoma. Mas, quer você goste ou não, é um mercado em crescimento que movimenta cada vez mais dinheiro em sua cadeia de produtos, equipamentos e serviços de furar, pintar e grampear. E remover tudo isso depois – devo chamar de pós-venda? – porque sempre tem quem se arrependa ou encontre dificuldade na hora de arranjar outro namorado com o mesmo nome do anterior. Ouvi dizer que a taxa de arrependimento é bastante alta, mas não sei se a culpa é do namorado ou da tatuagem. Para quem entra no mercado de trabalho a tatuagem pode ou não criar dificuldades. Depende da cultura da empresa, do perfil de seus clientes ou até da faixa etária de quem contrata. Embora diversidade seja hoje sinônimo de inovação em alguns segmentos, em outros ainda existe discriminação – implícita ou explícita – de sexo, idade ou aparência física. Por isso alguns cuidados devem ser tomados por aqueles que pretendem seguir uma carreira. Sei de um jovem que foi precavido. Pensando no futuro, mas não querendo abrir mão do presente, só tatuou o couro cabeludo. Todo ele, a partir da linha do cabelo. Fez da cabeça uma obra de arte, expondo sua mente brilhante para pessoas e pássaros. Para aumentar a exposição, adotou até um jeito oriental de cumprimentar. Mas o que fazer para não ser discriminado profissionalmente quando começasse a trabalhar? Ora, garoto inteligente aquele, pensou em tudo. Era só deixar o cabelo crescer quando terminasse a escola e fosse pleitear uma vaga no mercado de trabalho. Pensou em tudo, menos em três detalhes. Um pai e dois avós carecas. * * * * * Flexibilidade feminina A mulher sentada ao meu lado na sala de embarque do aeroporto não era apenas belíssima. Ela estava cosmeticamente perfeita. Além da elegância do vestido, seu rosto parecia ter saltado da foto de uma embalagem de cosmético, tamanha a perfeição do cabelo e da maquiagem. A questão é que eu tinha acordado às quatro da manhã para limpar as remelas do olho, passar a mão no cabelo e correr para não perder o voo. A que horas ela acordou? Teria dormido pronta? Nasceu assim? Não consegui decifrar o enigma. É preciso muita flexibilidade para ser mulher. Já pensou decidir entre uma miríade de roupas, calçados e bolsas qual combinação usar? Tudo bem que isso às vezes leva horas, e a mulher sentada ao meu lado poderia estar sem dormir há dois ou três dias, mas mesmo assim ela merecia minha admiração. Eu, no máximo, precisei decidir a cor da gravata, já que para o terno a decisão fica sempre entre o preto e o preto. Nada é mais flexível do que uma mulher. A começar pelo corpo, que já foi projetado para esticar até a gestação recorde de oito bebês e voltar à barriga de tanquinho original. Elas são flexíveis e resilientes. O homem? Pode esquecer. Oito cervejas depois e a barriga de tanquinho dá lugar a uma barriga permanente de máquina de lavar. Mulheres não são apenas flexíveis, elas também têm o poder de flexibilizar. Qualquer homem sabe o que é ser dobrado, torcido e manipulado por uma mulher. Durante séculos milhares de inimigos da Dinastia Ming tentaram transpor a Grande Muralha da China. Todavia, nenhuma pedra precisou ser derrubada, graças às súplicas de Chen Yuanyuan, a concubina sequestrada do general Wu Sangui. Na esperança de salvá-la das mãos de um grupo rebelde, o general fez um acordo com o exército inimigo e mandou abrir os portões para deixá-lo entrar. Do lado ocidental do planeta, mulheres inventoras trouxeram flexibilidade à vida moderna. Mary Anderson flexibilizou o uso do automóvel, que passou a circular também em dias de chuva depois que ela inventou o limpador de para-brisa. Marion Donovan deu maior flexibilidade à vida de pais e bebês, ao inventar a fralda descartável. E o trabalho da polícia ganhou maior flexibilidade e segurança com a invenção de Stephanie Kwolek, criadora do Kevlar, o material