Interview with Firmino de Tibúrçia

What is the greatest joy of writing for you? [Qual é a maior alegria para você ao escrever?]
Certamente é dar vazão à enorme quantidade de ideias e pensamentos caóticos que vagam pela minha mente, procurando ordená-las em texto escrito de alguma forma criativa e que dê prazer ao ato de leitura.

Regra geral, preciso sentir prazer ao ler aquilo que escrevo. Na verdade, preciso mesmo é me apaixonar por texto e forma, sentir o encantamento que deve emanar do que leio. Sou sempre o primeiro e mais feroz crítico de meus textos, sejam eles contos, prosas, poesias, cartas, memorandos, avisos, mensagens de e-mail e o que mais possa ser escrito.

Chego a ficar horas trabalhando em uma frase, por vezes procurando outra palavra que possa trazer um novo encanto ao sentido do que quero transmitir, buscando a “sensação perfeita” para significar a ideia exata do que sinto. Até mesmo ao escrever mensagens de e-mail, posso me demorar “além do razoável” para concluí-la.

Realmente, pode até parecer um comportamento paranoico. No entanto, em psiquiatria isso é uma característica de personalidade: sou extremamente perfeccionista e detalhista. E isso não se “cura”.

Portanto, a maior alegria que sinto ao escrever é alcançar texto e forma perfeitos. Obviamente, “perfeitos” para mim, o que não significa que eventuais leitores concordem com minha “perfeição”, já que a perfeição é um conceito relativo, ligado ao resultado que se quer atingir.
What is your writing process? [Qual é o seu processo de escrita?]
Essa é uma questão bastante curiosa... Na escola sempre deixei muito a desejar em Português, chegando a repetir a 2ª série do Ginásio nessa matéria, assim como em Matemática e mais algumas; foi um ano péssimo para mim em tudo. Minhas redações eram ruins mesmo, ridículas eu diria. Jamais me destaquei em Português, achava um horror aquele amontoado de regras e armadilhas de nosso idioma. E eu tentava me enquadrar nas regras, produzindo textos totalmente insossos e despersonalizados.

Muitos anos depois, quando descobri (e acreditei), em razão da terapia mencionada na “biografia do autor”, que escrevia melhor do que a média, comecei a escreve tentando traduzir meu caos mental em palavras e, se é que isso seria um processo de escrita, sentava-me com caneta esferográfica na mão (direita) e simplesmente as palavras jorravam sem ordenação consciente; o texto vinha aos borbotões e sem qualquer espécie de crítica lógica de minha parte.

Um exemplo disso é a poesia “O Haarvo (poema do distúrbio)”. O texto todo me surgiu quando soube da morte do cineasta Glauber Rocha em agosto de 1981, que chocou muito também a mim. Glauber era uma pessoa que eu admirava. Cheguei à casa vindo do trabalho, peguei um bloco de folhas de papel estriado branco e verde claro de impressora e escrevi em texto corrido todo o rol de sensações que desencadeara em mim a morte de Glauber.

Foi num vórtice só, como se vomitasse de um estômago inconsciente a sensação da morte de Glauber, num único e prolongado esforço mental. Não houve qualquer método nem ideia ou planejamento prévio, veio simplesmente e sem qualquer trabalho consciente de minha parte.

Passado algum tempinho, encontro as mais de quarenta folhas manuscritas desse texto, leio-as e decido passar o texto em forma de versos. Percebo, então, que se trata de um longo texto algo assim “metafísico” e dando sensação de algum distúrbio pessoal. Imediatamente surge o nome-título “O Haarvo (poema do distúrbio)”, assim pronto e acabado. O trabalho árduo mesmo foi passar tudo aquilo em forma de versos.

Evidentemente, nada de rima sonora existe ao longo do que chamei “poema”, especialmente pelo fato de o original ter vindo em forma de prosa; digamos, uma “prosa-desabafo”, creio que seria uma denominação correta. O processo de convertê-lo em versos foi realmente exaustivo, embora não propriamente difícil, mas sim pela concentração mental a que me submeti para dividir um texto linear em linhas separadas como versos, além da quase total ausência de pontuação, tornando O Haarvo um texto complicado, confesso.

