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O Construtor de Cidades


(romance)


José Leon Machado



Edições Vercial



Quando cheguei, já o colóquio sobre flora marinha tinha começado. Sentei-me entre o público, numa cadeira de napa esverdeada e rota. Ao meu lado esquerdo estava uma senhora de cinquenta anos, o cabelo pintado de amarelo e demasiado maquilhada, que se mostrou muito simpática em sorrisos de porcelana e comentários ao tema tratado na mesa. A dada altura, senti-lhe a perna na minha e pus-me a olhar o tecto iluminado e com uma estranha cúpula pentagonal onde havia uma harpia atrás de um rapazinho nu por entre árvores e flores. Senti-lhe o vapor de água na minha orelha:

Isto está aborrecidíssimo. E se fôssemos até minha casa? Oferecia-lhe um chá com biscoitos caseiros feitos pela minha empregada, uma óptima doceira.

O colóquio estava a dar em nada. Um engravatado, numa comunicação de vinte páginas compactas, dissertava sobre os espongiários marinhos. Vi-me então na casa da senhora como que por artes de magia, sentado à volta de uma mesinha com chá de pés de cereja a fumegar de um bule de porcelana, chá este que, segundo especialistas da ervanária, fortalecem a próstata, e biscoitos caseiros amanteigados, tudo servido pela empregada, uma rapariga branca de pele e de lábios grossos, que me sorriu e reconheci não sei donde. Ela saiu e, antes de desaparecer pela porta que certamente dava acesso à cozinha, voltou-se para trás e ao longe ofereceu-me os lábios num beijo gordo.

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