dos coletes à prova de balas. Mas elas são flexíveis também quando utilizam coisas já inventadas. Observei a mulher ao meu lado no aeroporto abrir a bolsa, tirar o batom e retocar os lábios. Depois abriu o celular e olhou para a tela. Aí foi a vez do blush e, mais uma vez, do celular. O lápis reforçou o contorno dos olhos e... sim, você adivinhou: outra vez a olhadinha no celular. Intrigado, e achando que ela usava a tela do celular como espelho, estiquei o olhar e reparei que a imagem de seu rosto estava nítida demais para ser apenas um reflexo. Foi aí que percebi o quanto ela era flexível até no uso do celular. A cada retoque a mulher tirava uma foto do próprio rosto para conferir. * * * * * Invenção feminina Que o blog foi inventado pelas mulheres, ninguém pode negar. Não estou falando da versão Web, mas do original: o diário pessoal. Eu me lembro muito bem dos tempos de ginásio e das meninas com seus diários. Qual garoto teria coragem de fazer uma coisa daquelas e ainda por cima mostrar para os colegas? Nem pensar. Se você discorda, tente comprar um diário em uma papelaria. Aposto como só vai encontrar com capa cor-de-rosa e com a figura da Barbie ou da Hello Kitty. Se mesmo assim decidir comprar, não se esqueça de pedir a chave. Todos vêm com um cadeadinho que não protege coisa alguma e só serve para aguçar a curiosidade. Se não fosse assim, quem iria querer ler o diário alheio? Os blogs de papel podiam ser individuais ou coletivos. Sim, era comum a menina ter um blog espiral só seu, mas que era entregue às colegas com um prazo para devolver. Cada uma escrevia ali poemas, colava recortes de revistas e pingava uma gota de perfume na página. Era impossível abrir um caderno daqueles e não passar mal. Dos cadernos de papel ao mundo virtual foi só uma questão de mudança de ares, já que o conceito estava criado. A diferença é que, na Web, a maioria dos blogs não cheira nem fede, talvez por ainda não terem inventado a gota de perfume virtual. Outra diferença é que agora os homens aderiram em peso. Mesmo assim não conseguirão jamais superar a capacidade de atração e comunicação das mulheres, seja na Web ou fora dela. O que mais atrai leitores é essa sensação de buraco de fechadura que o blog dá. Ele permite bisbilhotar a intimidade do autor, e tem gente que conta ali coisas que não contaria nem para a própria mãe. Deve ser por isso que conheci uma mãe que monitora suas duas filhas adolescentes lendo regularmente o blog delas. Elas não sabem que a mãe sabe o endereço do blog onde publicam literalmente tudo: aonde foram, o que fizeram e com quem. Mas não é só das próprias intimidades que vivem os blogs. Os mais famosos são os que falam das intimidades alheias, e já virou hábito a mídia convencional transcrever algum furo de reportagem dado por um blogueiro qualquer. Como existem mais blogueiros do que jornalistas espalhados por aí, a probabilidade de algum deles estar onde a notícia está é muito maior. Algo como aqueles motoristas que ligam para a rádio para informar sobre o trânsito. A facilidade que é hoje criar um blog fez com que eu perdesse a conta de quantos já criei, como eu mesmo ou usando um pseudônimo. Em 2001, quando os Estados Unidos invadiram o Afeganistão, criei um blog todo em inglês usando o pseudônimo de Ali Kilabah, um fictício jornalista árabe que supostamente acompanhava as tropas norte-americanas em busca de Bin Laden e relatava suas aventuras no blog. Parei de escrever antes que o FBI resolvesse me procurar. Em um fórum em inglês descobri que tinha gente discutindo se o Ali Kilabah de meu blog seria mesmo um jornalista ou um terrorista que usava o blog para passar mensagens cifradas para a Al-Qaeda. Minhas buscas também revelaram dois jornais na Web que publicaram algo sobre Ali Kilabah e suas andanças pelas cavernas de Tora-Bora. Só