Geralmente, meus textos vêm dessa forma, mas isso não significa que eu não pretenda escrever textos planejados e formalmente estruturados, pois o desejo do escritor é que suas obras sejam lidas e isso demandará do autor uma disciplina que jamais teve – 10% de inspiração e 90% de transpiração costuma ser a chave do sucesso em qualquer empreitada. Apesar de tudo, há que se manter os pés no chão de vez em quando.
Do you remember the first story you ever read, and the impact it had on you? [Lembra-se da primeira história lida e o impacto dela sobre você?]
Pergunta difícil essa. Não tenho certeza, mas há ao menos dois “primeiros” livros que devo ter lido e que me impressionaram a memória: os livros infantis de Monteiro Lobato, o primeiro talvez “Reinações de Narizinho” ou “Caçadas de Pedrinho” (li a coleção inteira da série “Sítio do Picapau Amarelo”) e “Três Escoteiros em Férias no Rio Paraná”, de Francisco Carvalho de Barros Júnior.
Was you a regular reader at your childhood? [Você era um leitor regular na sua infância?]
Eu não me considerava o que hoje denominam um “rato de biblioteca”, mas acho que lia bastante desde pequeno. Costumava ler fábulas e contos infantis, entre eles o inesquecível “Os Mais Belos Contos de Fadas Chineses”, da extinta Editora Vecchi. Eu tinha também uma coleção de obras de Julio Verne, da qual me lembro de apenas de ter lido “Vinte Mil Léguas Submarinas”. Havia livros demais nessa coleção. Meus pais tinham em casa grande quantidade de livros e fomos habituados à leitura.
Where did you grow up, and how did this influence your writing? [Onde você cresceu e como isso influenciou a sua escrita?]
Cresci em um bairro de classe média na cidade de São Paulo, mas acredito que isso não teve influência em minha forma de escrever, apesar de conviver diariamente com livros nas prateleiras de casa. Talvez seja o fato de sempre haver sido extremamente curioso a respeito de qualquer coisa, e também com leitura de livros, que haja me vinculado inconscientemente com uma espécie de encanto em trabalhar com palavras.
And after your childhood, what did you used to read on your teens? [E depois de sua infância, o que você costumava ler na sua adolescência?]
Houve um período de transição entre a infância e a adolescência em que fiquei como que viciado em “pocket books” de histórias de faroeste. Um tio meu, que sempre lera muito ao longo de sua vida, passara a comprar aos montes esse tipo de livreto e eu os lia, fascinado com o velho oeste norte-americano. Eram histórias relativamente curtas e eu lia um atrás do outro.

Um dos autores que me lembro bem, e que era muito bom nesse tipo de enredo, foi Marcial Lafuente Estefanía, que recentemente soube que era espanhol. Aos 12/13 anos de idade, eu achava magistral a forma dele narrar aventuras de faroeste. Essa fase não durou demais e eu logo me tornei aficionado por Graham Greene, Ian Fleming (li à época quase toda a série James Bond), além de Érico Veríssimo e alguma coisa de Earl Biggers (Charlie Chan), Agatha Christie, Mark Twain e alguma coisa mais que não me lembro. Como se nota, jamais fui um grande leitor.

Ah, sim, fui assinante da revista Visão por um bom tempo e eu lia da capa à contracapa, incluindo tudo o que estava publicado – ainda que não compreendesse muita coisa. Foi um exercício de força de vontade. E também lia A Folha de São Paulo, que aquele meu tio do faroeste assinava.
After all, what writers really impressed you in the literature? [Afinal, que autores realmente impressionaram você na literatura?]
O primeiro escritor a me arrebatar de corpo e alma foi Fernando Pessoa. Isso ocorreu quando eu morava em Lisboa e, convidado pelo guitarrista José Lopes e Silva, fui assistir a uma apresentação de música erudita, salvo erro, no Convento das Carmelitas em Almada. No intervalo da apresentação, saí da sala para fumar um cigarro. Enquanto conversava com Joé e fumava, percebi que na sala do evento havia alguém declamando algo. Não mais se ouvia qualquer ruído por ali.

Atraído pela curiosidade, voltei à sala e encontrei o homem que falava. Fiquei imensamente impressionado com a força poética do que ouvia. Parecia que eu havia entrado em transe. Bebia degustando cada palavra e entonação mágicas do texto. Terminada sua apresentação, perguntei a José do que se tratava e fiquei então sabendo que ouvira o poema “Tabacaria”, de Fernando Pessoa (por seu heterônimo Álvaro de Campos). Jamais me esqueci da sensação de descoberta de um gênio, naquela noite encantada e daquele convento.

De volta ao Brasil, alguns anos depois li Clarice Lispector, de quem apenas conhecia de nome. Foi outra paixão instantânea. Encontrara outra força da natureza literária, para mim tão imensa quanto Fernando Pessoa – respeitados os ambientes e épocas em que viveram. Mas esses dois escritores são para mim o máximo em termos literários. Fernando Pessoa seria meu “primeiro colocado”, em razão da absurda multiplicidade de sua obre literária; mas Clarice também é um universo em si.

