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O Seminário foi a única forma encontrada no momento para o autor se esquivar à pressão familiar e à mediocridade do ambiente onde vivia. Aliado a isto, havia a desadaptação à escola e aos colegas. Pensando que o Seminário seria uma espécie de paraíso onde todos comungavam das mesmas ideias, das mesmas aspirações, apanhou uma grande decepção. No Seminário havia pessoas e, como tal, diferentes entre si. Foi um choque que levou o autor a refugiar-se na biblioteca, na obsessão pela história e a genealogia familiares e em tudo o que não interessava e era exterior ao Seminário. Parecia um velho com cara de rapazinho de dezasseis anos.

Porém, as suas ideias, o seu comportamento iam mudando sem ele se aperceber. As bofetadas psicológicas e reais dos colegas e superiores, a leitura de livros de largos horizontes, o estudo de novas disciplinas e matérias, como a Filosofia e a Literatura, o conhecimento de opiniões diversas, foram minando aquilo que ele pensava ser definitivamente verdadeiro. Nada era definitivo, as coisas mudavam e, como elas, as pessoas.

O Seminário abriu fronteiras, destruiu preconceitos infantis, revelou caminhos. As arestas foram limadas, o bom que existia foi posto fora, para que todos vissem que o autor não era um pateta convencido, cheio de manias e de bazófia. Houve mais três anos de Seminário e cada vez mais o autor se dava conta de que Deus não estava em corredores compridos e escuros, em capelas frias e silenciosas, em livros empoeirados e bolorentos, em palestras e prelecções espirituais. Deus estava no coração das pessoas e era lá que se deveria procurá-lo.


Horta, 7 de Novembro de 1988.



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