entendi o italiano, o outro era russo. Apesar de ter experimentado o poder dos blogs, continuo achando que as mulheres ainda são campeãs nisso, pois um blog de verdade não deve ser uma via de mão única, mas uma conversação entre o autor e seus leitores. Os homens adotam, por natureza, uma postura do tipo “eu falo e vocês escutam”, enquanto as mulheres conseguem seguir o modelo “nós falamos e nós escutamos”. É claro que nós homens não conseguiríamos o mesmo resultado, pois isso depende da característica exclusivamente feminina de estar atenta a tudo e a todos ao redor. Vi isso quando precisei entrar em um salão de beleza para chamar alguém. A princípio tive a impressão de que todas aquelas mulheres falavam ao mesmo tempo e nenhuma escutava. Estava enganado. Logo uma senhora, que conversava com a amiga à sua frente, virou-se e, olhando para uma mulher do outro lado do salão, disparou: – Não concordo com isso não, meu bem! * * * * * Banana, menina, tem vitamina Qual a diferença entre a grande mídia e a mídia nanica? Bem, uma é isenta, a outra tendenciosa. Uma é original, a outra copiadora. Uma se alimenta de fatos, a outra de bananas. Mas qual é qual, afinal? Decida você. Não há dúvida de que uma é 'mais grande' e desculpe pelo 'mais grande'. Já que escrevo num blog, segundo a grande mídia não posso ser 100% correto ou confiável. Questão de coerência. Continuando, nem sempre o 'mais grande' é o mais inteligente. O "Asno de Buridan", por exemplo, morreu de fome. A mídia 'mais grande' ficou assim por vender melhor. Um dentista contou que, na última aula da faculdade, o mais arcano dos mestres revelou aos alunos a fórmula do sucesso na profissão: – O dentista mais bem sucedido financeiramente não será o que tirou as melhores notas. Será o melhor vendedor. Vender sempre foi a alma do negócio, e às vezes as almas são o negócio. Há quem compare grandes e pequenas mídias em termos de credibilidade, qualidade e compromisso. Eu comparo em termos de vitamina. Na pequena – blogs, youtubies, podcasts – a vitamina que faz a menina crescer não é a banana, é o ego. Por falar nisso, já contei que meus vídeos da TV Barbante está quase batendo na marca de quatro milhões de acessos? Pois é, na grande mídia a vitamina é o capital. E seu produto? Quem aí acha que é informação levante a mão. Errou. O produto da grande mídia são as almas leitoras, ouvintes ou telespectadoras vendidas aos anunciantes. Tem nanica, prata, ouro... Já foi mais fácil vendê-las, mas hoje a bananada está debandando para a banca da Internet. Então, na falta de prata e ouro, é preciso adaptar o nível da grande mídia à nanica, que cresce nas bananeiras mais baixas. – Peraí, e eu, qual é o meu papel? – pergunta indignado meu leitor jornalista. Criar textos e pretextos para atrair e manter as pencas numa mesma banca. Ou quem você acha que paga seu salário. Quem consome informação? Tá brincando! Cole o ouvido na porta do departamento comercial e ouça você mesmo: "Olha o leitor de informática, quem vai querer?" "Executivos a caminho do trabalho, compre aqui na minha rádio!" "Donas de casa desesperadas? É neste canal!". E por aí vai. – A pequena pode ser pessoal, mas a grande é imparcial – esclarece meu leitor publicitário defendendo seu cliente. Imparcial? Negócios nem sempre podem dar-se ao luxo de serem imparciais na hora de decidir para qual brasa puxar a banana, digo, a sardinha. A pauta mantida ou caída, por exemplo, já é uma tomada de posição. Quando o negócio é vender, vale até a não notícia: "ESTARIA A CHINA PLANEJANDO INVADIR A AMAZÔNIA?" Nunca viu manchete assim, perguntando? Diz o que ninguém disse para criar fuzuê e aumentar a tiragem. Ah, tem a tiragem. Sabe para que servem aquelas campanhas do tipo "receba grátis por três meses"? Lembre-se, é de almas que o negócio vive, pagantes ou não. Quanto