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eu gostaria de ter tido um piano

a menina que queria desafinar 2013 Miguel Viegas Leal ©




eu gostaria de ter tido um piano. sempre me identificara com aquele instrumento não sei por que razão. associava-o a grandes bailes, às danças alegres de ballet ou - como são enormes os paradoxos - a manifestações exageradas de tristeza. nunca me tornara numa pianista. mas gostaria de o ter tentado. quero dizer, sabia pressionar umas quantas teclas e era capaz de compor uma combinação de sons. a isso acho que se chama improviso, e nunca me lembrava do que tocava, à excepção de uma música. não me lembro quando ou como, mas aprendi uma música. e era, porventura, a única que sabia tocar. não sei como se chamava, era umas vezes lenta outras rápida, sempre melancólica, e quando não me enganava – o que era raro acontecer - achava-a maravilhosa.

mas eu não tinha um piano. nem sempre podia ter um piano. por vezes, tocava naquele do lar de abrigo para os pobres. um instrumento misterioso. enquanto a minha família esperava numa interminável fila que lhe fosse atribuída um quarto onde pernoitar eu rezava para que tal acontecesse, não por ter um teto debaixo do qual dormir mas sim pelo desejo de possuir - nem que fosse por uma noite - um piano de parede do qual alguém se esquecera por baixo do vão das escadas. apesar de partido, riscado, as suas cordas quase rotas e um dos seus pedais partidos, era incapaz de disfarçar aquele encanto de iniciante que possuía pelo que os outros chamavam de entulho. abria o tampo e observava o seu teclado comido pelo tempo. as teclas pretas continuavam pretas, porém, não se podia dizer o mesmo das outras, amareladas, encardidas pelo tempo. o tempo só sabe encardir.

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