Evidentemente, também aprecio muito Drummond, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Neruda, Garcia Marques, Borges e tantos outros que minha memória, injusta nesse instante, não alcança. A vida, em especial, talvez seja uma história mal contada.
What inspires you to get out of bed each day? [O que inspira você ao se levantar da cama todos os dias?]
Tomarei essa questão como simples e minha resposta, então, será simples: é poder dar asas à minha curiosidade sobre tudo o que me chama a atenção e seguir livremente minha imaginação, buscando mais por novas perguntas do que por respostas. Isso me faz feliz.
How do you approach cover design? [Como é sua abordagem em relação à capa do e-book?]
Eu resolvi utilizar uma das fotos que tenho armazenadas e tratá-la com processamento de imagens. Procurei um tanto por software que fizesse isso e acabei optando pelo ‘paint.net’, que é gratuito e ofereceu um resultado satisfatório. Há diversos outros, incluindo os programas Adobe, porém são caríssimos para quem não é profissional de imagem.

Na capa de “Contos Meio estranhos”, por exemplo, utilizei a ferramenta ‘Fractal de Mandelbot’ em cima de uma foto de meus arquivos e que resultou numa capa bastante interessante. A capa é o primeiro componente a ser visto pelo leitor, tanto do livro comum como do e-book; se for positivamente impactante, certamente atrairá mais um possível leitor.
What motivated you to become an indie author? [O que motivou você a se tornar um autor independente?]
Há muitos anos sinto vontade de publicar meus textos. Em 1980 fui classificado em terceiro lugar num concurso de Contos Eróticos da revista Status (já extinta) e, em 1981, quarto lugar em concurso de contos Prêmio ´Ignácio de Loyola Brandão`. Em 1998 publiquei, pela Editora Nobel, o livro “Fim do Emprego, Início do Trabalho: O Profissional do Futuro”, com duas tiragens totalizando 3 mil exemplares.

Entretanto, o processo tradicional (ainda) de publicação é bastante complexo, demorado e os custos são altos, resultando em muito mais trabalho do que produzir e editar em e-book por conta própria, especialmente pela Smashwords, com sólido e completo sistema de orientação que facilita sobremaneira a publicação. Já publiquei meu primeiro livro, de contos, e estou publicando outro, de poesias. Pretendo publicar muitos mais e creio ser apenas uma questão de tempo, paciência e determinação até chegar algum reconhecimento como autor.
What are you working on next? [O que você está preparando para a próxima publicação?]
Já está praticamente pronto outro livro, denominado “Diálogos de Plutão”, composto de vinte e um diálogos ‘nonsense’, que poderiam ser pensados como micro peças de teatro, cada uma com um cenário específico e de curta duração. Acredito que sejam bastante divertidas e um tanto absurdas em seus enredos.
Published 2015-01-20.
Smashwords Interviews are created by the profiled author, publisher or reader.

Books by This Author

Diálogos de Plutão (Pluto Dialogues)
Price: $1.99 USD. Words: 21,030. Language: Portuguese. Published: February 24, 2015. Categories: Fiction » Humor & comedy » General
Diálogos de Plutão (Pluto Dialogues) foi escrito como resultado de diversos trechos de conversas ouvidas nas ruas pelo autor, em que apenas pedaços aparentemente sem sentido eram captados, pois tanto as pessoas que conversavam quanto o autor caminhavam de passagem pelos lugares onde partes das conversas eram ouvidas pelo ar, e apenas sensações ficaram na memória.
Poextremos (extremoesias)
Price: $0.99 USD. Words: 9,350. Language: Portuguese. Published: January 20, 2015. Categories: Fiction » Poetry » Portuguese poetry
Este livro vai de um extremo a outro em termos de texto poético. Começa com um poema extenso, subjetivo e altamente psíquico resultante de fato concreto: em 39 páginas, trata de um distúrbio existencial gerado pela notícia da morte de Glauber Rocha, em 1981. Termina minimalista, com uma seleção de haikais, gênero que tem a característica da concisão. No meio, textos poéticos de extensão comum.
Contos Meio Estranhos (Kind of Weird Short Novels)
Price: $5.99 USD. Words: 32,820. Language: Portuguese. Published: December 13, 2014. Categories: Fiction » Literature » Literary
Com oito contos totalmente diferentes e sem qualquer ligação aparente entre si, pode-se dizer que este livro inova no tratamento literário conhecido para a categoria "Contos", assim como em sua estrutura narrativa, em que o leitor certamente não terá a sensação de "Déjà vu". Ao contrário, dificilmente pressentirá o que virá a seguir, pois a constante surpresa é a tônica do texto.