maior a penca, mais brilham os olhos do freguês. Quantas dúzias você acha que se juntam ao cacho numa campanha assim? Mas ainda há outros truques. Exemplo? Opiniões que ajudam a atrair concessões pós-eleições. Mais? Apostas em clientes grávidos de futuros patrocínios. É aí que entra a arte de transformar empresas em notícias: "MARIO PERSONA PLANEJA FATURAR UM MILHÃO PLANTANDO BANANEIRAS" Vai dizer que nunca viu uma notícia assim? Não é notícia, mas sai como se fosse, desde que a empresa que 'planeja' tenha cacife para realizar o que foi conversado atrás das bananeiras: comprar tempo e espaço de veiculação. Nem sempre funciona. Na época da bolha ponto com vi muita promessa feita para embrulhar leitores acabar embrulhando carne em açougue. Isso quando o feitiço não virava contra o feiticeiro, como aconteceu com um empresário que conheci. Na ânsia de fazer sua empresa crescer e aparecer, contratou uma assessoria de imprensa e conseguiu. Não crescer, só aparecer. Sua empresa não saiu do chão, mas o 'case' fabricado foi parar numa revista de projeção, com uma astronômica previsão de faturamento. A empresa dele faliu, mas a revista continuou nos salões dos cabeleireiros, até sua ex-esposa ler o tanto de vitamina que a finada empresa do marido tinha em sua previsão. Não deu outra: pediu a revisão da pensão. * * * * * Yes, nós temos cana. O Tio Sam veio aqui, chupou cana, escovou os dentes e assoviou de contente. Se antes o vizinho era o Canadá, agora vizinho é qualquer país onde cana dá. O Brasil se alvoroçou, Zé Carioca sambou e Carmem Miranda cantou: “Yes, nós temos cana!” O petróleo virou vilão. E quem vai dizer que não? Monteiro Lobato quis defender o petróleo e pegou seis meses de cana. Mal sabia ele que um dia o país deixaria de lado “O Petróleo é Nosso” e adotaria o lema “Cana Para Todos”. A Polícia Federal já adotou e veja no que deu. Os canadólares apareceram mais rápido que os petrodólares. Tirando os morros do Rio, onde a cana é difícil de pegar, a monocultura vai tomar de assalto nosso território. O Brasil vai ficar um verde só, do Oiapoque ao Chuí. Os ambientalistas que nos vigiam pelo Google Maps vão pensar que reflorestamos a nação. Mal sabem eles que o país do carnaval virou um canavial. No interior de São Paulo, onde moro, “canaviar” é substantivo caipirês, mas aposto que vai virar verbo. Aqui está tudo canaviado. Se canaviar afeta a biodiversidade? Que biodiversidade? Aqui mel tem gosto de melado, teta de vaca dá garapa e passarinho voa em ziguezague depois que bebe água que passarinho não bebia. No resto do país tem gente preocupada porque o João vai canaviar a lavoura do feijão. Geralmente quem se preocupa não está na pele do João. Se estivesse, também iria para onde aponta o lucro imediato, pois é assim que funciona a economia. Nosso comportamento é ditado pela demanda. Existe demanda por drogas, caça-níqueis e produtos piratas? Então a cana vai correr solta, enquanto cresce a indústria de seguros, blindagem e vigilância. Há demanda por combustível verde? Então a cana vai crescer solta, enquanto crescem as pesquisas, equipamentos e serviços de minimização do impacto ambiental. Somos assim, vivemos correndo atrás do prejuízo porque buscamos satisfação imediata. O ser humano tem olhos na frente do crânio, como o felino predador e a ave de rapina. É essa sua natureza e vocação, daí viver remendando sua saga destrutiva. Quem ainda acredita na evolução humana experimente ficar quinze minutos na Linha Vermelha no Rio meditando pela paz mundial. Em 1980 o Papa desfilou aqui em um papamóvel com carroceria anti-chuva. Em 2007, vinte e sete anos mais tarde, o papamóvel de 10 milhões de reais resistia a granadas e tiros de metralhadora e fuzil. O que evolui não é o homem, mas a tecnologia que nos mata e também garante nossa sobrevivência. Sim, é inevitável que a cana substitua o arroz, o feijão e o bife, enquanto o álcool sobe no ranking das exportações, hoje encimado pelo minério, soja e brasileiros mandando dólares do exterior. O minério não é renovável e a soja dá também nos Estados Unidos. O jeito vai ser exportar álcool e brasileiros, não no mesmo voo. Não seremos os únicos em busca de alternativa. O Dubai sabe que seu petróleo tem data para terminar e corre para o turismo, enquanto o Bahrain corre para as corridas e outros esportes. Nós, quando a coisa aperta, corremos para a cana. É nossa vocação desde os tempos de Macunaíma. Mas o que será da vaca quando os pastos forem canaviados? Se depender dos relatórios da ONU, a vaca vai para o brejo. Vacas eructantes e flatulentas são grandes vilãs do aquecimento global. Juntando o arroto quadruplicado de seus quatro estômagos e o escapamento que trazem sob o rabo, as mimosas produzem mais poluentes que todas as emissões de carros e fábricas do mundo. Complicou para os ativistas de botequim, que preferiam protestar contra a cana sem abrir mão do espetinho de carne e do provolone com cerveja. A cerveja fica, mas já tem gente correndo atrás da avestruz para substituir a vaca, o que não é tarefa fácil. Além disso, avestruz não dá leite. A cana não corre e é mais flexível. Já inventaram até cana geneticamente modificada para canaviar pântanos e desertos. Não demora e a cana vai parar na mamadeira. Se os argentinos conseguiram criar vacas transgênicas que produzem insulina humana, e o nordeste já faz carne do bagaço do caju, o que nos impede de inventar um alambique leiteiro? Tenho certeza de que os pesquisadores brasileiros encontrarão mais de 51 maneiras de utilizar a cana, e os bebês do futuro já nascerão “flex”. Para quem a cana é uma ameaça, o jeito é encarar e mudar, e não tentar evitar o inevitável. Até Monteiro Lobato, petrolista convicto, acabou desenvolvendo uma paixão secreta pela cana. Sua biografia revela que o escritor não saía de casa sem um belo pedaço de rapadura escondido no bolso do paletó. * * * * * Depois do fim do mundo O mundo acaba de acabar para você e outro mundo está para começar. O que promete o mundo que vem? Meu palpite é que pode ser tanto um túnel, quanto uma luz ou um trem, dependendo do ponto de vista. Seja o que for, para muitos será um mundo de oportunidades. Quando a oportunidade bate à porta, muita gente fica insegura se deve abrir ou não. “Oportunidades? Mas e essa crise toda que está nos telejornais?” Sim, eu sei que a previsão não é de tempo bom para o mercado, mas o segredo é ficar atento não apenas nas notícias, mas também nos intervalos. E foi no intervalo de um telejornal que percebi que as nuvens sombrias de crise e recessão são também um prenúncio de oportunidades. Você irá concordar que por mais nebulosas que sejam essas nuvens, elas não chegam aos pés da nuvem em forma de cogumelo que cobriu Hiroshima há seis décadas. E foi no intervalo de um telejornal da CNN que me dei conta de que existe saída para qualquer crise: era o comercial de um hotel de luxo bem no centro de Hiroxima. Percebe onde quero chegar? O Japão, único país do mundo a sentir na pele duas bombas atômicas, deu a volta por cima e se transformou numa das maiores economias do planeta. A Alemanha, idem. A maior economia da Europa atual ressurgiu literalmente das cinzas das bombas da segunda guerra. Sim, eu sei que essas duas economias também têm estado devagar, quase parando no engarrafamento da economia mundial. Mas você já viu o tanto de gente que vende água e biscoito em engarrafamento? É assim que funciona: quando uns param, outros andam e lucram com isso. Tudo indica que chegou a vez de a oportunidade bater à porta dos mercados emergentes do lado de cá do Equador. Um provérbio búlgaro diz: “Agarre a oportunidade pela barba, pois vista por trás ela é careca”. Concordo. Quem encara a oportunidade de frente é o empreendedor, aquele que detecta problemas que ninguém viu, sugere soluções que ninguém espera e aponta para oportunidades que ninguém imagina. É ou não é uma boa lista de promessas para começar de novo? E o que é melhor, a lista começa pela coisa mais fácil de se descobrir: problemas. Comece por aí e depois tente encontrar as soluções e apontar as oportunidades. Pode ser que veja um produto ou serviço que ninguém viu, esperou ou imaginou. “O quê? Você está dizendo que problema é o que não falta?!” Não estou falando dos seus problemas, mas dos problemas dos outros. Tempos de crise significam novos problemas que precisam ser resolvidos, e sempre existe alguém disposto a pagar por soluções. É aí que estão os fios da barba da oportunidade. Mas é bom ter em mente que a oportunidade é sutil. É preciso estar atento ao mais leve toque de sua presença. No auge da crise de 1930, uma companhia de navegação norte-americana colocou um anúncio de emprego no jornal. Precisava de um telegrafista. Dezenas de profissionais compareceram ao local da entrevista e a grande sala de espera ficou pequena, de tantas pessoas desesperadas por um emprego. Enquanto os candidatos aguardavam em silêncio, um jovem se levantou, atravessou a sala, e desapareceu pela porta que dava acesso à sala da gerência. O gerente surgiu alguns minutos depois, agradeceu a presença de todos, e avisou que já tinham contratado um candidato. A gritaria foi geral. Todos reclamavam, querendo saber por que não tinham sido chamados para a entrevista. — Eu chamei — retrucou o gerente, — mas apenas um entrou em minha sala. Os candidatos ficaram ainda mais irados. Foram unânimes em afirmar que em momento algum ouviram a voz do gerente convidando para entrar em sua sala. — E quem falou em voz? Vocês não são telegrafistas? Não ouviram quando eu batuquei com o dedo uma mensagem em código Morse pelo lado de dentro da porta de minha sala? Os candidatos imediatamente entenderam que tinham acabado de ver a oportunidade pelas costas. Todos tinham ouvido aquele toc-toc-toc vindo da porta da gerência, mas só um percebeu que dizia: "O emprego é do primeiro que entrar". * * * * * MARIO PERSONA é palestrante, professor e consultor de estratégias de comunicação e marketing e autor dos livros “Cônicas para ler depois do fim do mundo”, “Dia de Mudança” (também em inglês “Moving ON”), “Marketing de Gente”, “Marketing Tutti-Frutti”, “Gestão de Mudanças em Tempos de Oportunidades”, “Receitas de Grandes Negócios” e “Crônicas de uma Internet de verão”. Todos eles podem ser encontrados em formato impresso nos endereços www.bookess.com, www.clubedeautores.com.br e www.amazon.com e também em formato e-book em www.smashwords.com . Mario Persona participou também como autor convidado das coletâneas “Os 30+ em Atendimento e Vendas no Brasil”, “Gigantes do Marketing”, “Gigantes das Vendas”, “Educação 2007”, “Professor S.A.” e “Coleção Aprendiz Legal”, além de ter sido citado como “Case Mario Persona” no livro “Os 8 Pês do Marketing Digital”. Traduziu obras como “Marketing Internacional”, de Cateora e Graham, “Administração”, de Scherme-rhorn, “Liberte a Intuição”, de Roy Williams, além de diversos livros de comentários sobre a Bíblia. É convidado com frequência para palestras, workshops e treina-mentos de temas ligados a negócios, marketing, comunicação, ven-das e desenvolvimento pessoal e profissional. Alguns temas são: Gestão de Mudanças Criatividade e Inovação Clima Organizacional Gestão do Conhecimento Comunicação Marketing e Vendas Satisfação do Cliente Oratória Marketing Pessoal Qualidade Vida-Trabalho Administração do Tempo Segurança no Trabalho Controle do Stress Meio-Ambiente Gostou deste livro? 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